quarta-feira, 3 de junho de 1998

PREAE : BALANÇO E PERSPECTIVAS

Nos últimos dois anos buscou-se implementar na PREAE uma administração sistêmica, com planejamento e regras claras, transparentes, impessoais e democráticas. Para viabilizar isso foi fortalecida a Comissão Central de Extensão, implantada a Comissão de Cultura e Desporto e reativada, após muitos anos, a Comissão Permanente de Assuntos Estudantís (COPAE). Esta última especialmente, foi decisiva para romper com a tradicional prática paternalista, clientelista e cooptadora em relação aos estudantes.
Importantes programas foram implantados para superar a dispersão que tradicionalmente caracterizava a nossa área de extensão: o de Educação Continuada, o da Bacia do Córrego Bandeiras, o de Combate à Fome e a Miséria, o de Integração da Universidade com o Ensino Básico, este último surgido fora da PREAE mas em processo de institucionalização. Para 95, além da manutenção desses programas, estão propostos os de Integração Social, de Intercâmbio, de Estudos Regionais (Mato Grosso do Sul), de Estudos do Futuro, de Apoio à Reforma Agrária, de Apoio ao Desenvolvimento da Cidadania e o de Produção Cultural e Desportiva.
Apesar das dificuldades financeiras, consegui-se boa margem de atendimento aos ..... projetos de 1993 e ..... de 1994. Isto foi possível graças à ampliação dos recurso do Programa de Manutenção da Extensão (triplicou-se o percentual orçamentário) e à busca de financiamentos alternativos (SESu, CECITEC além de patrocínios e parcerias)
Está criada e em fase de estruturação a Seção de Apoio a Eventos que inúmeras facilidades trará aos coordenadores de projetos.
Foi estruturada a Coordenadoria de Cultura e Desporto, o que melhorou as condições de apoio a nossa produção cultural e desportiva interna. Ao mesmo tempo nos tornamos interlocutores reconhecidos pela área cultural e desportiva do Estado. Foi possível realizar o Caramujo Som, o Festival Universitário da Canção, retomar a nossa participação nos Jogos Universitários Brasileiros e tantas outras atividades importantes. Muitas outras iniciativas estão em andamento, confluindo para nosso grande projeto da área cultural, o "Festival Universitário Latino-Americano do Pantanal", em 1996.
Com relação aos Assuntos Estudantís, foi implantado do Programa de Apoio ao Associativismo Estudantil, com recursos definidos e transparentes no orçamento da Universidade, cuja operacionalização está a cargo da COPAE (como instância consultiva sempre respeitada). O RU de Campo Grande foi reformado para atender, tanto aos usuários como às condições de trabalho do servidor daquele setor. Conseguiu-se a implantação de restaurante universitário (embora restritamente) no CEUA, CEUC e está autorizado também o seu funcionamento no CEUL. Regularizou-se o alojamento estudantil de Aquidauana e já foi autorizado o alojamento emergencial de Corumbá. Atualmente trabalha-se na busca de parceria com as Prefeituras Municipais para viabilização da Moradia Estudantil em Campo Grande e Três Lagoas.
Durante o ano de 94 foi criada a Associação de Ex-Alunos da UFMS, cujo impulsionamento inicial coube à PREAE e inúmeros benefícios recíprocos trará à Universidade e à comunidade de ex-alunos.
Este balanço sucinto mostra que o caminho a percorrer, embora longo, já tem o seu traçado conhecido e os seus primeiros estágios palmilhados com segurança e resultados

FRANCISCO FAUSTO MATTO GROSSO PEREIRA
PRÓ-REITOR DE EXTENSÃO E ASSUNTOS ESTUDANTÍS

sexta-feira, 22 de maio de 1998

NÃO VAMOS QUEBRAR NOSSAS MÁQUINAS

No início da Revolução Industrial os operários, tentando resistir a opressão, reagiam quebrando as máquinas (Luddismo) como se fossem elas a causa de sua desgraça. Levou algum tempo para que o movimento dos trabalhadores percebesse o erro e apontasse formas adequadas de lutas econômicas e principalmente percebesse a necessidade da luta política pela propriedade social dos meios de produção.
Os professores universitários, nas suas lutas demoravam um certo tempo para se assumirem como trabalhadores, trabalhadores intelectuais. E quando o fizeram, trataram de copiar as formas da luta sindical dos trabalhadores industriais. Aí surgiu ontem entre nós a greve como forma de luta econômica.
Temos bastante claro que essa forma de luta, entretanto, tem para nós algumas particularidades que não podem ser desprezadas.
Enquanto a greve, que paralisa a fábrica, causa prejuízo ao trabalhador (perda do salário), muito maior é o prejuízo do patrão. Isto é que o obriga a negociar e ceder. Nesse caso é um risco calculado, pois o movimento, se não forte, pode gerar a perda do salário e do emprego. Daí o seu uso só quando esgotadas todas as outras possibilidades.
Para os professores universitários a situação é entretanto bastante diferente. A greve como arma na luta econômica não é tão eficiente. Se, em princípio, não ameaça nosso emprego, também não causa prejuízo econômico direto ao empregador. Daí as greves de tempo sempre demorado de duração.
Além disso, nosso trabalho intelectual tem características muito especiais. É um trabalho, no geral, desalienado, que desenvolvemos construindo a nós mesmos. Para uma pesquisa, um programa de estudo, uma elaboração de projeto para financiamento é como cortar a nossa própria carne. Interromper nossas aulas ou nossos projetos de extensão é como tomar terceiros, que poderiam ser nossos aliados, como reféns, na nossa luta contra o governo.
Por isso é imperioso dar um salto de qualidade em nossa luta e perceber que o maior prejuízo que podemos causar em nosso empregador é o prejuízo político. Temos que buscar formas que lhe desnudem o pouco caso com que tratam a educação e o trabalho. A essência da nossa luta deve ser, portanto, a pressão política.
É ai que surgem contradições terríveis em nossas formas tradicionais de luta. As greves, na realidade, esvaziam a Universidade (de professores, técnicos e estudantes), diminuindo a possibilidade de ações políticas massivas.
Também problematizam nossas ligações com a sociedade, imprescindiveis para que nossa luta, de caráter político, possa surtir efeito. Só não percebe isto o corporativismo, verdadeira doença do infantilismo político que grassa entre nós. A luta política, para dar resultados, necessita de alianças, de amplitude, de construção de hegemonia. Portanto nada que nos isola serve aos nossos propósitos.
Essas reflexões que fazemos, e nós sempre estivemos solidários na luta do movimento docente, não tem nenhum sentido desmobilizador. Pelo contrário, buscam tensionar nosso movimento e nossa criatividade para encontrarmos formas alternativas de luta, mais eficientes. Que não nos isole do contexto social.
Ficarmos apenas nesses comentários genéricos significariam pouca contribuição.
No contexto de uma greve já deflagrada (se assim não fosse, outras alternativas poderiam ser discutidas), apontamos a necessidade de analisar algumas outras possibilidades:
a) Greve por tempo determinado curto (sucessivas se necessário). Esse tipo de proposta já surgiu em nossas assembléias e tem o mérito de minimizar o esvaziamento da Universidade, garantir assembléias com maior presença e buscar sintonia permanente entre a vontade de luta da nossa base e posição de nossos delegados e entidades;
b) Diante de perspectiva de longa duração, adotarmos a greve intermitente (em dias alternados) que teria o mérito de não permitir o esvaziamento da Universidade, principalmente estudantes, garantindo base de apoio para nossas ações políticas, além de reduzir pela metade nossas reposições de aula e atividades acadêmicas (o que só mentalidades de completa irresponsabilidade social pensam em não fazer).
c) Não interrupção de atividades que liguem a Universidade a sociedade. É aqui que devemos dar o sinal mais claro de amadurecimento, de ruptura com o corporativismo e de afirmação do caráter político da nossa luta. Devemos manter em funcionamento absolutamente normal o Hospital Universitário, o Teatro Glauce Rocha, o Estádio e tantos outros projetos à comunidade. E devemos fazê-lo assumindo que tais atividades servem à nossa luta por estarem servindo à sociedade e ampliando, portanto, a nossa, legitimidade social.
Esperamos que estas reflexões possam contribuir para dar nova qualidade ao nosso movimento. Não recusemos o desafio de repensar nossas formas de luta. Não façamos greve contra nós mesmos. Não façamos greve contra a sociedade. Não recusemos o desafio de construir nossa hegemonia política. Não vamos, já no final do século XX, continuar a quebrar as nossas “máquinas”.

(Prof. Fausto Matto Grosso)

Jornal da Adufms

terça-feira, 19 de maio de 1998

DEMOCRACIA E DESENVOLVIMENTO

Poucas coisas chocam tanto os sul-mato-grossenses como a descontinuidade administrativa. Acostumada a ver o poder ser ocupado, alternadamente, pelo pedrismo e pelo anti-pedrismo conservador, nossa gente assiste a cada quatro anos as prioridades mudarem, as obras pararem, as armadilhas serem armadas para o sucessor, o dinheiro público se perder e tantas outras irresponsabilidades administrativas.
Alguém já definiu que estadista é aquele que governa pensando nas próximas gerações e não apenas nas próximas eleições. Nesse sentido tem faltado aos governantes de Mato Grosso do Sul a estatura de estadistas e o compromisso democrático.
Comportam-se como se não tivessem plano algum de longo prazo. Se os têm, a sociedade deles não toma conhecimento e não participa.
Recentemente, a Petrobrás, preocupada com os seus investimentos no gasoduto, patrocinou ao Governo do Estado uma importante consultoria para a elaboração de um estudo de cenários de Mato Grosso do Sul para o ano 2010. Desse trabalho resultaram importantes diretrizes estratégicas, saudadas com entusiasmo por todos que tiveram acesso ao documento. Infelizmente nenhuma iniciativa foi tomada visando transformar tais indicações em ação governamental.
A arrojada tentativa da sociedade civil sul-mato-grossense em intervir nessa discussão, através do Fórum MS, acabou se desestruturando, pela completa insensibilidade do Governo diante da possibilidade dessa interlocução.
Entretanto esse deve ser o caminho. O futuro de Mato Grosso do Sul deve ser definido pela participação da sua sociedade civil e os governos e governantes serem simples executores dessa vontade coletiva construída em consensos pluralistas e democráticos. Dessa maneira os governos, transitórios que são, passarão e, sucessivamente, adicionarão iniciativas construtoras de um projeto de longo prazo.
Esse é o exemplo que tem sido dado, nos últimos anos, pelo Ceará. Após o enfrentamento e a derrubada do poder dos coronéis, a nova elite cearense, da qual fazem parte Tasso Jereissati e Ciro Gomes, organizou o chamado "Pacto de Cooperação do Ceará". Essa articulação das forças vivas da sociedade cearense construiu de um projeto de longo prazo que está na raiz do atual processo de desenvolvimento da região. Pensou-se grande, com um horizonte de 25 anos.
As ameaças - sol e pedra - foram transformadas em oportunidades. O sol virou fruticultura e indústria turística. A pedra virou exportação de mármore e granito. As cadeias produtivas foram desamarradas e seus gargalos resolvidos um a um. Foi atribuído um papel claro a cada agente de desenvolvimento, inclusive para as Universidades da região.
O resultado é que o Ceará, um Estado dos mais miseráveis, de uma região das mais miseráveis do Brasil, começou a ganhar prêmios internacionais pelas seus resultados na área da saúde, da infância e pela melhoria de todos os seus indicadores sociais.
Esse processo hoje, praticamente, independe de quem governa o Estado. A dinâmica implantada na sociedade não admite reversão das metas construídas em parcerias democráticas e consolidadas.
Esse é um exemplo a ser seguido. Que o próximo governo de Mato Grosso do sul seja escolhido pela capacidade de liderar um processo semelhante de desenvolvimento sustentável democraticamente.

FAUSTO MATTO GROSSO
Engenheiro civil e professor universitário. Presidente do PPS/MS

19/05/98

quinta-feira, 14 de maio de 1998

UM PROFESSOR CONTRA A UNIVERSIDADE

As Universidades Federais estão paradas. Nunca um movimento grevista conseguiu, entre nós, tamanha abrangência. Todas as 52 instituições de ensino superior do sistema federal aderiram à paralisação.
Mesmo em algumas delas, como é o caso da UFMS, a adesão não sendo total, não diminui a importância do movimento. Seguramente a maior parte dos que assim procedem, não o fazem por satisfação com a nossa situação atual, mas sim por não depositarem nenhum crédito na sensibilidade do governo FHC.
A greve atual é um grito de resistência da Universidade brasileira contra a sua humilhação, destruição e extinção.
Triste fim. A eleição do professor Fernando Henrique Cardoso, por certo, despertou grande expectativa nas Universidades. Afinal seu rico currículo acadêmico e político assim o justificava. Passados menos de 4 anos, o presidente , que viaja o mundo recebendo homenagens de instituições estrangeiras, talvez seja, nas Universidades, o mais desacreditado presidente das últimas décadas.
Afinal, ao ser empossado, ele mesmo pediu que esquecessem o que já tinha escrito. Repudiar, repentinamente, idéias antes defendidas, tudo em nome da nova aliança conservadora, é inaceitável em uma instituição que se dedica a produzir idéias e utopias . Foi seu primeiro gol contra.
A política universitária desenvolvida a partir daí foi de humilhação, terrorismo e falta de respeito.
Três anos sem reajuste salarial reduziram pela metade o já aviltado nível salarial e de vida dos professores e técnicos . O resultado disso é a desesperança e o desestímulo. A Universidade, que deveria ter condições de selecionar e manter os mais competentes quadros da sociedade, hoje, é empurrada para a mediocrização.
O terrorismo feito em torno da reforma da previdência jogou para fora das instituições públicas de ensino um enorme contingente dos mais titulados professores. Gente na qual o dinheiro público foi investido durante décadas foi cair, de graça, no sistema privado. Tudo isso poderia ter sido evitado se, em vez de anunciar iminente perda de direitos, fossem criados incentivos à continuidade na atividade acadêmica. Um governo que se pretende moderno teria necessariamente tal política.
Para completar o serviço, o governo do professor Cardoso não permite a reposição, em nível adequado, das vagas geradas pelas aposentadorias. Sem autorização para abertura de concurso, as Universidades vem sendo obrigadas a contratar, em número insuficiente e a título precário, professores substitutos. Isso está gerando uma situação profundamente desigual, injusta e inaceitável no aspecto acadêmico. Tais professores pagos por prestação de serviço, dedicam-se apenas às aulas sem poderem participar de atividades de pesquisa, de extensão e de qualificação docente que completam, na essência, a missão constitucional da Universidade. O governo FHC implantou o sistema de bóia-frias no ensino superior público.
Corte de verbas, corte de bolsas, semeadura de desesperanças. Por aí vai o professor Fernando Malvadeza. Com seu discurso modernizador e a sua prática de destruição do patrimônio universitário brasileiro produzido, a duras penas, com trabalho de muitas décadas, por professores, cientistas, pensadores que jamais mandariam esquecer aquilo que escreveram e sonharam.

FAUSTO MATTO GROSSO,
Engenheiro civil e professor universitário. Presidente do PPS/MS

14/05/98

terça-feira, 5 de maio de 1998

CINCO DEDOS

Durante este final de semana o PPS esteve apresentando, em panfletagens nas principais cidades brasileiras, o seu balanço político sobre o governo FHC.
A mão inteira espalmada na campanha de 94 revelou-se enganosa e pitôca dos cinco dedos.
O "mindinho" da Agricultura foi desmoralizado pelo descrédito agrícola. Após a safra recorde de 94/95, caiu a área plantada, caiu a produção agrícola e o país perdeu 4,5 bilhões de reais. O juro alto sufocou o produtor rural que não consegue pagar as dívidas, obter financiamentos e ter preços competitivos. Aumentou o desemprego no campo com a perda de cerca de 1,5 milhão de postos de trabalho. A falta de uma política agrária estimulou a violência e o desespero dos excluídos do campo.
O "seu vizinho" da Segurança foi substituído pela ampliação da insegurança. Não conseguiu reformar as polícias militares e civis e teve de enfrentar greves armadas. A criminalidade cresceu e virou poder paralelo nas grandes cidades. As rebeliões nos presídios viraram fatos corriqueiros. Prometeu reformular o Código Penal e captar recursos no exterior para melhorar o sistema penitenciário. Não fez e não captou um dólar furado. O cidadão tem hoje mais medo de andar nas ruas.
O "pai de todos" do Emprego revelou o fracasso maior. Quando FHC assumiu o governo, em janeiro de 95, a taxa de desemprego era de 4,42 %. Em janeiro deste ano foi de 7,25 % , a mais alta desde o fim do regime militar. A agricultura e a construção civil reduziram 98,5 mil vagas com carteira assinada nos 3 primeiros anos do governo. O Brasil tem a maior taxa de juros do mundo, o que está sufocando a produção: o número de falências e concordatas é a maior da nossa história.
O "fura bolo" da Saúde gangrenou. A principal promessa de FHC era garantir recursos públicos estáveis para a saúde: não cumpriu. A dengue explodiu, aumentando 4 vezes em 3 anos. As verbas da saúde, aumentadas com um novo imposto, a CPMF, entraram por uma porta e saíram por outra, inclusive servindo de "moeda" para uma barganhas políticas pouco saudáveis. O Sistema de Saúde Pública no Brasil é um caos. As epidemias estão de volta com força total: aumentaram os casos de malária, dengue, leptospirose, tuberculose e sarampo.
O "mata piolho" da Educação prometeu acabar com o analfabetismo. Não acabou. Pelas taxas atuais, as metas propostas só poderão ser alcançadas no século 21. Prometeu garantir vagas para todas as crianças de 7 a 14 anos: 1,5 milhões de jovens continuam fora da escola. Prometeu reformular o crédito educativo: bolsas estão sendo canceladas por falta de recursos. Os professores universitários, sem reajustes há 3 anos, estão em greve e o Ministro da Educação se nega a dialogar, submetendo-se à ditadura consentida da equipe econômica. A universidade brasileira perdeu, por terrorismo e falta de respeito, um terço de seu professores.
Triste fim para um político de passado democrático e progressista. Acenou com a mão e deixou o povo na dita cuja.

FAUSTO MATTO GROSSO, engenheiro civil e professor. Presidente do PPS/MS - 05/05/98

domingo, 22 de fevereiro de 1998

POLÍTICA E SISTEMA ESTADUAL DE FINANÇA DO PPS/MS

(MINUTA)
FINANÇA PARA QUE PARTIDO ?
O PPS se define como um partido de representação do mundo do trabalho, do mundo da cultural e de segmentos da sociedade que tenham como plataforma de ação política o socialismo democrático.
Nessa caracterização, a ação política é um termo chave para se entender a organização partidária. Não somos um partido apenas de idéias e programas, tampouco um partido de existência meramente eleitoral. Nosso desafio é levar os interesses, as idéias e o programa que representamos, a todas as esfera da vida social, para criarmos a força transformadora que as materialize em realizações concretas dos nossos objetivos.
O Partido deve ter a organização que melhor dê conta desses objetivos em cada realidade onde atue. Em uma sociedade complexa e mutável como a nossa é um permanente desafio ajustar a organização aos objetivos e à realidade. Ao longo da nossa história fomos adotando configurações que buscavam essa sintonia fina.
Hoje precisamos um partido que seja um espaço de exercício da ação cidadã de seus militantes, ao mesmo tempo em que os prepare e os articule para ações políticas junto à sociedade, em especial naquelas esferas onde exercem a sua vida social.
Nesse sentido a finança partidária deve permitir estruturar uma organização subordinada a esses objetivos. Não pode ser um partido de "funcionários" e de quadros profissionais, mas que os tenha apenas na exata medida da viabilização de uma estrutura que permita uma participação eficiente e facilitada do coletivo de cidadãos- militantes, aí entendidas as dimensões dos direitos e deveres, das prerrogativas e responsabilidades, individuais e coletivas.
FINANÇA DEMOCRÁTICA COMO CONDIÇÃO DA DEMOCRACIA INTERNA
Estatutariamente, a contribuição financeiro do filiado é um dever, uma espécie de contrapartida aos direitos que cada um tem, como membro do partido.
Imaginemos, pelo contrário, que a sustentação financeira repousasse em poucos quadros, em alguns poucos parlamentares, ou no apoio externos de alguns aliados ou simpatizantes. Toda a política partidária, mesmo que decidida democraticamente, ficaria fragilizada quando contrariasse a opinião ou interesses desses contribuintes privilegiados.
Um partido que não tiver uma sustentação financeira democrática, jamais poderá abrigar, internamente uma vida partidária democrática e saudável. Esta é uma questão tanto política quanto prática.
PRINCÍPIOS ORIENTADORES DA POLÍTICA DE FINANÇAS
1. A contribuição individual é obrigatória.
2. O valor da contribuição deverá ser compatível com a capacidade financeira do filiado.
3. A inadimplência implica na suspensão de direitos partidários.
4. Haverá prestação de contas transparente.
5. Dentro dos limites estatutários, caberá a cada organização partidária estabelecer sua política e seu sistema de finança.
6. Haverá critério especial para a contribuição de filiados que exerçam cargos de direção em qualquer órgão partidário e para os que ocuparem cargos eletivos ou cargos públicos de confiança obtidos em função de representação partidária.
7. A organização de finanças constituirá um sistema integrado que envolva militantes e todos os organismos partidários, com regras e procedimentos claros, harmônicos e definidos.
SISTEMA ESTADUAL DE FINANÇAS
1. A finança estadual compreenderá:
recursos do fundo partidário
 - doações de pessoas físicas e jurídicas, respeitados os condicionantes legais
 - recursos provenientes de campanhas de finanças ou outros rendimentos especiais, respeitados os condicionantes legais
-  contribuições dos diretórios municipais
-  contribuições dos membros do diretório regional
-  contribuições especiais de filiados que ocupem cargos eletivos estaduais ou cargos públicos estaduais de confiança (e federais no Estado), obtidos em função de representação partidária.
2. Os Diretórios Municipais repassarão mensalmente ao Diretório Estadual 20% da arrecadação bruta proveniente da contribuição dos filiados, respeitados os seguintes limites mínimos:
- menos de 20 000 eleitores - R$ 20,00
- entre 20 000 e 50 000 eleitores - R$ 30,00
- entre 50 000 e 100 000 eleitores - R$ 50,00
- acima de 100 000 eleitores - R$ 100,00
2.1 - Nos municípios onde houverem vereadores do partido, a contribuição mínima terá um acréscimo de 50%
3. Os membros do Diretório Regional contribuirão mensalmente com a quantia mínima de R$ 20,00.
4. Os filiados que ocupem cargos eletivos estaduais ou cargos públicos estaduais de confiança (e federais no Estado), obtidos em função de representação partidária contribuirão mensalmente com quantias equivalentes a 10% ou 5% , respectivamente, do rendimento líquido referente ao cargo ou função.
4.1 - Esta contribuição dispensa a contribuição prevista no item 3, mas não libera a contribuição do filiado no respectivo município.
5. Os casos excepcionais de incapacidade de contribuição, mediante justificativas adequadas, deverão ser resolvidos em reunião do Diretório Regional.

Campo Grande, 22 de fevereiro de 1998

CONGRESSO REGIONAL DO PPS/MS

sexta-feira, 10 de outubro de 1997

O DESAFIO DA MUDANÇA

A esquerda brasileira vive hoje o que talvez seja o seu maior desafio. Derrotada eleitoralmente por FHC, colocou-se , à exceção do PPS, em uma posição meramente defensiva, postando-se na “retranca” contra qualquer mudança. Começou aí a sua derrota política, ao descredenciar-se como pólo alternativo à reforma neoliberal.
Deixando a bandeira das reformas cair nas mãos da direita, confundiu-se com o conservadorismo e foi incapaz de articular amplamente suas posições, como o fez , de maneira adequada, no processo constituinte.
Do MST, única oposição à FHC com apoio real na opinião pública, não entendeu a essência: a luta à “favor” e não simplesmente contra.
Aproximando-se o processo eleitoral de 98, é de fundamental importância que a esquerda perca a arrogância, perceba que a luta contra o neoliberalismo não é só sua, e abra-se para articulações mais amplas em direção ao centro e à centro-esquerda. Em escala latino-americana essa tem sido a indicação de importantes fóruns políticos.
A candidatura Lula deve ser apenas uma das possibilidades, não a única. Terá inclusive que analisar as alternativas Ciro Gomes e Itamar Franco, isto se não quiser continuar jogando apenas com uma utopia sempre colocada no futuro, como era da sua antiga e esgotada tradição.
O programa comum a ser construído com as outras forças progressistas deve incluir necessariamente uma proposta de reformas amplas, além do desenvolvimento sustentado e do resgate da dívida social.
Em Mato Grosso do Sul, um quadro semelhante está colocado.
Pela primeira vez em nossa história política a esquerda vai, efetivamente, disputar o poder. Não se trata mais de lançar cadidatos para acumular força ou simplesmente para eleger deputados. Essa etapa já está cumprida. A última eleição municipal, na capital, mostrou o inconformismo e o potencial renovador do eleitorado bem como os sinais claros de esgotamento da política tradicional. No interior do Estado pode-se sentir a mesma expectativa quanto à renovação das lideranças políticas.
Claro está para nós que a esquerda, sozinha, não pode se considerar dona desse sentimento. Nosso desafio é o de construir uma ampla articulação capaz de juntar lideranças representativas de um amplo leque ideológico que vá do centro até a esquerda, para viabilizar a força político-eleitoral que a credencie como alternativa de poder. Temos consciência de que esse bloco precisa ser maior do que a esquerda, mas também a convição de que este não será capaz de renovar a política, se a esquerda dele estiver ausente.
Não deverá ser também um bloco ou uma frente contra quem quer que seja, mas sim uma alternativa nova, construida em torno de eixos programáticos claros e sintonizados com as aspirações da população e que devem incluir, além das questões gerais, o compromisso claro com a eficiência e moralização do poder público..
Não se trata de movimento para viabilizar uma ou outra candidatura pré-fabricada, mas sim uma articulação plural, capaz de trabalhar a unidade em torno do nome que melhor representar o sentimento de mudança da população e que tiver melhor competitividade eleitoral. Hoje o PT tem o nome do deputado Zeca. E o PPS tem o nome de Carmelino Rezende, atual presidente da OAB. Muitas outras alternativas poderão surgir no interior dos partidos da nossa aliança, que inclui também o PSB, PDT, PV, PMN, PcdoB e PAN com possibilidades de incluir ainda outros partidos democráticos.
Prevalecendo a responsabilidade política diante dos desafios que estão colocados, vencendo-se as tentações hegemonistas e divisionistas, as possibilidades poderão transformar-se em realidade. Mato Grosso do Sul poderá ter uma nova política, após 98, da qual se orgulhem os sul-mato-grossenses.

FAUSTO MATTO GROSSO

Presidente do PPS/MS

sexta-feira, 12 de setembro de 1997

O DESAFIO DA MUDANÇA E DA INTEGRAÇÃO REGIONAL

Pela primeira vez em nossa história política a esquerda vai, efetivamente, disputar o poder em Mato Grosso do Sul. Não se trata mais de lançar cadidatos para acumular força ou simplesmente para eleger deputados. Essa etapas já estão cumpridas. A última eleição municipal, na capital, mostrou o inconformismo e o potencial renovador do eleitorado bem como os sinais claros de esgotamento da política tradicional.
No interior do Estado também pode ser sentida uma grande unidade da opinião pública
Em torno da idéia da renovação das lideranças políticas. Claro está para nós que a esquerda, sozinha, não pode se considerar dona desse sentimento. Nosso desafio é o de construir uma ampla articulação capaz de juntar lideranças representativas de um amplo leque ideológico, que vá do centro até a esquerda, para viabilizar a força político-eleitoral que nos credencie como alternativa de poder. Temos consciência de que esse bloco precisa ser maior do que a esquerda, mas também a convição de que ele não serrá capaz de renovar a política, se a esquerda dele estiver ausente.
Não deverá ser também um bloco ou uma frente contra quem quer que seja, mas sim uma alternativa nova, constrúida em torno de eixos programáticos claros e sintonizados com as aspirações da população. Eficiência e moralização do poder público, política de fomento ao desenvolvimento sustentado e compromisso com o resgate da dívida social são algumas dessas questões aglutinadoras.
Essa articulação, nascida no seio da esquerda, atrai a atenção e a simpatia de inúmeras lideranças políticas e deverá provocar, até o final deste mês importantes deslocamentos, rumo a esse campo, do que há de melhor na política estadual.
Não se trata de movimento para viabilizar uma ou outra candidatura pré-fabricada, mas sim uma articulação plural, capaz de trabalhar a unidade em torno do nome que melhor representar o sentimento de mudança da população e que tiver melhor competitividade eleitoral. Hoje o PT tem o nome do deputado Zeca. O PPS tem o nome de Carmelino Rezende, atual presidente da OAB. Muitas outras alternativas poderão surgir com as novas adesões aos partidos da nossa aliança, que inclui também o PSB, PV, PMN, PcdoB e PAN com possibilidades de vir a incluir ainda outros partidos democráticos.
Daí o desafio de dar uma abrangência estadual ao PPS e aos outros partidos do nosso campo. Os nossos esforços tem se dirigido, em especial, ao Bolsão, território onde toda a esquerda se encontra fragilizada no aspecto organizativo. A atual viagem do deputado Zeca do PT à região, prende-se também a essa realidade.
A geografia, a história, a economia e a tradição cultural tem afastado o Bolsão de uma integração maior à política estadual, situação inconcebível, principalmente na época da globalização e da comunicação instantânea. As novas condições de integração possibilitadas pela recepção local dos sinais da televisão sul-mato-grossense ajudam nessa integração.
Os moradores de Paranaíba, Cassilândia, Três Lagoas, Aparecída do Tabuado, Chapadão, Costa Rica e outros municípios terão mais facilidade para saber quem é quem na política sul-mato-grossense. Terão a possibilidade de constatar que existe em nosso Estado uma política de esquerda moderna, responsável e competitiva eleitoralmente. Perceberão que a mesmo sensação de se sentirem fraudados pela política dos velhos caciques, existe também em todas as outras regiões de Mato Grosso do Sul.
Frizamos também que o espaço aberto pela esquerda na região estará disponível às lideranças locais, que esperamos, cada vez mais integradas ao nosso esforço, inclusive com mandatos populares conquistados nas urnas de 98, para construirmos um outro destino político para Mato Grosso do Sul,

FAUSTO MATTO GROSSO

Presidente Regional do PPS

segunda-feira, 5 de maio de 1997

COISAS DE TUCANO

Alguém já disse que intelectual tucano é mesmo assim. Se você discorda de sua opinião ele a expõe novamente, com outra forma, pacienciosamente, porque pensa que você não a entendeu.
É incapaz de admitir a divergência.
Agora, intelectual tucano no poder ainda é pior. Obstinado, dono da verdade, começa a chamar os divergentes de neo-bobos, toscos e os acusa de estarem fazendo mero nhé-nhé-nhém!
Na semana passada, FHC deu um passo mais audacioso. Disse que os adversários da privatização da Vale eram pessoas que achavam que “ o certo era o regime da ex- União Soviética”. Se me contassem eu não acreditaria, mas essa eu ví na telinha.
Diante dessa postura de cristão novo do neo-liberalismo, só podemos dar razão a Dom Pedro Casaldáliga: “FHC era bem melhor na época em que era ateu!”
A mesma coisa se repete com relação ao Plano Real. Para o governo só existe um caminho para a estabilização da moeda e a na contabilidade dos prós e contras só é aceita a estatística eufórica, do franguinho a mais na dieta do brasileiro pobre, sem dúvida nenhuma uma proeza que precisa ser comemorada.
Acontece que, para o conjunto dos trabalhadores, tem que ser posto na mesa, além do frango, o desemprego (falsificado pelas estatísticas oficiais), a falta de saúde pública, a falta de educação pública e a falta de segurança pública.
É só olhar para Mato Grosso do Sul que esta verdade salta à vista. A nossa crise estadual , fruto de irresponsabilidades e incompetências de nossa elites dirigentes, tem também fortes componentes nacionais. É o recurso subtraido pelo fundo de estabilização fiscal (cuja renovação deve ser aprovada pela nossa dócil bancada federal), é a lei Kandir, é a política econômica de juros altos que inviabiliza os investimentos produtivos, etc. O resultado disso é a qualidade da nossa educação, da nossa saúde e da nossa segurança pública.
Mas não pensem que nosso Estado não tem saída. Após uma previsível crise de governabilidade, que ocorrerá quando os 50 mil servidores tiverem acumulados, sem receber, 3 ou 4 meses de salários (isto lá pelo final do ano), o Governo Federal, jogará uma tábua de salvação financeira provisória. Naturalmente isso virá pela mão do tucano ungido como candidato a governador / cabo eleitoral presidencial.
Haja coração !

FAUSTO MATTO GROSSO

06/05/97

quinta-feira, 3 de abril de 1997

PARABÉNS, O GOVERNO ACORDOU !

(03/04/97)
Após mais de dois anos de letargia, parece que o Governo do Estado começou a acordar. Lançou uma onerosa campanha publicitária para dizer que não tem dinheiro, encaminhou à Assembleia uma série de projetos que compõe o Programa de Ajuste Fiscal (PAF) e anunciou, ainda para final de maio, o lançamento de um Plano de Desenvolvimento.
O conjunto de medidas, além de tardias, apresenta uma série de problemas, inconsistências e insuficiências graves. Tomadas no desespero da falência da máquina pública, reproduz uma ideologia de escolher o funcionalismo como bode expiatório da crise do Estado.
Vamos a um problema preliminar: a credibilidade. Não se trata aqui da respeitabilidade pessoal do Governador, mas as “vozes roucas das ruas” e dos formadores de opinião falam muito mal desse governo. E nesse caso tem que valer a máxima “a mulher de César, além de ser honesta tem que parecer honesta”. Medidas que enfrentem essa questão são preliminares imprescindíveis para que o Governo possa recobrar a confiança da população e realizar as reformas que são necessárias.
Em mensagem à Assembléia o Governador afirma que tem consciência da necessidade de instituir um “modelo novo de política administrativa”, mas em nenhum momento sinaliza minimamente qual é esse modelo, aponta apenas para o problema do “tamanho do Estado”, tal com está colocada, mera ideologia imposta por órgão financiadores internacionais e nacionais. Retrato dessa desorientação é a formulação dada ao Plano de Demissão Voluntária.
Pelo PDV, qualquer servidor pode pedir demissão premiada. Assim, pressionados por salários miseráveis e atrasados, professores, policias, e profissionais da saúde provavelmente abandonarão em massa o serviço público. Ora, nem o mais empedernido dos neoliberais advogaria uma destruição, ainda maior, da capacidade do Estado nas áreas de Educação, Segurança e Saúde Pública. Tem mais, as vagas correspondente serão extintas, vedada a recriação no período de dois anos. Medidas dessa natureza ou são simples exacerbação ideológica ou denotam a mais absoluta incompetência analítica.
Seguindo a mesma pressão, os técnicos mais capazes, que hoje fingem que trabalham enquanto o Estado finge que lhes paga, serão os primeiros a integrarem o PDV, desta maneira se destruirá ainda mais a capacidade de o Estado enfrentar, com competência, seus desafios, entre eles o de propor um Plano de Desenvolvimento, que Wilson Martins promete ainda para o final de maio.
Apesar de todas essas barbaridades, diante da proposta do governo, a oposição de esquerda deve se comportar com a mais rigorosa responsabilidade. Isto passa por reconhecer que a situação do Estado é grave e exige o esforço e a capacidade de todos.
O Programa de Ajuste Fiscal é um grande “limão”. Devemos ter competência para fazer dele uma saudável limonada. Elaborar alternativas é o grande desafio. A esquerda, na oposição, diante da crise, deve pautar-se pela mesma responsabilidade que teria, se já fosse poder, até para, um dia, vir a sê-lo.

FAUSTO MATTO GROSSO

Presidente do PPS/MS

terça-feira, 18 de março de 1997

75 ANOS DE HISTÓRIA

Não sei se por desinformação, ou por intenção malévola, alguns órgãos de imprensa têm se referido aos quadros do PPS como “ex-comunistas”. Ex-comunistas, uma ova !
Não somos daquela gente que pede que esqueçamos o que escreveu. Para nós isto seria até impossível porque, como diz o poeta Ferreira Gullar, nossa história, em muito, coincide com a história das lutas do povo brasileiro.
Se a mídia precisa simplificar nossa essência em uma única palavra, que nos chame então de pós e não de ex. Esta é a verdadeira situação do PPS.
O surgimento do PPS não significou à negação do PCB, mas sim a sua superação dialética.
A crise de civilização, dentro da qual se inscreve tanto a crise do socialismo real como a da social-democracia e do próprio capitalismo, nos impôs a busca de instrumentos mais adequados ao salto civilizatório que estamos vivendo.
O PPS, nesse sentido, representa continuidade e ruptura.
Por definição estatutária, somos herdeiros diretos do PCB e do seu patrimônio histórico-político. Temos o maior orgulho de carregar o que o sociólogo Werneck Vianna chama de “o baú” do Partidão. Temos sastisfação de sermos reconhecidos como a grande escola de quadros da sociedade brasileira, que deixaram marcas nas lutas sociais, na cultura e na política.
Mas ao mesmo tempo somos parte de um processo de reordenamento da esquerda, pois incorporamos várias outras correntes progressistas, socialistas, sociais-democratas, humanistas e ecológicas, de origem política e filosófica diversa da tradição pecebista. Somos hoje um partido com programa mas com composição e concepção pluralista, que busca reinventar o socialismo e o humanismo para as condições da pós-modernidade, partindo do insubstituível ideal ético da solidariedade, que sempre orientou nossas lutas. Este é o sentido da nossa praxis tranformadora na política brasileira.
O PCB nasceu como instrumento de luta política e acabou marcando a história do Brasil. Mudamos de nome e renovamos nossas concepções para continuarmos fazendo política e, se possível, história.
Se o velho PCB, nos seus primórdios, pensava a revolução como um momento de insurreição, nós do PPS não nos julgamos menos revolucionários, ao encará-la como processual e como exercício da radicalidade democrática. Pretendemos ser um pólo de aglutinação da esquerda democrática do País.
Neste 25 de março nossa aventura completará 75 anos, ¾ de século. Queremos continuar o sonho do jornalista Astrogildo, do contador Cordeiro, do gráfico Pimenta, do sapateiro José Elias, do vassoureiro Luís Peres, dos alfaiates Cendon e Barbosa, do ferroviário Hemogênio e do barbeiro
Nequete.
Aqui entre nós também sonham ou sonharam esse sonho o médico Alberto Neder, os contadores Sá Carvalho e Arthur de Barros, os operários Ezequiel e Vitorino, os engenheiros Euclydes e Diomédes, o carroceiro Granja, os encanadores da família Bissoli, os professores Itamar e Ênio Cabral, os advogados Brandão e Amorésio, os jornalistas Vasconcelos e Rádio Maia e tantos outros matogrossenses ilustres e respeitados.
A inúmeras fichas de filiação, abonadas neste fim de semana pelo Senador Roberto Freire, representam a continuidade dessa história e desse sonho.
Sonho com um País onde todos comem, onde todos moram, onde todos vivem e não apenas sobrevivem.

FAUSTO MATTO GROSSO
Presidente do PPS/MS

                                                                                                 

terça-feira, 11 de março de 1997

MST: QUEM NÃO GOSTA LEVANTA A MÃO...

... e exija que o Governo faça a Reforma Agrária, senão vai ter que continuar assistindo o MST fazer a sua.
Os movimento sociais, gostemos ou não deles, são frutos da realidade social do País. É impossível criá-los ou mantê-los artificialmente se não existe tal correspondência, principalmente um movimento com a amplitude adquirida pelo MST.
Também, de nada adiantará o Governo cumprir sua meta de assentar 200 mil famílias se o problema tem a dimensão de 12 milhões de trabalhadores rurais sem terra.
Um governo que se pretenda social-democrata deveria saudar a existência do MST, mesmo com todos os seus problemas. O professor Celso Furtado tem apontado a grande possibilidade que pode ser representada pela volta e fixação ao campo dos milhões de excluídos da “modernização”.
O Brasil está sendo um caso único no mundo onde pode existir, a curto prazo, uma saída não traumática para a crise do desemprego estrutural.
E neste caso não adianta a hipocrisia de cobrar “vocação rural” desses trabalhadores, que, aliás, a têm mais do que o Presidente da República, ele próprio um intelectual proprietário rural. A sociedade pós-moderna, cuja implantação está sendo acelerada pela globalização, terá mais dia, menos dia, conforme apontam alguns estudiosos, que substituir o paradigma baseado no emprego pelo paradigma baseado na ocupação.
Neste caso, mesmo a agricultura familiar de subsistência é preferível, aos programas de renda mínima que a sociedade terá que providenciar sob pena de sucumbir diante da explosão da bomba social. A não ser que, sendo impossível esconder debaixo do tapete os excluídos da globalização, se opte pela “solução final” hitlerista de extermínio em massa dos miseráveis.
Durante a última semana vários setores da mídia tem procurado infundir, na opinião pública a desconfiança em relação ao MST. No tempo da Guerra Fria o movimento seria apontado como beneficiário do “ouro de Moscou”. Impossível faze-lo hoje, seu inimigos buscam desesperadamente desmoralizá-lo pela origem dos seus 20 milhões arrecadados no ano passado, principalmente quanto aos 4 milhões de reais provenientes de doações de trabalhadores beneficiários de financiamentos oficiais.
Seria mais justo que se preocupassem com os caixas já abarrotados para as próximas campanhas eleitorais, com origem duvidosa, onde tal valor, no geral é gasto para eleger um simples deputado federal.
Embora seja difícil, é bom não perder a ordem de grandeza dos números. O Estado de Santa Catarina perdeu, segundo a CPI dos precatórios, 86 milhões com o deságio dos títulos e 33,2 milhões com comissões de intermediários, Alagoas perdeu 69 e 14 milhões respectivamente. Só a Distribuidora Negocial faturou 168 milhões nas suas operações. Diante disso, o que são 4 milhões? Apenas o valor da última casa de praia do banqueiro Júlio Bozzano, presidente do Banco Bozzano & Simonsen, uma das principais empresas operadoras das recentes privatizações feitas pelo Governo Federal.
Mas voltando ao MST. Não posso dizer que gosto dele. Da visão fundamentalista e da subestimação da importância da democracia, que podem ser filtradas nas manifestações de algumas de suas mais expressivas lideranças. Politicamente trabalha com métodos que assustam a qualquer mentalidade arejada de esquerda, nesse sentido, sendo a contraface perfeita da UDR. Acho inclusive que, não tendo cuidado, corre um grande risco de deixar de ser um movimento social legítimo e passar a ser um partido político. Reflete , entretanto, a barbárie, a violência e o atraso das relações sociais no campo e a dimensão do problema da exclusão social do País. Por isso, exatamente temos que respeitá-lo e valorizar a sua luta e representatividade.

FAUSTO MATTO GROSSO

Presidente do PPS/MS

quinta-feira, 13 de fevereiro de 1997

MS SEM RUMO

Qualquer observador atento já constatou que a política sul-mato-grossense nos últimos 30 anos gravitou em torno da estreita opção entre o pedrismo e o antipedrismo. Com uma sociedade civil fracamente organizada, que tem sido incapaz de gerar quadros políticos representativos, Mato Grosso do Sul assiste impotente a alternância entre a modernização conservadora- autoritária e o nada, que tem sido representado pelo anti-pedrismo no governo.
A esquerda tem sido também impotente para produzir uma nova política que seja superação e não apenas negação da política dos dois pólos dominantes. Isto tem sido, provavelmente, a causa da sua dificuldade em se credenciar, na sociedade, como alternativa de poder.
Assim, nosso desenvolvimento tem sido fruto de situações de fato criadas pela intervenção do projeto (?) pedrista e pela ação espontânea e aleatória dos agentes econômicos. Falta política de desenvolvimento. Falta também a intervenção coerente do Estado, direta ou associadamente, na infra-estrutura, no oferecimento de serviços básicos e na produção da base científica e tecnológica necessária ao novo padrão de desenvolvimento produzido pela revolução científico-tecnológica.
Alguns sinais auspiciosos, entretanto, começam a surgir.
Recentemente a Petrobrás patrocinou uma assessoria ao Governo Estadual para a produção de um importante estudo sobre os cenários de MS para o ano 2010. Analisando as macro-tendências mundiais, nacional e regional foram apontadas importantes orientações estratégicas que deveriam balizar a ação governamental e dos agentes privados no processo de desenvolvimento . Parabéns para a Petrobrás. Zero para o governo que, a não ser por parte um ou outro técnico, aparenta desconhecer e desconsiderar tal estudo.
Esse estudo, não podendo ser tomado como enunciado de verdades absolutas, representa um importante ponto de partida para um amplo debate estadual sobre o rumo que queremos para Mato Grosso do Sul.
Dois outros sinais positivos surgem da sociedade civil. A criação do Fórum MS, formado por instituições e cidadãos que buscam a construção de consensos estratégicos para o desenvolvimento do Estado e o Movimento pela Eficiência e pela Moralidade do Poder Público, liderado pela OAB/MS. Este último tem atuado em duas importantes questões: o combate ao nepotismo - sintoma da degradação ética do serviço público - e a mobilização da sociedade para a discussão do orçamento público estadual.
São movimentos amplos e generosos, espaços de cidadania , sinais de que a sociedade civil quer deixar de ser tutelada pelos governos e pela viciada política dominante, buscando a maioridade.
Reforçar esses movimentos é da maior importância para o futuro do Estado, ao mesmo tempo em que se deve cobrar do Governo a responsabilidade da discussão pública das orientações estratégicas do estudo da Petrobrás.

FAUSTO MATTO GROSSO

(Presidente do PPS/MS)

quinta-feira, 30 de janeiro de 1997

REELEIÇÃO E AS PERSPECTIVAS DAS ESQUERDAS

Com a emenda da reeleição praticamente aprovada, muitos analistas consideram que acabou o governo FHC e abriu-se, prematuramente, o processo eleitoral. Itamar e Maluf já se insinuam candidatos. Sarney não esconde a sua pretensão. O bloco político dominante formado pelo PFL e PSDB aparenta confiança no seu rolo compressor e já conta, como certo, com um novo reinado de FHC, para aprofundar a modernização conservadora.
E as esquerdas ? O plural da frase anterior enfatiza exatamente que, pelas suas diferenças, não está predeterminado que elas marcharão juntas. O PPS se define como em oposição ao Governo FHC, contra o neoliberalismo mas também contra certo tipo de pensamento conservador, autoritário e isolacionista, ainda vigente em vários segmentos da esquerda.
A crise de civilização, da qual fazem parte tanto o esgotamento do “socialismo real” e da social-democracia européia como a onda neoliberal, impactou profundamente as esquerdas. Também atingido por essa conjuntura o PPS, ao mesmo tempo em que busca participar da “reinvenção” do socialismo para a sociedade pós-industrial do século XXI, não pretende se omitir diante dos problemas reais que o País tem aqui e agora. Por isso se recusa à simples oposição a qualquer mudança proposta pelo governo, posição inexplicável para quem se pretende de esquerda, e aponta a necessidade de as esquerdas disputarem, com as suas propostas, o rumo dessas mudanças. Sair da posição defensiva e credenciar-se também com agente de reformas é o nosso desafio. Existe alternativas à selvageria do mercado livre e à ilusão do Estado mínimo que não sejam o estatismo e o isolamento do mundo.
E mais, pelo caráter excludente do tipo de desenvolvimento imposto pelo neoliberalismo, a tarefa de enfrentá-lo não é só das esquerdas. Não cabe, neste momento, apenas “correr por fora”, buscando uma remota alternativa de poder para as esquerdas ou para o “campo popular”. Nosso desafio deve ser o de contrapor ao bloco conservador formado pelo PFL e PSDB um outro bloco político hegemônico,.também portador de futuro e de mudanças. Por isso a necessidade de se pensar, de maneira mais aberta, tanto um programa como uma política de aliança para as próximas eleições.
Nesse sentido aponta também recente seminário realizado em Tepozlán, no México, coordenado pelo professor Roberto Mangabeira Unger (PDT) e pelo professor mexicano Jorge Castañeda. Com a presença de Lula, Ciro Gomes e Tarso Genro, avaliando-se o quadro latino-americano, foi apontada a necessidade de a esquerda aproximar-se do centro para enfrentar o neoliberalismo.
Acredito ser esta a tendência da política eleitoral do PPS para 98. As eleições regionais, por serem casadas com a eleição nacional, deverão refletir essa tendência geral. Este é um rumo que pode viabilizar a unidade das esquerdas e, mais do que isso, uma unidade programática do campo democrático e progressista.

FAUSTO MATTO GROSSO
Presidente do PPS/MS

(30/01/97)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 1996

CONJUNTURA E ELEIÇÕES

Estamos vivendo no País um momento de mudanças. As reformas propostas pelo governo e sustentadas no Congresso Nacional por uma folgada base parlamentar, não coincidem, em grande parte, com aquelas pelas quais, há muito tempo, luta o PPS. Muitas delas inclusive representam graves atentados a direitos sociais duramente conquistados.
Entretanto não há como fugir à agenda das reformas, pois não se fará qualquer mudança significativa no País, se não houver coragem para participar das discussões, questionando, debatendo, apresentando alternativas e cumprindo assim o papel histórico da esquerda. O papel que o PPS tem procurado desempenhar é o de um partido de oposição ao governo, mas que que mudar o Pais e a sociedade. Nesta medida não tem somado às iniciativas que tentam fazer coincidir a oposição ao governo com a oposição à qualquer tipo de mudanças, .postura essa que tem levado certos setores da esquerda a se confundir com forças conservadoras e imobilistas.
Desta forma, nossa pequena bancada no Congresso tem procurado apresentar propostas alternativas (como no caso da Reforma da Previdência), que possam ajudar a aglutinar a esquerda democrática e faze-la partícipe do processo de reformas.
Porém nossa grande debilidade, em termos de representação parlamentar e política, tem impedido que consigamos construir um pólo articulador da esquerda moderna e combativa e a partir dele aglutinar amplamente o campo democrático.. É com esta visão que enfrentaremos o desafio das eleições de 96. Nossa grande política, precisa de um grande partido, operando na sociedade e nos parlamentos.
Construi-lo a partir dos municípios, onde verdadeiramente ocorrem os problemas vividos pela população, é o desafio que lançamos aos companheiros reunidos no último final de semana.

FAUSTO MATTO GROSSO
Presidente do PPS/MS

12/02/96