quinta-feira, 19 de novembro de 2020

 (um livro escrito pagina por página)

O GINECOLOGISTA VERMELHO


 O PCB, em Mato Grosso do Sul, ainda na ilegalidade, tinha uma forte inserção nas camadas médias. Nele militaram expressivas lideranças de diversos segmentos profissionais, como médicos, advogados, engenheiros, professores, profissionais de saúde pública, entre outros. Normalmente eram profissionais que após cursarem universidades em outros estados, para cá voltavam já engajados na luta política de esquerda. 

Na ilegalidade, havia também uma rede de simpatizantes da qual pouco se sabia. Ninguém sabia exatamente onde terminava o partido e onde começavam a franja de apoiadores.  Escutava-se o canto do grilo, mas não se sabia exatamente quem era e onde ele estava. Muitos desses quadros e simpatizantes, pelo sucesso profissional durante o milagre brasileiro, acabaram virando fazendeiros, a ponto de nossos detratores, querendo nos amesquinhar diziam que PCB significava partido dos criadores de bois.

Nossa vinda para legalidade, em 1985, onde os nomes foram dados aos bois, foi um momento de grande impacto na sociedade local. Da nossa primeira direção estadual legal participavam pessoas com o cirurgião Alberto Neder, o engenheiro Euclydes de Oliveira militante desde 1935, os advogados Onofre da Costa Lima Filho, Carmelino Rezende, a pecuarista Yonne Orro (depois substituída pelo criminalista  Renê Siufi, para que ela pusesse dirigir o partido em Aquidauna), o arquiteto douradense Luiz Carlos Ribeiro, os professores Amarilio Ferreira Jr. e Paulo Roberto Cimó, a liderança do movimento de favelas Paulo Sudório. Na Câmara tínhamos dois vereadores, eleitos através do PMDB, eu e Marcelo Barbosa Martins, de ilustre sobrenome político. Foi uma grande surpresa para muitos.

  Na direção municipal de Campo Grande, tínhamos nomes de destaque como o desembargador recém-aposentado Athayde Neri de Freitas (recém aposentado), e os médicos Alan Pithan e  Lúcio Bulhões, entre outros.

  Já nos primeiros dias da legalidade, recebi um telefonema de uma aluna, de tradicional família campo-grandense, que muito tinha me ajudado na campanha de vereador. Perguntou-me se eu era comunista de verdade, e que queria ouvir disso de minha própria boca. Diante da minha afirmativa, ela disse que ia ter que refletir sobre o assunto de comunismo com mais atenção. Pouco horas depois voltou a telefonar querendo saber se Marcelo Barbosa Martins era também comunista. Agora ela estava enrascada pois havia pedido voto para ele na família, super-direitista, para o “Marcelinho”, e que jamais ia ser perdoada por isso. Tarde da noite ela me retornou, perguntando a respeito do Paulo Correa da Costa, confirmada a resposta ela não teve como se conter e exclamou, “Putz! até o meu ginecologista era do Partidão e eu nem desconfiava”.

Fausto Matto Grosso


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