domingo, 18 de abril de 2004

DESAFIOS

Tantos quantos de nós receberam visitantes nos últimos tempos devem ter ouvido elogios à nossa cidade. De alguns, inclusive, a referência à semelhança com Curitiba.
Campo Grande encanta seus visitantes, principalmente porque só costumamos mostrar-lhes o lado bonito da cidade.
Mas levantamentos de opinião feitos por Universidades locais mostram, também, que há um reconhecimento generalizado sobre o trabalho de todos nossos prefeitos das últimas três décadas. O povo, muitas vezes, lhes cita as obras e os feitos.
O Plínio Martins, do primeiro plano diretor. O Mendes Canale, da Infraestrutura do Bairro Amambaí. O Levi, da canalização da Maracajú, das melhorias do São Francisco e do uniforme dos escolares. O Marcelo Miranda, das obras no Santo Amaro. O Lúdio Coelho, do asfaltamento das linhas de ônibus, da integração do transportes e da Leste-Oeste. O Juvêncio da Fonseca, da Planurb e da Norte-Sul. Ultimamente, o mesmo reconhecimento é dado a André Puccinelli, realizador de portentosas obras de Infraestrutura.
Não somente obras realizaram esses prefeitos, mas estas constituíram, sempre, a face mais visível da suas administrações. Campo Grande de hoje é, portanto o fruto do empreendedorismo de todos eles, cada qual, pensando a cidade a partir de sua visão pessoal.
Com esse acúmulo parece não ser muito difícil administrar Campo Grande, pelo menos em termos convencionais. A cidade está relativamente bem estruturada, a Prefeitura arrecada bem, o próximo prefeito, provavelmente, estará com seu futuro político assegurado.
Mas há um grande salto a ser dado atualmente que é o de fazer a cidade a partir da visão coletiva da cidadania. Há que se construir um projeto de cidade que ultrapasse os mandatos e a visão pessoal dos mandatários. A cidade não lhes pertence. Mudanças realmente profundas exigem compromissos de continuidade que só um processo mais coletivo pode garantir. Qualquer peão que construa cerca sabe que esta não pode ser feita colocando-se um poste depois do outro, sem balizamento de um poste a longa distância.
A democratização da gestão pública, para acolher a visão de tantos quantos constroem a cidade, é um imperativo e um desafio para quem pretende governa-la com visão contemporânea. A cidadania organizada e participante é a condição para que a cidade seja pensada independentemente dos mandatos e dos mandatários e, portanto, possa enfrentar problemas estruturantes, de maior significado e envergadura.
Alguns desses problemas saltam aos olhos.
Nossa cidade deve crescer indefinidamente para ser uma grande metrópole ou deve buscar uma estabilização que permita o desenvolvimento sustentável? Dentro dessa ótica, como deve ser sua relação com as cidades vizinhas, polarizadas pela capital? Não estaria na hora de pensar Campo Grande como região metropolitana integrada com os municípios lindeiros?
No âmbito da democracia participativa que papel devem ter os vários conselhos regionais e setoriais? Tais conselhos, existentes em grande número, no geral, têm baixíssima efetividade, como melhorar esse quadro?
Na área social, quais os níveis desejáveis e factíveis de desenvolvimento humano a serem perseguidos pelos programas e projetos que as diversas administrações forem criando? A criação do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal – IDH-M, calculado pelo IPEA/PNUD, serve exatamente a esse propósito e cria uma base para a avaliação, objetiva e independente, da responsabilidade social das administrações. Com publicização dessa informação a cidadania estará melhor protegida dos balanços ufanistas e propagandistas que os governantes fazem de si mesmos.
Transformar Campo Grande de uma cidade bonita que cresce, numa cidade que se desenvolva com qualidade de vida crescente muito orgulhará o campo-grandense ao mostrá-la, por inteira, aos nossos futuros visitantes.

FAUSTO MATTO GROSSO
Engenheiro Civil e professor da UFMS

18 de abril de 2004

quinta-feira, 8 de abril de 2004

PERÚ COM CHAMPAGNE (II)

Através dos vidros imensos, o Presidente olha o gramado do Palácio. Amanhã começará o seu segundo mandato, após uma vitória apertada nas urnas. Será um dia extenuante, de muita festa.
Seu pensamento voa. Sente-se amadurecido após tantos embates, acertos e erros. Lembrou-se de outros Presidentes. Tinha virado as costas para o Sarney quando morreu Tancredo. Tinha virado as costas para o Itamar após o desastre Collor. Eles que se danassem! Passado o tempo sentia agora o quanto o tinha errado e sido pouco grandioso.
Nos dois primeiros anos do seu governo pagara um alto preço da inexperiência. Faltara-lhe um programa de governo claro e objetivo. A história da herança maldita passou a não colar mais. Pensava que a simples negação, que aprendera a fazer na oposição, lhe credenciaria para fazer as mudanças. Enganara-se. Não bastava honestidade de propósito. Governar é complexo, não bastava a generalidade do “modo petista de governar”. Ninguém consegue governar sozinho. Aprendeu isso à duras penas.
Só conseguiu mudar esse quadro quando a crise se aprofundou em 2004. Apelou para a Nação. Quem diria! Foi à televisão pedir “não me deixem só!” . Pior é que se percebera só e mal acompanhado.
Mas teve apoio da Nação para fazer as mudanças. O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, depois de modificado, foi seu grande trunfo para mudar o eixo da governabilidade. Firmara ali o seu Pacto de Moncloa. Pactuou ali as mudanças pelas quais o País clamava. No Congresso, pode então construir uma aliança, mesmo que tática, com forças com as quais nunca imaginara poder contar. Fora ali a sua salvação. Conseguiu uma sólida base congressual baseada num programa de mudanças e não no toma lá da cá de cargos e do manejo das emendas parlamentares. Conseguira se livrar daquela coisa nojenta.
Foi uma mudança dura, que lhe causara muita dúvida e muito desgaste. Mas, afinal, já estava consciente que o pior era continuar como vinha nos dois primeiros anos do governo.
Às denuncias sobre deslizes éticos respondera com a transparência. Orientara a aprovação das CPIs para investigar livremente as denúncias. Tivera, é certo, que afastar seu Ministro mais importante. Mas teve a satisfação de vê-lo voltar, depois, com a ficha limpa. Tudo não passara de uma tempestade em copo d’água. Mas entendeu que aquele episódio era apenas a ponta de um iceberg. Demonstrava o grande descontentamento da Nação com a crise econômica e com os resultados pífios do seu governo.
Naquele momento começou a implementar uma nova política econômica que permitira ao país voltar a crescer. Não conseguira, é certo, os 10 milhões de empregos, mas recuperou a esperança do povo. Quanto lhe doía ver o Brasil, que tantos imigrantes acolhera, ter virado exportador de gente.
Tivera que bater duro contra a cultura financista da sua equipe econômica. À política de responsabilidade fiscal, mandou sobrepor a política de responsabilidade social. Exigiu metas de desenvolvimento social.
A Reforma Agrária começou a andar efetivamente. Muito ainda terá que se fazer no segundo mandato, mas o clima de guerra e de intranqüilidade diminuiu sensivelmente no campo. A agricultura familiar começou a dar frutos tão importantes quanto à agricultura de exportação.
Tivera, é certo, que enfrentar o seu partido. Anos de oposição contra tudo e contra todos o tornara arrogante e de dono da verdade. Trouxera isso para o Governo. Demonstrara, também, que tinha vícios do empreguismo, foi um problema sério que teve que enfrentar. A deformação hegemonista, que carregava, transformou-se em política de cooptação sem princípios, não de parceiros, mas de apoiadores interesseiros.
Teve que colocar seu partido no seu devido lugar, fora do governo. Esse era o principal papel do partido, aliás, de qualquer partido. O partido que se subordina às razões de Estado, e não as razões da Sociedade, se deforma. Governo é Governo, partido é partido. Os dois são importantes, mas fundi-los pode levar ao mesmo desastre que acometera a União Soviética. Se tivesse aprendido isso a tempo, não teria perdido tantos companheiros valorosos, da esquerda do partido.
Tivera a coragem, também, de liderar a proposta do parlamentarismo. Carregara durante muitos anos o sentimento de culpa por não ter, no passado, apoiado essa luta, velha bandeira da esquerda democrática. Tinha cedido à visão golpista de que o parlamentarismo naquela ocasião era para barrar-lhe o caminho. Terá agora um segundo mandato como Chefe de Estado e de Governo, mas o seu substituto em 2010 já terá funções diferentes e governabilidade baseada na co-responsabilidade do Congresso.
Com as mudanças empreendidas pudera recuperar os índices de popularidade do início do governo. Isso lhe deu fôlego para voltar novamente às ruas e as urnas. Pode associar a sinceridade do seu discurso com a esperança que ainda despertava no povo sofrido. A batalha foi dura, mas a esperança venceu a descrença! O povo voltara a acreditar que o Brasil ainda era um país viável!

FAUSTO MATTO GROSSO

Engenheiro e professor da UFMS. 8/4/2004

sexta-feira, 19 de março de 2004

COM TODO O RESPEITO

Dia desses defrontei-me, nestas paginas, com um artigo de um respeitável intelectual - pessoa afável - bem sucedido pecuarista. Imagino que alguns leitores tenham se identificado com o protesto antiesquerdista que fazia, afinal trata-se do que se pode chamar de “intelectual orgânico” do pensamento conservador, com todo o respeito.
Tratava ele, avô zeloso, da “absurda” presença de Olga Benário no livro de história da sua neta. Mais ainda, recomendava que as diretoras censurassem a escolha dos livros didáticos. Aparentemente clamava por mais isenção. Falava também da sua juventude estudantil quando convivera com jovens que estudavam história e geografia, por “recomendação do Partidão”, para poderem ocupar posições estratégicas para doutrinar as mentes. Contra esses se opusera engajadamente.
Ter vivido a juventude sem passar pela esquerda foi uma pena. Perdeu uma grande oportunidade. Na sua geração, poucos os estudantes não o faziam. Significa que perdeu a generosidade muito cedo. O Partidão, todos reconhecem, sempre foi uma grande escola de política. Perdeu a oportunidade de ter estado em boa companhia com Carlos Gomes, Oscar Niemayer, Oswald de Andrade, Carlos Drumonnd de Andrade, Jorge Amado, Djanira, Caio Prado Jr, Di Cavalcanti, Ferreira Gullar. Só para ficar na nossa província, passaram pelo Partidão ou suas cercanias, Wilson Barbosa Martins, José Fragelli, Manoel de Barros entre outros.
A história, sempre se disse, é escrita pelos vencedores. Há aqueles que, vencedores de batalhas, se julgam vencedores da guerra e anunciam o fim da historia. Só aceitam a versão momentânea, transformada em rolo compressor.
A reclamada neutralidade da ciência e da história só existe para ingênuos, o que imagino, não deva ser o caso.
Adam Schaff, diz que a verdade não é encontrada como se busca um peixe na banca do mercado, mas sim, jogando a rede no mar. Cada um escolhe o seu mar preferido. Se diz isso da ciência, o que dizer da história e da política. A “verdade” existe, mas cada um percebe uma das suas faces, num processo infinito de construção do conhecimento. Essa percepção é fruto do seu ponto de observação, ou seja, da sua existência social, do seu interesse.
É o pluralismo do conhecimento, a liberdade e a democracia que melhor permitem avançar, contraditoriamente, rumo as últimas conformações da verdade.
Com relação ao citado episódio da Olga Benário, felizmente pode-se hoje, graças às conquistas democráticas, contar-lhe a história. Aliás, com grande público, que se emociona com o livro e o filme, ou deveriam, também, ambos serem censurados e proibidos?
Muitos se calaram quando a Ditadura Militar usou a Educação Moral e Cívica e criou posteriormente o Estudos dos Problemas Brasileiros com declarada intenção de domesticar as mentes. Muitos deviam estar ocupadíssimos com o “Milagre Brasileiro” e nem se deram conta.
Desse tempo, tentam queimar os arquivos. Felizmente o Brasil hoje mudou e a história vai poder ser revisitada. Muitos episódios que só tinham a versão oficial aparecem hoje com mais nitidez. As famílias dos insepultos um dia poderão deixar de serem compostas de órfãos de pais vivos, mortos, quem sabe, ou viúvas de marido vivo, mortos, quem sabe, como tão bem precisou o ex-Deputado Alencar Furtado.
Proibir ou queimar livros na fogueira, como no passado, é em tudo parecido com banir episódios reais da história do Brasil.

FAUSTO MATTO GROSSO
Engenheiro Civil
Professor da UFMS

23/12/2004

quarta-feira, 17 de março de 2004

ZONA DE PERIGO

Orientam os manuais de gestão estratégica que os governos devem fazer, permanentemente, três balanços: o da condução da política macro-econômica, o da governabilidade e o da resolução de problemas. Essa é missão do Ministro, zen, Luis Gushiken.
Não se pode ter resultados negativos nos três balanços, mas pode-se, com um bom manejo estratégico, salvar pelo menos dois deles em cada momento. Nesta ótica, o Governo Lula está entrando rapidamente na zona do perigo.
É negativo o balanço que se pode fazer hoje da política macro-econômica. Se por um lado consegui-se evitar a explosão dos juros e da taxa de risco, isso não representou nada mais do que resolver problemas de desconfiança do mercado, que Lula e o próprio PT criaram pela suas trajetórias. O pior é que toda a expectativa quanto ao “milagre do crescimento” está sendo criada quanto ao manejo dessas duas variáveis, como se o mercado pudesse resolver, sozinho, o problema da retomada do desenvolvimento.
Não foi enfrentado nenhum gargalo importante da economia nacional. Faltam políticas industrial e tecnológica efetivas. A questão da dívida, de longe o mais desafiador, continuou intocável, fazendo o Brasil corar-se de vergonha diante da Argentina. Os recursos para investimentos e política sociais estão sendo drenados para a roleta financeira internacional e nacional. Aumento do desemprego e taxas negativas de crescimento são os resultados mais visíveis da política Pallocci. Resultado: governo está sendo deficitário nesse balanço.
Quanto à governabilidade, foi conseguida uma base de sustentação congressual apreciável, mesmo que utilizando métodos tradicionais tão criticados pela esquerda.  A votação das reformas que o diga. A adesão do PMDB selou esse sucesso. Pena que a parcela de governabilidade, que poderia vir da Sociedade Civil, foi menosprezada.
Ia tão bem o resultado do centro-avante José Dirceu, que ele foi deslocado para outra posição, para cuidar dos resultados. A governabilidade pode ser passada para o PcdoB tomar conta. Entretanto esse resultado, em função da crise econômica e das denuncias que quebraram a imunidade ética do PT, começa a sofrer desgaste. O “fogo amigo” do PT, e de alguns aliados, complica ainda mais a situação. Apesar disso Governo ainda pode ainda comemorar o resultado do balanço da governabilidade. Não se sabe, entretanto, por quanto tempo e a que preço.
No balanço da solução de problemas, o governo perdeu feio.  Partidarização da administração, quadros sem a qualidade necessária, inexperiência e disputas internas fragilizaram a gestão Lula.
Orçamentos contigenciados, para gerar permanentes superávits, inviabilizaram recursos minimamente necessários para a produção dos resultados. Políticas sociais sem recursos, investimentos em infraestrutura, que não saíram do papel, deram a tônica da frustração do “espetáculo do desenvolvimento”. Aquele que seria o programa símbolo do novo governo, o Fome Zero, foi o  exemplo mais vexaminoso do fracasso do balanço da produção de resultados.
O reforço que veio no segundo tempo, através do Ministro José Dirceu, deslocado para cobrira ala dos incompetentes do “aparelho”, quando chegou, veio fragilizado.
Consultando a tabela, o Governo que precisava pelo menos de 2X1 para continuar jogando, está perdendo por um preocupante 1X2. Entrou na área do perigo de rebaixamento. Preocupantemente, está garantido apenas no tapetão do Congresso. Ainda bem que tem o Sarney. Fora Sarney! Desculpe, Viva Sarney!


FAUSTO MATTO GROSSO Vice-Presidente do PPS/MS 17/03/2004

BRIGA DE RUA DA MICRO POLÍTICA

O pensador e revolucinário italiano Antonio Gramsci classificava a política em micro política – aquela ligada às intrigas, às conspirações palacianas, às disputas de projetos pessoais – e a Grande Política, esta ligada as disputas pelo rumo do Estado, aos embates ideológicos, às disputas pela hegemonia dos grandes projetos coletivos.
A política brasileira tem sido o exemplo, nada dignificante, do que não deve ser a política. Mas não inventaram ainda democracia sem política. Isso é o preocupante.
A conjuntura que vivemos, coloca o Governo Federal e o PT num autêntico inferno astral.
Talvez o PT merecesse o que está acontecendo. O Brasil e a democracia brasileira é que não merecem.
O PT errou muito no passado. Construiu a sua história e a sua via de acesso ao poder político, com o denuncismo, com o discurso fácil, com o quanto pior melhor, com postura absolutamente maniqueista do bem e do mal e com completa falta de compromisso com o pluralismo e com a democracia. Na política eleitoral nunca quiseram, sinceramente, aliados e sim apoiadores.
Apesar disso virou a esperança do povo brasileiro. Essa esperança não pode ser desprezada, deve ser resgatada. Este deve ser o rumo da saída da atual crise política. Não existe saída pelo revanchismo e pela desmoralização da política. A crise deve ter como produto a reorientaçao do governo e um novo PT, isso é importante para o País, para a democracia brasileira e também para a esquerda não petista.
É com esta visão que o PPS, que não participou do fora Sarney nem do fora FHC, não patrocinará o agravamento da crise que poderá levar ao fora Lula.
Mas isso depende, logicamente, de o Governo e de o PT quererem a reorientar a sua política. A governabilidade não pode continuar sendo contruída com base no fisiologismo da distribuição de cargos e de emendas parlamentares mas sim no compartilhamento de um projeto para o País com outras forças comprometidas com as mudanças.
O Governo não se manterá se quiser continuar sendo um “aparelho do PT” avassalado pela visão do financismo e refém das velhas raposas oligarquicas.
No interior do Governo, a discussão sobre os novos rumos padece de falta de criatividade. Essa briga entre adeptos do finacismo contra os desenvolvimentistas, entre Palocci e José Dirceu é reprise da que ocorreu no governo FHC, entre o malanismo e a dupla Sergio Motta-José Serra.
Não haverá uma saída que avançe a política e o desenvolvimento brasileiro sem a constituição de um amplo aliança de centro-esquerda. O PPS, que não abre mão da Grande Política, tem apontado para a necessidade de uma convergência histórica, programática entre o PT e o PSDB. Embora pareça hoje impossível essa é uma hipótese defendida por Roberto Freire que encontra eco dentro de setores responsáveis do PT, a exemplo do Ministro Tarso Genro, que já se manifestou publicamente sobre isso.
Sair dos cerco do fisiológismo e do financismo, compartilhar o projeto nacional com generosidade, construir rapidamente competência para solucionar problemas esta deve ser a saída da crise. Uma democracia sem resultados não se sustenta.

FAUSTO MATTO GROSSO
Vice-Presidente do PPS/

faustomt@terra.com.br

segunda-feira, 2 de agosto de 1999

AS CAUSAS DA NOSSA VITÓRIA

A história política de Mato Grosso (do Sul) nos últimos 35 anos foi a historia do pedrismo. Enquanto a anti-pedrismo tradicional produziu ao longo do tempo diferentes líderes - Fragelli, Canale, Marcelo Miranda, Wilson Martins, Ramez Tebet e Lúdio Coelho - o elemento permanente, nesse período, foi Pedro Pedrossian.
Compreender a história política de Mato Grosso do Sul demanda decifrar as razões dessa liderança e o seu significado como expressão de hegemonia, tarefa que está longe de estar realizada.
Eleito Governador pela primeira vez em 1965, pelo PSD, representou uma candidatura de oposição ao regime ditatorial em implantação. Foi a memorável campanha do “tostão contra o milhão” na qual derrotou Lúdio Coelho da UDN. Candidato anti-oligárquico recebeu o apoio das forças democráticas e da esquerda, que acabaram sendo vitimadas pelas prisões que antecederam o pleito.
Foram seus companheiros de vitória os governadores Negrão de Lima (GB) e Israel Pinheiro (MG). Essa derrota inesperada do regime foi apontada, à época, como um dos motivos da extinção dos antigos partidos.
Toma posse chantageado pela ditadura em função de denúncias a respeito da sua administração da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Protegido por Filinto Muller, salva-se e adere ao regime militar.
Pedrossian foi o intrumento, em Mato Grosso (do Sul), do projeto de modernização conservadora realizado a partir de 64. Paradoxalmente, cumpriu um papel que a oligarquia sul-matogrossense pensava estar reservado para sí. Por isso talvez nunca tenha sido perdoado completamente.
Realizando grandes investimentos - transportes, energia, comunicações, universidades - sua primeira administração cristalizou em Pedrossian a marca de “tocador de obras”, de governante realizador, embora autoritário e de conduta ética questionável.
Sendo a expressão política do bloco hegemônico constituído pelos beneficiários mais diretos do “milagre brasileiro” e da modernização conservadora – empreiteiras de obras públicos, desbravadores da fronteira agrícola, burguesia comercial, pecuaristas tradicionais – Pedrossian fundou o seu reinado para, até a entrada do século XXI, não sair de cena.
Quando o modelo econômico do regime militar entra em crise o quadro começa a alterar-se. A crise econômica sobreposta à nova dinâmica social produzida pela rápida urbanização, ao crescimento das camadas médias e às dificuldades de financiamento da produção agrícola, foi gerando a base social para uma contra-hegemonia composta pelas forças que se articulam no PMDB e entorno de sua mais expressiva liderança Wilson Martins. Este projeto, inicialmente vinculado à luta pela democratização, cresce e começa a realização no Estado uma alternância (direta ou indiretamente) entre os dois projetos em disputa.
A cada subida de Pedrossian, a política de grandes obras e de grandes dívidas. A serem terminadas, pagas e denunciadas pelo anti-pedrismo “udenista”, impotente e incapaz de produzir um projeto alternativo ao da modernização conservadora realizada pelo seu antecessor. Cabia a este último apenas a denúncia ética, a sina de pagar as contas e terminar-lhe as obras, ou seja, realizar o projeto de seu antecessor.
Nessa medida, pedrismo e anti-pedrismo tradicional não passavam de duas faces da mesma moeda. Um não existiria sem o outro.
O último governo de Wilson Martins construiu a base para a ruptura, por esgotamento, desse processo de alternância. Paralisia administrativa, desestruturação da máquina pública, generalizada falta de vontade política, crise fiscal e a perda completa do que lhe restava, o discurso ético.
Quando se igualaram na questão da moralidade pública, o pedrismo e wilsismo (anti-pedrismo tradiconal) o círculo da disputa oligáquica rompeu-se. Instalou-se a crise de hegemonia. O candidado apoiado pelo governo, Ricardo Bacha, e o próprio Pedrossian foram duramente surpreendidos no primeiro turno pelos bons resultados da Frente Muda MS, liderada pelo governador Zeca do PT e construídos por uma persistente política de acumulação de força eleitoral.
Dadas as disputas históricas, não restou a Pedrossian outra alternativa a não ser o apoio tático, por sinal decisivo, para a eleição do primeiro governo hegemonizado pela esquerda em Mato Grosso do Sul.
A conjugação conjuntural de uma chapa com composição ampla (Zeca com uma boa base popular, inclusive reforçada pela recente disputa municipal, Kohl com a respeitabilidade de bem sucedido empresário rural e urbano e Carmelino a grande figura que deu o tom do discurso ético) com a crise econômica (especialmente na agricultura) e o desemprego, somado ao apoio tático do pedrismo produziram a vitória do Movimento Muda MS.
Fruto do alinhamento de uma séria de fatores favoráveis, nossa vitória não expressa uma real acumulação de forças pelo nosso projeto. Prova disso foi a expressiva vitória, em nosso Estado, de Fernando Henrique e a composição amplamente minoritária das nossas representações parlamentares no Congresso e na Assembléia Legislativa.
Se de um lado soubemos, com ousadia, aproveitar a crise de hegemonia das forças políticas tradicionais, encontramo-nos hoje diante do desafio de consolidar um novo bloco político hegemônico.
Para isso precisamos um projeto claro, transformador, capaz de representar aspirações amplas da sociedade sul-mato-grossense. Com as responsabilidades e as possibilidades do Governo, começar a dar-lhe vida, produzindo resultados e consagrando marcas que embasem o reconhecimento e a cumplicidade dos atores sociais e políticos que tenham a ver com o nosso projeto e que possam dar-lhe sustentabilidade.
Construir uma nova política para embasar um novo projeto hegemônico duradouro é o desafio que se coloca hoje para as forças do Movimento Muda MS.

FAUSTO MATTO GROSSO
Secretário de Planejamento e de Ciência e Tecnologia
Membro dos Diretórios Nacional e Regional do PPS

Artigo produzido para seminário da Fundação Perseu Abramo em 02/08/99 23:01:58

segunda-feira, 28 de junho de 1999

O PRESIDENTE ESTÁ CHEIO DE PASSADO E REPLETO DE FUTURO”
Liebniz
Conheci Marisa Bittar ainda como uma jovem estudante de História. Fazia parte de um grupo de militantes estudantis que, a seu modo, “fazia” história. Nas lutas democráticas da década de 70, imprimiam a marca de sua juventude, de seu inconformismo, de seus sonhos nos fatos políticos de Mato Grosso (do Sul) e de Campo Grande. Entre eles, ela se destacava. Coerente, rigorosa já sinalizava o seu futuro intelectual.
Hoje, grande parte desse grupo, constitui a nova intelectualidade de Mato Grosso do Sul.
Para mim e para tantos outros de uma geração acima da daqueles jovens, mas que com ela conviveu e compartilhou sonhos generosos, é um orgulho. E também uma sensação de segurança. Invertendo a lógica: é poder chamar o jovem “irmão mais velho” quando a disputa se torna mais acirrada.
Afinal, em História, “...os fatos não se assemelham aos peixes expostos na banca do comerciante. Assemelham-se aos peixes que nadam no oceano imenso e muitas vezes inacessíveis; o que o historiador apanhará depende em parte do acaso, mas sobretudo da região do oceano que tiver escolhido para a sua pesca e da isca da qual se serve. Estes três fatores são, evidentemente, determinados pelo tipo de peixes que se propõe apanhar.”* Uma realidade única, quantas versões, quantas verdades !
E Marisa lança com precisão seu molinete. Desmistifica, apresenta fatos novos, aponta contradições, supre insuficiências. Sempre guiando-se pelo caminho seguro do rigor metodológico, escreve a sua “verdade relativa”, buscando nas fontes primárias, ouvindo protagonistas relevantes, registrando e organizando informações. Dessa forma passamos a ter uma historiografia sul-mato-grossense mais plural.
Nessa pluralidade “Geopolítica e Separatismo” acrescenta muito pela rica contextualização de Mato Grosso do Sul e de Campo Grande na política nacional. O tenentismo, a Revolução de 32, a ditadura Vargas e o Regime Militar, vão exercendo o papel de determinantes exógenos a comporem-se com as dinâmicas locais de ocupação do território e dos coronéis, das crises hegemônicas e dos chefes revolucionários, da ocupação da fronteira agrícola e das lideranças representativas dos novos grupos sociais, do poder ditatorial delegado e da resistência democrática. Assim foi sendo construído Mato Grosso do Sul e sua vibrante capital.
Nesse momento, quando o Estado e Campo Grande, crescentemente dedicam-se a delinear planos de futuro, nada melhor do que um mergulho no passado. Este livro é socialmente necessário. Não para buscar condicionantes, mas para ver como essa gente multicultural soube sempre enfrentar e superar seus desafios.
“Esta terra ainda vai cumprir seu ideal”. A autora, na conclusão, não esconde o seu saber afetivo de sujeito. Fez, faz, escreve sobre e, mesmo à distância, quer continuar fazendo história”.
No seu centenário, este livro pode ser considerado um belo presente para Campo Grande .

FAUSTO MATTO GROSSO
Professor da UFMS,
Secretário de Planejamento e de Ciência e Tecnologia do

Governo Popular de Mato Grosso do Sul

segunda-feira, 7 de setembro de 1998

“OI NÓS AQUI TRAVEZ”

(À CRÍTICA)
Como diz o samba, o “Partidão” volta à Câmara Municipal de Campo Grande. Se antes chegávamos através de outras legendas, como era a regra do jogo da ilegalidade (Vasconcelos pela UDN, Marcelo Martins e eu pelo PMDB), hoje com Athayde Júnior chegamos com nossa própria cara. Entretanto é o mesmo inconformismo ético em relação às históricas iniqüidade da sociedade brasileira.
É o velho “partidão”, agora PPS, mas ao mesmo tempo um partido que tenta ser profundamente novo em suas concepções, contemporâneo, realizando um grande esforço para mostrar a necessidade e a possibilidade de uma nova esquerda, de profundo compromisso democrático e em luta permanente para construir um novo projeto humano.
Do nosso vereador esperamos a radicalização. Afinal, somos esquerda para isso. Para realizar todas as rupturas possíveis com o processo de exclusão social, com o autoritarismo arraigado das elites brasileira, com as atuais práticas políticas que têm amesquinhado e desmoralizado a política como atividade superior do homem.
Mas que radicalize só o bom radicalismo, aquele que o povo possa acompanhar, que possa ter sintonia com as aspirações mais amplas da sociedade, que seja agregador de força social e política transformadoras. Nunca aquele que isola. Afinal, é lá no canto do ringue que a direita gostaria de nos ver, isolados, apenas protestando, sem possibilidade real de isolados, apenas protestando sem possibilidade real de participar da disputa do poder, para transformá-lo.
Temos certeza de que valorizará o mandato que recebeu, que cumprirá as suas tarefas e prerrogativas legislativas, e não será mero espectador de iniciativa de leis pelo parte do Executivo, como tem sido a triste tradição parlamentar brasileira. Que fará isso profundamente ligado à sociedade civil, que desta, será canal e instrumento de transformação.
Que enfrentará à tradição despolitizada de enxergar o vereador como mero despachante para cuidar de buracos de rua. Aliás, na época do meu mandato, alguns vereadores até pressionavam o Executivo para que não recebesse diretamente as reivindicações do movimento comunitário, sem que essas passassem pelo clientelismo dos seus gabinetes. Custa muito caro ao povo manter a Câmara Municipal para função tão mesquinha.
Esperamos do nosso vereador muita coragem, o que ele já demonstrou na luta sindical. Que enfrente os especuladores da terra urbana, os sonegadores – eternamente à espera de anistia fiscal, os depredadores do meio-ambiente. Que cobre um planejamento urbano transparente e democrático. Que exija educação, saúde e lazer de qualidade para esse povão eternamente excluído. E que preste atenção no Orçamento Municipal, pois é aí que se administra transformação das intenções em realidade. Orçamento é Poder.
Que fiscalize seriamente a aplicação do dinheiro público, inclusive na Câmara, sem esquecer de verificar, muito atentamente, se o subsídio que receberá está perfeitamente dentro da legalidade e da moralidade que o novo Brasil está exigindo.
Comportando-se assim, não precisará importar-se o plenário está cheio ou vazio, pois estará respondendo às pessoas que viram nele a possibilidade da nova política; responsável, competente, contemporânea das novas expectativas éticas, democrática e transformadora.
Política feita por políticos dos quais os eleitores não precisam ter vergonha.

FAUSTO MATTO GROSSO

segunda-feira, 31 de agosto de 1998

ESQUERDA E SUCESSÃO ESTADUAL

Traço comum de todos os discursos é a afirmação da crise nacional. Uma situação de crise normalmente é criada quando esgota-se um projeto hegemônico e um outro projeto não consegue se impor. E isso é o que caracteriza a história recente do país. O projeto de modernização conservadora implementado pelo regime militar perdeu a hegemonia para o projeto de democratização. Este entretanto não conseguiu ainda se firmar, implodido pela heterogeneidade da frente democrática.
O Plano Cruzado, face econômica de um projeto centrado na burguesia industrial não conseguiu se sustentar. O projeto neo-liberal, tentativa de modernização capitalista desejada pelo capital financeiro e por setores exportadores competitivos, fez água com a derrocada do governo Collor. O campo progressista não conseguiu firmar sua alternativa democrática para a crise. Todos os olhos voltam-se agora para a nova hegemonia que brotará das urnas em 94.
Enfim, a conjuntura política se transformou em uma infindável transição à espera de uma nova hegemonia enquanto a vida social resvala para o barbarismo. Começa-se a ouvir na opinião pública a inquietante pergunta se a democracia vale a pena.
Em nível estadual a falta de um projeto político alternativo, centrado nas forças progressistas , suficientemente amplo para se candidatar à hegemonia, faz também com que, há anos , a política regional gire em círculos, num troca-troca infindável entre as velhas lideranças oligárquicas ou seus prepostos. È só ver os nomes dos últimos governadores e prefeitos da capital .
O período do Governo Wilson Martins, no qual as forças progressistas tiveram alguma participação, revelou-se frustrante, devido a falta de audácia reformadora imposta pelos compromissos que lhe garantiram a vitória e balizaram a sua sucessão.
Novamente aproximamo-nos de uma disputa eleitoral. E desta vez teremos uma eleição casada. Que provavelmente será influenciada decisivamente pela disputa presidencial. Mais que nunca coloca-se para o campo progressista a necessidade da disputa pela hegemonia política, não mais de uma forma subalterna e caudatária mas com alternativa própria ampliada por alianças no campo democrático. As duas últimas eleições, a do governo do estado e da prefeitura da capital, mostraram que a esquerda, apesar das suas dificuldades, começa a apresentar alguma densidade eleitoral. Tivesse ela sido capaz de articular um bloco político, e um projeto mais consistente, outro poderia ter sido o resultado. Este é o desafio que está novamente posto pela conjuntura. Fugir do isolamento e oferecer ao campo democrático, progressista e de esquerda um projeto de governo e de poder, capaz de aglutinar amplamente as forças que estão dispersas no PMDB, no PSDB, no PDT e nos partidos de esquerda.
Esse projeto aglutinador não poderá ser algo estreitamente eleitoral e, portanto, de curto prazo. Há que ter um caráter estratégico, que assinale diferenças de perspectivas e de objetivos, que se projete como processo de construção de uma nova hegemonia fundada no compromisso com a solução da crise social e da crise ética, que aposte na modernização e no desenvolvimento do Estado. Este projeto deve ter uma perspectiva duradoura, passar pela eleição de 94 mas projetar-se para além dela, pois, trata-se um projeto de nova hegemonia, que enterre a política conservadora e destrua os pilares da ordem autoritária e injusta da oligarquia sul-matogrossense.

FAUSTO MATTO GROSSO

Presidente do PPS/MS

BRIGAM AS COMADRES ...

O episódio do pagamento de 75 milhões de reais à Construtora Andrade Gutierrez e o subsequente empurra-empurra de responsabilidades, via mídia, entre as principais lideranças políticas do Estado é uma bela amostra das perversidades com que nossos governantes tratam Mato Grosso do Sul. Provavelmente os dois estão certos, pois, como diz o ditado, "quando brigam as comadres, é aí que se sabem as verdades".
O fato concreto é que o pedrismo e aqueles que se esgotam no anti-pedrismo são duas faces da mesma moeda. Produziram o que de bom e ruim existe em nosso Estado, e a resultante dessa intervenção foi a transformação de uma unidade federativa, que nasceu para ser modelo, em um Estado insolvente, que só exibe vitalidade, interesseira, nos anos eleitorais.
Fora disso, nenhum foi capaz de gerar um projeto de desenvolvimento consistente e duradouro. Ao contrário dos estadistas, pensaram apenas em seus períodos de governo, quando tanto. Brigam como patronos do futuro, mas representam as formas mais antigas de governar e de fazer política.
O resultado disso é um Estado com péssimo serviço público, estagnado na sua economia, com sérios problemas de infra-estrutura e com uma sociedade desiludida.
Mato Grosso do Sul, entretanto, tem jeito, desde que troque suas lideranças e inaugure um novo processo político que se inspire na sociedade e com esta compartilhe, democraticamente, os objetivos e as responsabilidades.
Um belo exemplo de mudança, no qual podemos nos inspirar, é o do Ceará. De um Estado dos mais problemáticos, na região mais problemática do Brasil, transformou-se hoje em uma referência nacional. Após derrotar as oligarquias, Tasso Jereissati e Ciro Gomes são hoje líderes de um Estado que ganha prêmios internacionais na educação, na assistência à infância, na saúde pública.
Isso foi possível porque forjaram um projeto de longo prazo, com a participação direta da sociedade, através do Pacto de Cooperação do Ceará. A partir disso, foram transformando ameaças em oportunidades, resolvendo os problemas das diversas cadeias produtivas e animando os agentes econômicos e sociais para o salto do desenvolvimento.
Aqui em Mato Grosso do Sul está posta a necessidade e a possibilidade de ousadia semelhante. Quebrar cadeias e, com responsabilidade, construir uma nova política capaz de gerar desenvolvimento e renovar esperanças

FAUSTO MATTO GROSSO

Presidente do PPS/MS

sábado, 29 de agosto de 1998

A QUESTÃO DA IDENTIDADE DA UFMS

(JORNAL DA UNIVERSIDADE)
É notória a nossa defasagem em relação, tanto às grandes universidades brasileiras, como em relação aos desafios que são colocados pelo desenvolvimento científico e tecnológico contemporâneos.
A primeira idéia que surge é a de procurar modelos bem sucedidos desenvolvimento universitário. Essa via não nos serve. Os caminhos que legaram à USP, à UNICAMP e alguns outros centros universitários de qualidade são singulares. Essas Instituições conseguiram aproveitar, e o fizeram bem, conjunturas específicas do seu meio econômico-social e se tornaram peças necessárias do processo de desenvolvimento nacional e regional. Essa experiência sim é preciso apreender. A USP articulou-se com o processo de industrialização-urbanização, a UNICAMP com a nova realidade econômica-social da revolução tecno-científica.
Os desafios que são postos hoje para a nossa Universidade não poderão também ser enfrentados com uma política de simples crescimento. Não basta aumentar o número de doutores, o número de trabalhos publicados, o número de laboratórios, etc. Esse simples crescimento, importante sem dúvida, será incapaz de nos transformar em uma Instituição importante.
Imprescindível perceber também que o alvo a ser atingido não deve ser a equiparação com as Instituíções-paradigmas e sim conseguir responder aos desafios concretos que são colocados pela realidade envolvente, sempre dinâmica e cada vez mais requisitando a informação e o conhecimento. Para qualquer planejamento estratégico é imperioso Ter isso muito claro.
Em sauna, temos que procurar o nosso caminho singular de desenvolvimento universitário. Não podemos ser uma Universidade como outra qualquer, até porque não o conseguiríamos. Em outros termos, precisamos definir a nossa IDENTIDADE. Aí sim, poderemos dar saltos da qualidade, efetuar rupturas, queimar etapas, obter e otimizar resultados.
Dois eixos parecem ser básicos na definição da nossa Identidade:
a) para sermos viáveis precisamos transformar a UFMS em peça necessário do processo de desenvolvimento regional:
b) precisamos, dada nossa função institucional específica, estar ligados a produção de conhecimentos mais avançados no contexto da revolução tecno-científico.
Com relação ao nosso compromisso regional, devemos começar por conhecer profundamente o nosso meio para alicerçar nossa proposta estratégica.
Entretanto alguns elementos para nossa definição já são bastante visíveis. Nosso Estado com base econômica agropecuária, busca um processo de industrialização (que precisa ser orientado), obriga importantes ecossistemas como o Pantanal e o Cerrado e deverá ser, a curto prazo, ponto de passagem da integração latino-americano (já estão aí a Hidrovia do Paraguai, a ZPE de Corumbá e o gasoduto da Bolívia).
Nossa identidade deverá ser a de uma Universidade que mobiliza o que há de mais avançado no conhecimento universal, de cuja criação participa, para ajudar nosso Estado e a nossa região a criar e distribuir riquezas, afirmar e integrar a nossa cultura e defender o meio ambiente.
Para desenvolver a essa vocação responsabilidade, tendo em conta a necessidade de concentrar e priorizar recursos e esforços, parecem ser necessários criar e fortalecer 4 grandes programas institucionais:
a) PROGRAMA DE ESTUDOS AMBIENTAIS, generalizando (?) o já criado “Programa de Estudos do Pantanal”, que deverá Ter como objetos principais de estudo o Pantanal e o Cerrado;
b) PROGRAMA DE ESTUDOS LATINO-AMERICANOS, já criando;
c) PROGRAM DE ESTUDOS REGIONAIS, que permitirá aprofundar o conhecimento da nossa realidade envolvente;
d) PROGRAMA DE ESTUDO DO FUTURO, que visará continuamente tensionar o trabalho científico e tecnológico na direção do que existe de mais avançado, permitindo a formação de especialistas em planejamento (estratégico) governamental, empresarial, etc.

FAUSTO MATTO GROSSO

ENTREVISTA PARA FOLHA DO PANTANAL:

Recentemente estiveram visitando nossa cidade o Presidente regional do PPS (Partido Popular Socialista), Fausto Matto Grosso e o membro da direção municipal de Campo Grande, o arquiteto Celso Costa.
Aproveitando então essa visita, a Folha do Pantanal entrevistou o senhor Fausto Matto Grosso, que nos disse o seguinte:
FP - Fausto, qual o motivo de sua vinda a Coxim ?
FMG - Nossa visita a Coxim faz parte do trabalho de organização do PPS nos diversos municípios do interior do Estado. É importante dizer que o receptividade política aqui encontrada foi das melhores. Fomos ajudados por amigos e antigos simpatizantes da nossa legenda que nos propiciaram importantes contatos com as lideranças locais. Pudemos discutir, inclusive com o Prefeito Júnior Mochi, o quadro nacional e regional, compartilhando com essa autoridade nossas preocupações sobre o futuro do nosso Estado.
FP - Como está sendo estruturado o PPS em Coxim ?
FMG - Encontramos em Coxim um clima político muito favorável à proposta de renovação defendida pelo PPS. Ao mesmo tempo sentimos em lideranças da região, mesmo naquelas ligadas a partidos como o PT, o PDT e o PMDB um ponto de vista favorável à ampliação das opções partidárias no município. Avaliamos isso como uma sinal de maturidade democrática coxinense.
Vamos formar nosso partido com importantes lideranças. Com quadros da política e da sociedade civil. Com lideranças comunitárias e religiosas. Com profissionais liberais, artistas, ambientalistas e intelectuais. Pessoas da maior inserção social e representatividade. Enfim, gente independente que em vez de ser simplesmente ator, quer ser autor de uma nova história política nessa região.
Esperamos ainda neste mês de janeiro compor a Comissão Provisória a partir da indicação de nomes saídos de reunião que está sendo montadas localmente, iniciar então as filiações para, até o final de fevereiro, instalarmos o Diretório Municipal.
FP - Como está o Partido a nível nacional e estadual ?
FMG - Somos um pequeno partido com muita vocação para crescer. Entre nós costumamos brincar que temos jogado um "bolão", embora na terceira divisão. Exemplo disso foram as últimas eleições municipais. Nacionalmente, nós que tínhamos apenas 1 prefeito, o de Florianópolis, conseguimos eleger 38. Nosso número de vereadores saltou de 40 para 480 e hoje já está chegando perto de 800, número esse ao qual deveremos somar, brevemente, mais 1 em Coxim. Com a candidatura Ciro vamos agora para o campeonato nacional, e para ganhá-lo.
Em Mato Grosso do Sul estamos experimentando um grande crescimento e ampliação. Tem crescido o nosso número de vereadores e de diretórios municipais. Para a eleição de 98 estamos empenhados em formar uma coligação com o PT, PDT, PSB, PV, PMN e PCdoB e vamos oferecer um nome do nosso partido para encabeçá-la
FP- O Ciro Gomes será mesmo candidato `a presidência da República neste ano ?
FMG - Sozinha, a esquerda terá muita dificuldade de ganhar a eleição presidencial. É preciso ampliar sua articulação com o centro. E fará isso, se tiver juízo. Por isso estamos lançando a candidatura Ciro Gomes. Com seu perfil político, em sendo o candidato da esquerda, será capaz de formar uma frente de centro-esquerda que ampliará nossas possibilidades. Aos votos tradicionais do Lula, juntará os votos que sempre nos faltaram. Ciro é candidato e esperamos que em torno de sua candidatura juntem-se todos os partidos e lideranças progressistas do País.
FP - Sua mensagem ao povo coxinense.

FMG - Coxim, com a instalação do PPS, perceberá que não se trata de apenas mais um partido. Será um instrumento à disposição dos cidadãos dessa cidade para construir uma política sadia da qual todos se orgulhem. Rica de história, de cultura e de belezas naturais essa região poderá contar com o PPS para construir um futuro mais justo e feliz para todos os seus filhos.

‘BAÚ DAS IDÉIAS’: PAIXÃO E TRAJETÓRIA MILITANTE DE FAUSTO MATTO GROSSO

A História da humanidade não é feita apenas de efemérides, atos grandiosos ou personalidades marcantes e excepcionais. Muito ao contrário, a construção histórica é um ato coletivo, solidário e faz-se através de gestos simples e cotidianos, com generosidade e desprendimento. Nas ações mais corriqueiras de uma coletividade encontra-se a essência das grandes transformações. A dinâmica do processo histórico adquire, então, uma ampla e significativa dimensão pela trama complexa e articulada de ações individuais e coletivas que se inscrevem na vida e no tempo. À cada geração cabe a tarefa de recuperação e preservação da memória dos fatos, das ações, dos gestos e das idéias, seja no âmbito individual ou coletivo.
Por isso, faz-se necessário registrar fatos, idéias, impressões e invenções humanas, das mais simples até as grandes transformações provocadas na sociedade, buscando apreender o que existiu de mais significativo em cada fase da História, através da preservação de vestígios, evidências e provas das construções mais primitivas aos processos tecnológicos mais modernos e revolucionários, passando pela compreensão do pensamento e das construções ideológicas que caracterizaram cada etapa histórica.
Nessa perspectiva, merece especial atenção a preservação da memória histórica de Mato Grosso do Sul. Apesar de ser um Estado criado em tempo recente, sua construção histórica transcende a sua idade cronológica oficial. Nesse sentido, o resgate da memória e da história dessa região, através de registros escritos ou orais, é tarefa obrigatória para quem tem compromisso com a transformação de sua comunidade. Infelizmente, muito se perdeu, e ainda se perderá, pela falta de cuidado em preservar esses registros históricos. Por isso, é gratificante quando vem a público uma coletânea como a de Francisco Fausto Matto Grosso Pereira, registrando em artigos, através do olhar aguçado, crítico e sensível de professor e militante político, as transformações do mundo contemporâneo e suas implicações na vida cotidiana de brasileiros e de sul-mato-grossenses.
Nascido em 1949, filho de um representante comercial, Fausto Matto Grosso viveu sua infância em Aquidauana, vindo depois a residir em Campo Grande. Estudou Engenharia Civil na Universidade Federal do Paraná, formando-se em 1971. Enquanto universitário e estudante de Engenharia participou ativamente do movimento estudantil, nos embates contra a ditadura militar, ingressando na Ação Popular. Ao retornar à Campo Grande, ingressou em 1972 na Universidade Estadual de Mato Grosso como professor, ao mesmo tempo que passava a fazer parte, na clandestinidade, dos quadros do PCB. Sua experiência como professor universitário foi interrompida quando em fins de 1974 foi demitido, vítimado pela intolerância e pela obscuridade dos anos de chumbo no Brasil. No âmbito interno da Universidade, a sua demissão foi decorrência direta de sua ativa participação política e acadêmica. No plano político nacional, o afastamento arbitrário do seu ambiente de trabalho coincidiu com a violenta repressão, em especial, dirigida aos militantes do PCB e com as repercussões da primeira grande derrota eleitoral imposta pela oposição ao regime de exceção então vigente (com os cargos conquistados pelo MDB em diversos Estados da União).
Somente em dezembro de 1987, após longo afastamento compulsório, em virtude dos novos ventos da abertura democrática e da anistia, conseguiu retornar às atividades acadêmicas, na então Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. No período em que se distanciou involuntariamente das atividades docentes, dedicou-se à sua atividade profissional de engenheiro e à militância partidária no PCB, abrigado sob o surrealista guarda-chuva político do PMDB. Por esta sigla oposicionista foi eleito vereador de Campo Grande (1982-1986), tornando-se um dos mais atuantes e combativos parlamentares de sua geração, e obtendo, também, a condição de primeiro suplente de deputado estadual nas eleições seguintes. Além do mais, foi por duas vezes secretário da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Campo Grande. E, mais recentemente, desempenhou as funções de Pró-reitor de Extensão e Assuntos Estudantis da UFMS.
Como observador aguçado de seu tempo, e sem jamais abrir mão de suas convicções e militância partidária, produziu para a imprensa local uma série de textos, contribuindo de forma contundente e marcante para o debate sobre assuntos de interesse da coletividade. Faz parte desta coletânea (subdividida em assuntos e sem a preocupação de seguir uma seqüência cronológica), textos curtos, claros e objetivos, que contribuem para a reflexão de assuntos contemporâneos, revelando nas entrelinhas um pouco de sua personalidade, de seu caráter e da sua vida despojada em defesa da sua causa e das idéias que abraçou, definida em suas próprias palavras: “sonho com um País onde todos comem, onde todos moram, onde todos vivem e não apenas sobrevivem”.
Nos primeiros textos, produzidos para revelar um ponto de vista ideológico, procurou compreender as mudanças que então ocorriam com a crise do socialismo e dos partidos comunistas no Leste Europeu. Desse modo, sem negar ou minimizar o papel do PCB, defendeu a sua opção pelo PPS, enquanto parte de um processo complexo de modernização, de continuidade e ruptura, e de superação dialética. Definiu ainda a sua opção política no contexto de reordenamento e transformação da esquerda tradicional e representada pelos PCs, a partir de uma concepção pluralista. Rejeitando o sectarismo e o reducionismo que vitimou uma parcela importante e histórica das esquerdas no Brasil, Fausto Matto Grosso defendeu, e continua defendendo, a utopia do século XXI, que é: “provar que o socialismo pode conviver com a democracia, que o capitalismo não representa o ‘fim da história’, pois, o projeto humano é mais generoso”.
Sobre a Universidade Pública, Fausto contribuiu para ampliar uma importante e oportuna discussão nacional, a partir de sua realidade, a UFMS, levantando os problemas cruciais enfrentados pela comunidade universitária, como o seu sucateamento, os baixos salários de professores e servidores administrativos, os enfrentamentos sindicais, as greves, e, também, as suas propostas enquanto Pró-reitor de Extensão e Assuntos Estudantis. Combateu as ações do Governo Federal, desde o período de Collor, que iniciou o processo de transformação da Universidade pública brasileira em “um reino de mediocridade e da enganação”, fazendo uma sincera e contundente defesa da última greve dos docentes das IFES como “um grito de resistência da Universidade brasileira contra a sua humilhação, destruição e extinção”, imposta pela ação do “professor FHC”.
Seu olhar crítico e acurado não deixou de lado as questões da política estadual e do desenvolvimento sócio-econômico regional, defendendo a esquerda como alternativa política viável para o Estado de Mato Grosso do Sul, pelo esgotamento da gangorra política tradicional, aliás, assunto em aberto nessas eleições de 1998. Apresentou também um belo conjunto de observações sobre a sua viagem à Cuba, cunhadas pelo calor humano dos cubanos, convictos dos princípios e do valor da Revolução, mas cientes das imensas dificuldades e contradições vividas pelo enclave socialista na América.
Enfim, este é um livro contemporâneo, instigante pelos seus assuntos, que faz pensar no papel do cidadão na sociedade, seja para compreender o esforço contraditório da manutenção de uma ordem falida na História, seja para colaborar para a sua transformação inexorável, que é, sem dúvida, a opção corajosa e coerente de Fausto Matto Grosso. Fausto não se satisfaz em ser apenas um mero observador do seu tempo, impondo-se como protagonista da Histório. Ele mesmo afirmou, ao ser indagado sobre o estigma de ser comunista: “Alguns consideram até xingamento. Entretanto, é uma das coisas das quais me orgulho. Aos preconceitos respondo com minha prática de vida, como gente, como profissional, como político, como professor”. Este testemunho já é o bastante para fazer de Fausto um militante singular, que tem dedicado seu trabalho e seu pensamento, traduzidos em ações políticas conseqüêntes, num projeto de vida que transcende suas aspirações como homem comum, professor, pai, companheiro, amigo, para concretizar um sonho que não se sonha só: o de construir um mundo mais justo, mais humano e socialista.

Campo Grande, nos altos do Santa Fé
Inverno de 1998.

VALMIR BATISTA CORRÊA