sábado, 27 de fevereiro de 2021

 

ENTRE VÓRTICES, CICLONES E CAVADOS


A política é como uma nuvem, ensinava Tancredo Neves. Em política também existem ventos em altitude, sistemas de alta e baixa pressão, vórtices, ciclones e cavados. Sem programa de governo, com governabilidade instável e com precária capacidade de gestão, o governo Bolsonaro é pródigo em produzir surpresas e instabilidades.

O capitão saiu das eleições municipais de 2020 como um grande derrotado. Embora tenha adotado a tática de fingir-se de morto, os candidatos por ele apoiados foram fragorosamente derrotados. Eram 13 e apenas dois se elegeram. Entre os derrotados Crivella no Rio de Janeiro e Russomano em São Paulo, bem representativos do obscurantismo bolsonarista. Os únicos eleitos foram os prefeitos em Parnaíba no Piauí e Ipatinga em Minas Gerais.

As eleições municipais formam a base para as disputas nacionais, portanto é importante levá-las em conta. O partido que ainda mais elege prefeitos é o MDB que, de qualquer forma, pouco tem contado na política nacional. No Centrão cresceram PP e PSD. Enquanto o PSDB teve grande derrota, o DEM, de Rodrigo Maia, foi vitorioso com grande salto no número de prefeitos.  A esquerda e a cento-esquerda saíram também derrotadas, apenas o Cidadania aumentou o número de seus prefeitos.

As eleições dos presidentes da Câmara Federal e do Senado também afetaram profundamente o rumo da política, um verdadeiro ciclone. Bolsonaro que já perdera os olavistas e lavajatistas, enfim se entregou ao Centrão, que prometera destruir. Com isso ganhou temporariamente uma blindagem no Congresso contra o impeachment e impôs derrotas a dois prováveis antagonistas, o DEM de Rodrigo Maia e ao PSDB de Dória, rachando-os de forma humilhante. Como disse o senador Tasso Jereissati, “os partidos foram triturados no Congresso”.

Para quem tinha dúvida, o livro-entrevista do General Villas Boas revelou que os militares de alto escalão das Forças Armadas também estão ativos no jogo político e conspiram nos bastidores. Ao mesmo tempo Bolsonaro amplia a posse de armas e trabalha no sentido de transformar as polícias militares em milícias bolsonaristas; planta ventos parecendo querer navegar em tempestades, pescador de águas turvas que é. Isso demonstra como é frágil e instável a democracia brasileira e que as possibilidades de retrocessos autoritários ainda estão presentes na vida nacional. Um raio em céu azul é sempre uma possibilidade.

É com esse alto grau de indefinição política que caminha o processo eleitoral de 2022. Articulam também no Congresso mudanças na legislação partidária e eleitoral. É o caso do fim das cláusulas de barreira e a criação da federação de partidos, para atender demandas das pequenas legendas. Também cogita-se a aprovação do distritão, sistema regionalizado de voto em grandes distritos eleitorais, que valoriza o voto em chefes políticos regionais.

Enquanto isso Bolsonaro vai se movimentando tentando ajustar seu discurso para passar a impressão de que a estratégia continua sendo de política econômica liberal, representada por Paulo Guedes; mas, no caso da Petrobrás deu uma guinada populista e estatizante para agradar a sua base eleitoral e consolidar o poder dos generais do Palácio do Planalto.

Nesse clima instável, o Presidente vai vagando com iniciativas populistas, armamentistas e negacionistas para atender suas bases, ao mesmo tempo em que faz chantagem à educação e à saúde, para viabilizar recursos para o auxilio emergencial tão necessário.

  Apesar disso, com as pesquisas indicando sua aprovação no patamar de 30%, para a maioria dos analistas, Bolsonaro deverá estar no segundo turno nas eleições presidenciais. Falta saber quem estará com ele, quem vai encará-lo. Já estão na disputa Dória, Hadad, Ciro Gomes, Huck, Boulos e ainda correm por fora, Moro, Mandetta e o governador gaúcho Eduardo Leite.  Muitas outras candidaturas ainda poderão aparecer. Não se sabe qual delas prosperará, qual terá capacidade de aglutinar uma frente ampla contra Bolsonaro, única condição de derrotá-lo.

Candidatos não faltam, mas há que se avançar numa boa articulação democrática e num programa mínimo com para tirar o país do buraco em que se encontra.

FAUSTO MATTO GROSSO

Engenheiros e professor da UFMS

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

 O SOCORRO VERMELHO

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que ninguem vai contar)



O Socorro Vermelho Internacional foi uma organização que surgiu a partir de iniciativa da Internacional Comunista, no início do século passado. Tinha como objetivo defender àqueles que fossem vítimas da repressão em seu país, por participar em protestos ou movimentos de contestação. A organização ajudava, inclusive financeiramente, presos políticos e famílias de vítimas da repressão. Sua conotação básica era a da solidariedade. Na concepção original era uma frente de trabalho de massas, que deveria organizar amplamente o apoio da população aos vitimados. Mal comparando, hoje seria uma espécie de Greenpeace, ou Médicos Sem Fronteiras dos perseguidos políticos.

No Brasil, foi criada em 1924 pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), e seu ponto mais alto se deu quando da repressão ao Levante de 1935, a chamada Intentona Comunista.

Existia uma seção do Socorro Vermelho em Mato Grosso (uno). Nos anos 1960/1970, tomava conta dessa atividade a discreta Dona Lígia Pletz Neder, esposa do dirigente histórico do partido, Alberto Neder. Ela era a responsável pela organização da solidariedade aos militantes em necessidades e às suas famílias. Foi substituída, nesse desafio, por Yonne Orro, ajudada por várias outras camaradas. Pontualmente, Marisa Bittar foi responsável pelo Acelino Granja, um dos nossos quadros mais atingidos pela repressão.

Como Granja, entre nós, existiram muitos outros companheiros que dedicaram toda a sua existência à luta política pela mudança social através dos sindicatos e movimentos populares. Muitos eram presos e suas famílias padeciam com as suas ausências Muitos morreram deixando suas esposas e filhos completamente desassistidos. Generosos e dedicados à luta na qual acreditaram, esqueciam-se de si, numa doação quase religiosa à causa. Moravam muitas vezes em casas humildes, sem condições sanitárias, na periferia da cidade. Era olhando para essa situação que existia o Socorro Vermelho.

Com recursos partidários, campanhas especificas de finança ou contribuição de simpatizantes e militantes, os recursos eram arrecadados e destinados principalmente à assistência à saúde e à ajuda humanitária.      Contribuíam para essa ação muitas pessoas amigas, voluntariamente ou não. Lembro-me de um episódio especial. Uma militante nossa recebeu, como honorários, um generoso depósito em sua conta bancária. Julgado não merecedora desse valor, nossa camarada chegou a devolver a quantia, que era de novo retornada à sua conta. Diante dessa situação resolveu usar o dinheiro para um amplo abastecimento de roupas, remédios, material de alimentação, de cozinha de vários companheiros que recebiam ajuda local. Foram dois carros de compras, fora o material de construção. Uma carta de agradecimento em papel oficial do Partido foi enviada ao doador, uma pessoa conservadora, assinada pelos vários beneficiados, acompanhada pelas respectivas notas fiscais.

Outra ajuda humanitária que muitas vezes ocorria, era a destinação de recursos às despesas funerárias dos velhos camaradas. Chegamos a manter no Cemitério Parque das Primaveras, em Campo Grande, um túmulo para essa finalidade. Lá esses dedicados lutadores eram enterrados ao som da Internacional, educativamente cantada, a pleno fôlego, pelo Dr. Alberto Neder, reforçado pelo coro titubeante dos demais camaradas.

Solidariedade era, também, uma forma de luta política.

Fausto Matto Grosso

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 

GORBACHOPP

(Esta crônica, será publicada no livro Histórias que ninguém vai contar)

    

Após o término da Segunda Guerra Mundial, o mundo restou dividido em dois grandes blocos geopolíticos, o primeiro liderado pelos Estados Unidos e o outro pela União Soviética. A Guerra Fria levou à instalação de dois poderosos arsenais, capazes de destruir, várias vezes, a humanidade e tornou-se imperiosa a luta pelo desarmamento. Buscando desarmar esse duelo mortal, no início dos anos 1980, o líder soviético Mikhail Gorbatchov desencadeou várias iniciativas em favor da paz, algumas delas unilaterais. Esse foi um dos seus maiores feitos, que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1990.

  Nesse período, Gorbatchov viu crescer ainda mais o seu o prestígio mundial quando iniciou um processo de reformas internas do socialismo, com a Perestroika (restruturação econômica), a Glasnost (transparência) e a Uskorenie (aceleração do desenvolvimento tecnológico). Entretanto, seu enorme prestígio no exterior não correspondia ao apoio interno. Após uma tentativa de golpe de estado contra seu governo, Gorbatchov acabou sendo afastado em agosto de 1991. Com 89 anos, o ex-líder soviético, atualmente dirige, desde 1991, a Fundação Gorbatchov, e desde 1993, a Cruz Verde Internacional.

  No início da década de 1990, a juventude secundarista do partidão, homenageou-o, denominando Gorbachopp, a um bar que colocaram para funcionar no fundo da sede partidária em Campo Grande, com objetivo de finanças, mas também político. Surgiu aí um importante ponto de encontro suprapartidário da esquerda, que marcou época. Não só os jovens acorriam ao local, mas também vários intelectuais e dirigentes do partido. Era o espaço de confraternização e de trocas políticas e culturais, mas também ajudavam o crescimento partidário com a atração de novos filiados. 

  O trabalho dos jovens, liderado pelo organizador Orlando Rocha era pesado. Começava nas manhãs das sextas feiras, no Supermercado Soares, onde eram feitas as compras. Como não tinham carro, as coisas eram transportadas com o próprio carrinho do supermercado e subidas por uma escada bem íngreme até ao primeiro andar. Daí, vinham os preparativos das bebidas e dos petiscos, que incluíam pasteis, churrasquinhos e outros petiscos, feitos pelos próprios jovens. Às 18 horas o bar abria rigorosamente e começavam a chegar as pessoas para encontro e confraternização, que se tornaram rotineiras. Era muita conversa descontraída e rica politicamente.

  O bar, montado no sacadão da sede, era tocado pelos jovens, até a madrugada, quando começava o fechamento das contas e a faina da limpeza.

  Esse sacrifício, às vezes, era atenuado quando o camarada Onofre comparecia. Invariavelmente chegava com um bom uísque debaixo do braço, tomava a sua primeira dose e entregava a garrafa para ser vendida em doses pelo bar. Era uma oportunidade de se tomar um bom uísque a preços módicos. Mais, o que sobrasse do uísque, no fim da festa, podia ser tomado de graça pelos jovens. Afinal, o penoso trabalho revolucionário tinha que ter alguma compensação.

FAUSTO MATTO GROSSO



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

 

CERCADOS PELO EXÉRCITO

(Esta crônica será publicado no livro Histórias que ninguém vai contar)


O Centro de Educação Rural de Aquidauana (CERA) surgiu em 1974 por iniciativa de alguns agropecuaristas locais, durante o governo José Fragelli. Com essa denominação, funcionou até 2001, quando foi extinto. Durante os anos de 1994 e 1998, foi administrado pelo SENAR. Os estudantes eram alunos bolsistas em regime de internato para rapazes e semi-internato misto. Após a sua extinção, o patrimônio e o curso foi destinado à Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

  Seus alunos provinham de diversos municípios do estado e mesmo de estados vizinhos. Formavam uma espécie de comunidade à parte na cidade. Eram muitas vezes tratados como estrangeiros, que o digam aqueles mais afoitos que pretenderam arranjar namoradas na cidade. Era procurar encrenca certa. Os jovens do CERA tinham atividades culturais bastante intensa. Durante 10 anos, consecutivos produziram, realizaram e apresentavam peças teatrais orientadas pelo professor Paulo Corrêa de Oliveira, arquiteto, professor e diretor das peças. 

  Dentro da escola funcionava um núcleo partidário da juventude do Partidão, com a tolerância, a simpatia e a cumplicidade de alguns professores e diretores. Para reconhecer os jovens comunistas era fácil – todos usavam óculos, jogavam xadrez e usavam bolsas a tiracolo. A organização desses estudantes chegou a ter entre 15 e 18 membros, segundo relatado por alguns deles.

  A vida de internato era rotineira, focada nos estudos, o que propiciava bons resultados em termos escolares. Os jovens do Partidão tinham também outro interesse paralelo, a formação política, propiciadas por leituras, palestras ou por grupos de estudos. Às segundas feiras à noite tinham as reuniões partidárias realizadas abertamente debaixo de alguma árvore ou nos corredores dos blocos, à vista de todos, como um encontro normal de estudos escolares. Não sei por que, mas tinham a ideia de que realizar essa atividade de maneira clandestina seria mais perigoso. Nos fins de semana ocorriam as reuniões dos grupos de estudo, às vezes na cidade.

  Durante certo tempo fui encarregado de providenciar a remessa de livros para a insaciável sede de leitura daqueles jovens. Enviava os textos, muitas vezes através de Yonne Orro, dirigente do partido em Aquidauana. Era material introdutório ao marxismo, alguns clássicos de Marx, Engels e Lenin, e os manuais de materialismo dialético de Afanasiev, Thalheimer e Politzer e Marta Harnecker. Era o suficiente para incendiar aqueles jovens generosos com todas as certezas do mundo, inclusive a de que, com a completa eletrificação rural na URSS, seria atingido o comunismo. Só nos últimos tempos começaram a receber material de Gramsci.

Interessavam-se também pela questão agrária. Quatro Séculos de Latifúndio de Alberto Passos Guimarães e Os Sertões de Euclides da Cunha eram leituras obrigatórias. Certa vez fomos surpreendidos com a encomenda de A Função do Orgasmo, de Wilhelm Reich. Após certa indecisão nossa, acabaram sendo atendidos.

  Apesar de reclusos em internato, tinham certas regalias, que lhes permitiam participar das reuniões do partido na cidade, bem como viagens pelo movimento estudantil no Estado e eventos nacionais. A convivência no internato, o foco nos estudos e na formação política produziram uma geração de jovens bem formados e maduros politicamente. Após a conclusão dos cursos, muitos desses jovens voltaram para as suas cidades onde prestaram grande ajuda à organização do Partidão no interior do Estado.

  Um único incidente resta registrar. O trabalho político desses jovens nos enchia de orgulho e muitas vezes repercutiam fora dos limites do partido. Certa vez tivemos um problemão com a pixação de uma foice e martelo no paredão de pedra em um dos morros próximos. Seria uma resposta a uma pichação com a insígnia da organização católica conservadora Tradição, Familia e Propriedade (TFP). 

Nossos jovens continuam negando a autoria do ato até hoje. Teria sido um funcionário da escola, simples simpatizante. O glorioso Exército Brasileiro fechou a estrada de acesso á  escola, reteve o ônibus  que transportava funcionários e alunas, mandou descer todo mundo e manteve um funcionário pertencente ao PCdoB à parte durante a averiguação. A direção municipal do Partidão mandou queimar todo o material de agitação e propaganda, os exemplares do jornal A Voz da Unidade, salvo os livros, porque se temia uma batida geral na escola e alojamentos. 

Ao final, tudo restou tudo resolvido, foi apenas um pequeno incidente, nada que não pudesse ser mediado pelo diligente deputado Roberto Orro, grande amigo do partido. Quanto à TFP não se sabe de qualquer providência.

Fausto Matto Grosso

 

(Esta crônica foi escrita com a ajuda memória dos ex-diretor do CERA Paulo Esselin, do professor Carlos Machado e e dos ex-alunos Hélio Sampaio e Norton Hayd Rego).

 Ajustado em 17.02.2021 por sugestão do Professor Tito Carlos Machado e do engenheiro Pedro Celestino, Presidente do Clube de Engenharia do RJ)).
          Ajustado em 02,03.2021 por sugestão do ex-aluno Hélio Sampaio. 



sábado, 13 de fevereiro de 2021

 

LIMITES E FRONTEIRAS



Na antiguidade, na época do Império Romano, não havia a noção de limites, prevalecia a ideia de fronteiras. A fronteira era uma zona de transição onde os povos interagiam com suas trocas culturais e econômicas.

Com o advento dos estados nacionais passou a ter sentido a ideia de limites como término de um território. Nesse conceito prevalece ideia de distância e separação. Já a fronteira movimenta a ideia de contato e integração. Os limites são, portanto, assunto de domínio alta política ou da alta diplomacia, já as fronteiras pertencem ao domínio dos povos, ou seja, são um assunto local.

O Brasil é um país que teve limites antes de ter fronteira, antes mesmo, de ter população. Nossa primeira linha divisória foi estabelecida antes da nossa descoberta. O Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 na vila espanhola de mesmo nome, determinava uma linha imaginária, a partir da qual todos os territórios a leste, “descobertos ou a descobrir” pertenceriam ao Reino de Portugal e aqueles a oeste pertenceriam à Coroa de Castela. Esse limite caiu em desuso quando houve a União Ibérica (1580-1640). Neste momento, tanto Portugal como suas possessões passaram a fazer parte da Coroa Espanhola, o que propiciou que brasileiros avançassem para o oeste, com suas entradas e bandeiras.

Avançando no tempo, nas últimas décadas, da globalização, houve o enfraquecimento do poder dos estados nacionais e começaram a surgir de territórios transnacionais integrados.  A União Europeia é a consagração dessa tendência.

Agora, passados 150 anos do término da Guerra da Tríplice Aliança em 1870, é útil pensarmos nossa região na sua dinâmica passado, presente e futuro bem como explorar novas abordagens territoriais. Atualmente, temos no Brasil a definição de uma faixa de 150 km como faixa de fronteira, temos até um Programa de Integração e Desenvolvimento desse território. Do lado paraguaio também existe uma faixa de 50 km. Ambos os lados executam planos de desenvolvimento, separadamente. Um não olha para o outro. Estão de costas quando deveriam estar abraçados.

No interesse das populações fronteiriças estaríamos muito melhor se unificássemos os dois territórios, em projetos de desenvolvimento locais compartilhados, sob a liderança dos municípios. Isso seria útil na prestação dos serviços de saúde, de educação, segurança, entre outros, que reconhecessem realidades locais.

A realidade atual clama por uma nova abordagem dessa questão fronteiriça. Ainda temos questões não bem resolvidas dos brasiguaios, dos empreendedores brasileiros no Paraguai assim como de trabalhadores tidos como estrangeiros nos locais onde realmente trabalham, nos dois lados da fronteira.

 Para avançarmos no enfrentamento dessas questões, talvez pudéssemos desenvolver a ideia da construção de uma zona transnacional, institucionalmente integrada, onde se poderia implantar um estatuto do cidadão de fronteira, com direitos e deveres sociais, econômicos e políticos transnacionais. É uma ideia para discussão. Esse poderia ser um caminho para facilitar a integração binacional Brasil-Paraguai.

FAUSTO MATTO GROSSO

Engenheiro, Mestre em Desenvolvimento Local e professor aposentado da UFMS.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

 

ELES ERAM MUITO BONS

(Este artigo será publicado no livro Histórias que ninguém vai contar)




Nos anos 1980, a juventude do Partidão era a elite do movimento estudantil em Mato Grosso do Sul. Eram jovens idealistas, sonhadores, corajosos e generosos, que queriam mudar o mundo. Não conseguiram isso, mas fizeram parte da nossa história política. Do território deles fazia parte, o Centro de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais (CEPES), onde se formavam; a Livraria Guató onde proseavam; o Colégio Latino-Americano que abrigava muitas das suas reuniões; o bar Gorbatchopp onde se confraternizavam; e da sede do Partido, onde se organizavam politicamente para as suas missões.

O que atraia a juventude para o Partidão era a oportunidade de formação política e a possibilidade de atuação organizada na luta contra a ditadura. Nossos líderes estudantis eram muito bem formados, tinham capacidade de formular e de conseguir vitórias. Isso os tornava líderes admirados, e respeitados, com grande capacidade de atração de novos militantes para o partido. A forma como atuavam, organizadamente, despertava a curiosidade dos estudantes, sobre o que haveria por trás daquilo tudo. Tínhamos bons agitadores, bons propagandistas, bons organizadores, e eram dedicados ao estudo da política. Nos anos mais duros participavam aguerridamente do Partido, sem ao menos conhecer nossos dirigentes.

Os secundaristas do Partidão chegaram a dirigir, ao mesmo tempo, a União Campo-Grandense de Estudantes (UCE), a União Douradense de estudantes (UDE) e a União Sul-Mato-Grossense de Secundarista (USMES). Foram responsáveis pela organização de muitas entidades municipais secundaristas: em Ponta Porã, Paranaíba, Três Lagoas, Aquidauana, Corumbá, Rio Brilhante entre outras. Em congressos nacionais secundaristas, nossos jovens chegaram a levar 11 ônibus de delegados, o que resultou na participação de companheiros nossos na diretoria da União Nacional (UBES) e também na coordenação nacional partidária do movimento secundarista. 

  Narrou-me um dos nossos antigos secundarista um evento cinematográfico. Beto Cunha foi certo tempo presidente da Usmes e da UCE concomitantemente. Ocupado com trabalho no interior, tinha que chegar a Campo Grande para abrir uma reunião. Chovia muito, era difícil chegar a tempo, os participantes estavam quase desmarcando a reunião quando ele entra todo molhado e sujo de barro na sua moto na quadra da UCE, a la herói da Marvel, dizendo que tinha sido difícil a viagem, mas um comunista nunca deixava de cumprir um compromisso.

  Durante esse período nossos estudantes atuavam sempre sob a bandeira da Unidade, que era o rebatimento da nossa política de frente democrática durante a ditadura. Tinham capacidade de juntar os jovens de maneira pluralista e democrática. Contou-me um jovem dessa época que a primeira diretoria da USMES, tinha a participação de 52 membros, apenas 2 do Partidão. Ao final do mandato, tínhamos 50 deles filiados. Sem aparelhamento, funcionávamos como partido integrado.

  Havia um clima de camaradagem entre os nossos militantes que se manifestava em qualquer luta setorial que era travada. Eleger uma camarada nosso para alguma entidade era uma tarefa coletiva, que mobilizava o conjunto do partido. O movimento secundarista ajudava o movimento universitário e vice-versa. Ambos participavam das nossas outras disputas políticas, o que nos ajudava a construir campanhas vitoriosas. Pichações e colagens eram com eles mesmos.

Não raro, nossos secundaristas viajavam para o interior, ou para eventos nacionais, só com a passagem de ida. Dias depois voltavam sãos e salvos com dinheiro arrecadado no movimento e nas ruas. A venda de broches e cartazes soviéticos era uma fonte de arrecadação. Esse era o “ouro de Moscou” dos secundaristas. Durante um Festival Mundial da Juventude pela Paz, conseguimos enviar dois jovens para Moscou, o Beto Cunha e o Guilherme Leal. Muitas oportunidades foram abertas para nossos jovens participarem de cursos de formação política no Instituto de Ciências Sociais da União Soviética.

O partido funcionava como uma confraria, com laços afetivos de camaradagem. Era como uma família. Não raro eu recebia, durante as madrugadas, telefonema de pais preocupados com o atraso de seus filhos. “Seu doutor, são duas horas da madrugada e minha filha ainda não chegou em casa. Trate de me dar conta dela”, cobrou-me o pai, um velho comunista.

Grandes campanhas foram realizadas com a participação e a liderança dos nossos jovens. Entre elas me lembro da campanha do passe-escolar para os estudantes, o que foi uma grande conquista. Nesse período foi conquistada a participação estudantil no Conselho Estadual de Educação, para o qual indicamos Paulo Ribeiro Júnior, posteriormente o Carlos Roberto de Marhi (Neno),

  Também, tenho na memória a campanha pela meia-entrada nos cinemas, da qual cheguei a participar. Os estudantes montavam filas-bobas nas bilheterias, quando chega a vez deles, saiam da frente e entravam novamente no fim da fila. A Polícia Militar sempre era chamada para assustar os “baderneiros”. Era quando eu entrava, com a “autoridade” de vereador do partido do governador anotando na minha cadernetinha os nomes que os oficiais traziam escritos nos uniformes. Não tinha efetividade nenhuma, mas metia grande medo na tropa. Foram carteiradas do bem.

Fausto Matto Grosso

 (Este material foi escrito com ajuda memória dos seguintes jovens do Partidão: Orlando Rocha, Neno, Paulo Ribeiro Junior, Edilson Magrão, Eliane Sampaio, Hélio Sampaio e Beto Cunha - “In memorian” a Guilherme Leal).

Artigo ajustado em 08.02.2021 por sugestão do amigo Neno

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

 

O DIA SEGUINTE AO IMPEACHMENT



Ao longo da nossa história republicana já tivemos 38 presidentes. Oito deles eram vice-presidentes que assumiram em consequência de mortes, renúncias, golpes ou impedimento dos titulares. São eles Floriano Peixoto, Nilo Peçanha, Delfim Moreira, Café Filho, João Goulart, José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer. Preparemos então nosso espírito para um provável governo Mourão, como prevê a Constituição no caso do impeachment de Bolsonaro.

É claro que o presidente e o seu vice são frutos da mesma safra de 2018, como chama atenção o jornalista Élio Gaspari, mas um homem é ele próprio e as suas circunstâncias. As novas circunstâncias são de falência do país no plano econômico, social, sanitário e moral. É o Brasil à beira de um precipício, isso pode mudar muita coisa.

Razões legais para o afastamento do atual Presidente, já existem de sobra, fato que já começa a ser reconhecido em tribunais, principalmente no contexto da crise sanitária. Acontece que o impeachment não é apenas uma questão legal, mas sim uma decisão profundamente política. As diversas pesquisas de opinião ainda apontam uma divisão forte da opinião pública, rachada quase meio a meio. A tendência, entretanto é de crescer a força do impeachment, por aprofundamento da crise de confiança. O governo do capitão terrorista é desastroso no varejo e no atacado. Diante da pandemia, todas as suas ideias e iniciativas estavam erradas, como chama a atenção o mesmo Élio Gaspari.

Percebe-se, cada vez mais que Bolsonaro não tem condições de encaminhar a solução dos nossos problemas. Governos que não conseguem resolver problemas acabam sangrando e entrando em colapso. A sociedade não tem vocação para o suicídio coletivo. Já existem mais de sessenta pedidos de impeachment na Câmara, aguardando as condições políticas para o desenlace.

Está ficando cada vez mais claro que teremos pelo menos dois anos de tempo ruim pela frente quanto à Covid-19 e a economia, mesmo com sucesso da vacinação. A baixa confiança nesse governo vai erodindo sua base. Sua capacidade de produzir crises desnecessárias é infinita.

O descontentamento cresce nas redes e nas ruas. A própria base de apoio do Presidente na opinião pública começa a apresentar rachas, como mostra o recente pedido de impeachment feito em manifesto assinado por 380 lideranças ligadas a igrejas cristãs, incluindo católicas, anglicanas, luteranas, presbiterianas, batistas e metodistas, além de 17 movimentos cristãos.

Falta agora esse descontentamento refletir-se no Congresso Nacional, onde o Presidente ainda se garante. Não se sabe por quanto tempo. O parlamento, em situações de crise, costuma olhar o clima das ruas. Afinal todos dependem de voto popular.

O impeachment amadurece, mas ainda é necessário que as forças políticas e partidárias se entendam quanto ao futuro governo e a sua governabilidade. A situação demanda um pacto político a respeito da transição. É hora de cobrar juízo e ter prudência, nenhuma radicalização ajuda. Lembro que a pressa política é má conselheira e atrapalha o amadurecimento do processo. Caindo Bolsonaro quem, constitucionalmente, assume o poder é o general Mourão, a não que alguém queira se lançar em aventuras perigosas. 

Ninguém deve ignorar as lições da história. É preciso lembrar que Itamar, antes do impeachment fez acenos à oposição e Temer chegou até a anunciar um plano de governo.  As forças políticas não tem vocação para pular no escuro. Mourão tem que ser atraído por essa ideia de ser parteiro de um novo governo de transição (mais um), com governabilidade previamente garantida. Falta isso para juntar nova maioria no Congresso.

Fausto Matto Grosso

Engenheiro e professor da UFMS 

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

 

A PENOSA PREPARAÇÃO DE UM ATLETA OLÍMPICO

(Este artigo fará parte do livro Histórias que ninguém vai contar)

Na Grécia Antiga as Olimpíadas eram realizadas em homenagem a Zeus, o deus dos deuses.  Seus vencedores eram tão festejados que se tornavam uma espécie de semideuses, porque pairavam acima dos homens comuns.

Nos velhos tempos da Guerra Fria, os Jogos Olímpicos tinham também um viés de luta ideológica. Estados Unidos e a União Soviética disputavam medalha por medalha como se fosse a defesa da sua superioridade enquanto regime político. Os atletas medalhistas tinham a aura de heróis nacionais.

Em torno dos medalhistas olímpicos foi se criando uma mística de super-homens. Afinal os atletas tinham que se abster de muitos prazeres corriqueiros da vida, na alimentação e no uso de álcool. Enfrentavam treinamento diário penoso e conviviam com as dores do limite do corpo humano.

Lá pelos anos 1980, recém-saída da Olimpíada, uma delegação de ginastas e bailarinos da União Soviética, cheios de medalhas no peito, veio ao Brasil para participar da festa do jornal Voz da Unidade, do Partidão. Como uma iniciativa de arrecadação de recursos, vieram também à Campo Grande. Foram dois dias de eventos no ginásio Moreninho, da UFMS. A capacidade do ginásio, de 800 pessoas, foi insuficiente para receber todos os interessados, ficou gente para fora nos dois dias de apresentação. Mais de duas mil pessoas assistiram os eventos.

Como parte da recepção aos quatorze visitantes, foi oferecido um jantar em minha casa, com a presença de mais alguns convidados. Na chegada deles, o nosso presidente Carmelino Rezende, como de praxe, fez o discurso de saudação, foi um discurso de emoção. Falou do papel da União Soviética no mundo, dos seus feitos contra o nazismo e da sua luta pela paz no mundo, da sua referência para a luta dos trabalhadores. Qual não foi a nossa surpresa, quando o chefe da delegação respondeu à nossa saudação política com um discurso esportivo. Algo parecia estar errado na União Soviética.

  Servidas as bebidas, uísque, cerveja e vodca, a festa pegou fogo. Parecia uma festa de homenagem a Baco, o deus considerado o protetor do vinho, da boêmia, da festa e da gula. O estoque precisou ser reforçado. Nada lembrava a austeridade suposta a atletas olímpicos medalhistas de ouro.  A comilança também foi assustadora nada parecia um jantar de medalhistas olímpicos. Alguns foram sentar-se na varanda da casa, que terminava em um talude de grama. Um deles, para desespero da minha mulher, ficava empinando a cadeira. De repente caiu para trás rolando pela rampa de grama até parar próximo à piscina. Não fiquei sabendo a modalidade esportiva dele.

A confraternização foi geral, com os convidados interagindo com os atletas. Na maioria dos casos, usavam o dialeto da mímica. Um dos atletas ficou encantado com o correntão de ouro de um dos convidados, um comerciante árabe, fiel contribuinte do Partido. Não se sabe o que falaram através da mimica, mais o fato é que este tirou seu correntão e colocou-o no pescoço do russo, como presente.

Terminando a festa estavam todos bêbados. Um deles veio em minha direção batendo uma garrafa de uísque de baixo do braço e falando em russo. Nada entendi, mas o simbolismo do gesto era claro. Falei que podia levar a garrafa. Ufa!

Fausto Matto Grosso

 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

 

AS AGRURAS DO CONSUMIDOR



  É difícil encontrar alguém que já não tenha passado por muita raiva na hora de ser atendido nos teleatendimentos de empresas prestadoras de serviços. Seja por telefone ou por outros meios digitais, o tempo perdido é enorme e, não raro, tem que se fazer repetidas tentativas, tornando ainda mais penosa a vida do reclamante.

  O consumidor é mal atendido nesses serviços, seja por inadequação dos sistemas, seja por falta de treinamento/qualificação dos operadores. Os Procons estaduais mantém um ranking dos piores prestadores de serviços, os mais reclamados. No topo estão, normalmente, os serviços de energia elétrica, de água, empresas de telefonia, os bancos e as grandes redes de varejo.

  Apesar de os direitos dos consumidores terem status constitucional e serem regulados por diversas leis, decretos e portarias, os serviços de atendimento ao consumidor (SACs) fazem clara afronta a todo o sistema de ordenamento jurídico existente.

  Pela legislação, a empresa deve garantir, no primeiro menu eletrônico e em todas suas subdivisões, o contato direto com o atendente. Sempre que oferecer menu eletrônico, as opções de reclamações e de cancelamento têm de estar entre as primeiras alternativas. No caso de reclamação e cancelamento, é proibida a transferência de ligação e todos os atendentes deverão ter atribuição para executar essas providências. As reclamações terão que ser resolvidas em até cinco dias úteis. O consumidor deverá ser informado sobre a resolução de sua demanda. O pedido de cancelamento de um serviço deve ser imediato.

Ainda, a legislação exige que para serviços ininterruptos, o atendimento deverá funcionar 24 horas por dias, sete dias por semana. Deverá ser oferecido ao consumidor um número único de telefone para acesso ao atendimento. É proibido, durante o atendimento, exigir a repetição da demanda do consumidor. Haverá um prazo máximo de espera para ser atendido. Ao selecionar a opção de falar com o atendente, o consumidor não poderá ter sua ligação finalizada sem que o contato seja concluído. Só é permitida a veiculação de mensagens publicitárias durante o tempo de espera se o consumidor permitir. O acesso ao atendente não poderá ser condicionado ao prévio fornecimento de dados pelo consumidor.

  Vivêssemos essa realidade, o consumidor brasileiro, se sentiria no melhor dos mundos, como foi a intenção de Lei no 8.078, de 11 de setembro de 1990 – Código de Defesa do Consumidor, um dos primeiros do mundo. Entretanto, vivemos no Brasil o desrespeito aos direitos e a indignação do consumidor. Essa é uma das tais leis que não pegaram. A principal responsabilidade por essa situação é dos órgãos de regulação e de fiscalização aos quais falta proatividade. De que vale os rankings dos piores prestadores de serviços, se não há providencia sistemática e preventiva contra eles. A Constituição atribui ao Estado a defesa do consumidor, entretanto problema é jogado no colo do indefeso consumidor individual.

Existe também o problema do atendimento por robôs com inteligência artificial. Esse caminho parece ser inevitável em termos futuros, mas tem que ser muito melhorado para ser colocado em prática. Necessita a adaptação à cultura média dos consumidores, e principalmente àqueles que ainda não estão ajustados à cultura digital, e que perdurarão ainda por muito tempo.

Cada consumidor individual é único e demorará muito para que a inteligência artificial assim o enxergue. Toda tecnologia é bem vinda para melhorar a vida do indivíduo e não para piorá-la. O consumidor, que antigamente sempre tinha razão, passou a ser uma vítima sem direitos.

  Pesquisas apontam que os consumidores só se considerariam satisfeitos se fossem tratados como pessoas únicas e reconhecidas, fossem acarinhadas e tivessem suas expectativas atendidas. Só querem se sentir amados.

Fausto Matto Grosso

Engenheiro e professor da UFMS

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

 

EXILIO ILUSTRE PELA NOROESTE

(Este artigo será publicado no livro Histórias que ninguém vai contar)

A repressão mais cruenta da ditadura militar ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) não ocorreu de 1964, mas sim 10 anos depois, em 1974 e 1975. O governo militar já havia derrotado a luta armada e, pressionado pela crise, começou o que chamava de abertura lenta, gradual e segura, com Geisel. Para isso, tinha que enfrentar a esquerda que atuava na frente democrática contra a ditadura fazendo a luta política. Era preciso extirpa-la para poder abrir o regime de forma a não perder o controle.

  Nessa repressão, além da cassação de deputados ligados ao PCB, Nelson Fabiano Sobrinho e Marcelo Gato abrigados no MDB, foram assassinados o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Filho. Assassinaram também, mais de um terço dos membros do seu Comitê Central. Nessa circunstância, sem poder conduzir a luta, dentro do Brasil, a direção do Partidão resolveu retirar do país grande parte dos dirigentes nacionais, enviando-os para o exterior. Cada um teve que montar seu esquema próprio de saída do país, por suspeita de que o esquema de fronteira estava infiltrado.

  Salomão Malina era uma dessas grandes figuras que tiveram que partir para o exterior. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, onde se alistara como voluntário, já tendo sido condecorado, por sua bravura, com a Cruz de Combate de Primeira Classe, a maior condecoração do Exército Brasileiro. Malina, que já havia passado vários anos preso e já experimentara 35 anos na clandestinidade, teve que se refugiar em Portugal. Anos depois, anistiado, foi reformado como tenente-coronel do Exército.

  A saída dele se deu por Ponta Porã, em 1975, acompanhado de outro dirigente nacional, Givaldo Siqueira. Contou com o apoio local do partido, especialmente de Onofre da Costa Lima Filho, numa operação super-reservada. O esquema da sua retirada contou com grande ajuda de comunistas paraguaios, entre eles Ricardo Grando e sua esposa Dona Úrsula. O casal, refugiado no Brasil, era dono do conhecido restaurante Gato Que Rí, em Campo Grande. Dona Úrsula simulou ser esposa de Malina, o que ajudou a fazer a travessia da fronteira em Ponta Porã. O acesso a essa cidade se deu pelo ramal ferroviário da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil numa rota improvável que nunca era usada, por causa do tráfico de drogas.

  Em seu retorno, depois da anistia, Malina, agradecido, nunca deixou de visitar o casal, a cada vinda a Campo Grande, da mesma forma que, como ex-pracinha visitava a sede da Associação dos ex-Combatentes da Segunda Guerra.

  Após sua saída do Brasil, Malina, foi para a Argentina, depois  para a Colômbia onde os soviéticos o socorreram com documentos que lhe permitiram o exilio europeu. Assentado em Portugal, perambulou por vários países europeus onde os Partidos Comunistas conviviam em democracias. Malina lia jornais em cinco idiomas. Um período em Moscou, como sensibilidade crítica, ajudou a formar sua cabeça arejada que propiciou a transformação do PCB em Partido Popular Socialista (PPS), tornando Roberto Freire seu sucessor. Trouxe também o gosto pelo vinho verde, que muitas vezes compartilhamos em encontros de boa conversa em São Paulo ou Brasília.

Fausto Matto Grosso

 (ajustado em 07.01.2021 por indicação do amigo Ascário Nantes)

sábado, 2 de janeiro de 2021


 O MOVIMENTO ANTIVACINA


  Atreva-se a conhecer. Esta frase sintetiza o desafio lançado pelo Iluminismo durante o século XVIII na Europa. O Século das Luzes foi um período em que se opôs a ciência à ortodoxia religiosa, entre as quais as teses místicas que afirmavam que as doenças eram castigo divino. A partir dessa época, a razão foi colocada como principal fonte de autoridade e de legitimidade das ideias. Nesse período, começaram a serem defendidos os ideais de liberdade, progresso, tolerância, fraternidade, e separação Igreja–Estado.

  A escuridão dos tempos atuais clama por nova iluminação, com a defesa da ciência e do conhecimento racional como meio de superação de preconceitos e ideologias tradicionais.

  Um dos sinais da escuridão é o atual movimento antivacina, que defende que os imunizantes não protegem contra as doenças e podem colocar a saúde em risco.  A Organização Mundial de Saúde (OMS) em recente relatório afirma ser tal movimento um dos dez maiores riscos à saúde global, sendo tão perigoso quanto os vírus mais temíveis.

  O movimento antivacina tem crescido no mundo e no Brasil. Um dos marcos dessa explosão foi a publicação de um estudo na conceituada revista Lancet em 1998 de autoria do médico britânico Andrew Wakefield que relacionava a vacina tríplice viral contra caxumba, sarampo e rubéola com a ocorrência de autismo em crianças. Logo depois, o artigo foi desqualificado por inúmeros cientistas e pela própria revista. Mas depois que algo dessa gravidade chega à população, fica difícil desfazer o estrago. Até hoje, esse artigo desqualificado de Wakefield é utilizado e generalizado por inúmeros grupos antivacina. É provável que isso esteja por trás do retorno de inúmeras doenças que já foram consideradas praticamente erradicadas.

  Os negacionistas da ciência formam um grupo bastante heterogêneo. Dentro dele estão desde os ingênuos e preguiçosos mentais até aqueles que ganham dinheiro com as crendices do povo empurrando praticas médicas alternativas duvidosas ou falsas, como as curas herbalistas, homeopáticas, quiropraxistas e neuropatas que se oferecem em sites de grande apelo. O movimento antivacina tornou-se um grande negócio, em um momento de comoção mundial e avanço do populismo.

  No Brasil, recente pesquisa da divisão de estudos estatísticos da revista digital Poder 360, aponta que entre julho e dezembro de 2020 o número daqueles que tomariam vacina passou de 85% para 60% e o grupo dos que não se vacinaria passou de 8% para 28%, mostrando o estrago causado pelo movimento antivacina.

  A sociedade brasileira precisa reagir mais enfaticamente. As redes científicas e profissionais tem que assumir responsabilidade com o país. Os cientistas precisam se mostrar mais e ampliar seu diálogo com a sociedade, inclusive através das mídias sociais, onde os antivacinas trafegam com desenvoltura. Cada fake news tem que ser desmoralizado com a palavra da ciência e da razão.

  Os provedores de mídias sociais, institucionalmente, devem ser mobilizados a cumprir um papel responsável, enfrentando o domínio do império das poderosas mídias antivacinas. O Supremo Tribunal Federal, em julho do ano passado mandou bloquear as contas dos aliados de Bolsonaro no Twiter e Facebook "para a interrupção dos discursos com conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática". Da mesma forma, e com transparência, é preciso banir as mensagens antivacina, que constituem um crime contra a humanidade.

  A situação é tão grave que o próprio Ministério da Saúde o criou um serviço WhatsApp, para vigiar e esclarecer as mensagens fake news quanto à pandemia. É uma necessidade tornar esse canal mais proativo e acessível à população.

Maria Augusta Rahe Pereira, médica

Fausto Matto Grosso, engenheiro

 

 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

 

CÂMERA DISCRETA

(Este artigo será publicado no livro "Histórias que ninguém vai contar")




Após muitos anos de clandestinidade o Partidão ressurgiu à luz do dia em 1985. Foi um momento muito importante para democracia brasileira e muito festejado pelos comunistas.

Era um ano eleitoral. Imediatamente o partido em Mato Grosso do Sul, começou a se preparar para lançar candidato a prefeito em Campo Grande. Era preciso mostrar a nossa cara para a sociedade.

  Uma das primeiras providências foi adquirimos uma câmera de TV no mercado paralelo top, para garantir a autonomia da nossa campanha. O encarregado da tarefa foi Carmelino Rezende. Importamos por conta própria um aparelho top de linha, com uma inovação tecnológica que era os tais três tubos. Nem as TVs locais ainda a possuíam. Um estúdio de filmagem foi montado nos fundos do escritório de Carmelino. A câmera nos custou US$ 20.000, doados do próprio bolso por Onofre da Costa Lima Filho.

  Antes ainda de oficializarmos nosso candidato Euclydes de Oliveira, já começamos a trabalhar a elaboração do plano de governo. Eu fui seu vice-prefeito. Naqueles tempos duas cidades se destacavam, no plano nacional, como gestões democráticas e inovadoras, Lajes (SC) e Piracicaba (SP). Despachamos imediatamente Mário Sérgio Lorenzetto para conhecer a experiência desta última.

  Nossa campanha na televisão foi fantástica, dirigida por Flávio Teixeira, com apoio de Dante Filho e Carmelino Rezende, políticos, com vocação para marqueteiros. Também atuou o eficiente cinegrafista Alci da Costa Leite. Era voz corrente que tínhamos o melhor candidato e o melhor programa de TV. Só duas eleições depois é que o MDB atingiu o nível técnico da nossa campanha de TV.

  Buscando pegar uma carona no sucesso da nossa campanha, o candidato do PTB, Ibrahim Zaher, resolveu polarizar conosco. Todo dia partia para cima de nós, alertando o eleitor que “cumunista é igual belha, chega perto do ouvido da gente, fazem zunzum, passam mel na nossa boca, as pessoas se encantam e depois, metem o ferrão na gente, zum!”. PCB e PTB davam show de audiência todas as noites.

  Buscando atingir nossa credibilidade, dizia Zaher que nossa campanha era financiada pelo governo Wilson, e que a própria câmera que usávamos era da Sanesul. Aí sentimos o golpe: veio o temor de que a Polícia Federal viesse a conferir a irresponsável denúncia e a apreendesse e ainda que poderia ser prejudicada a gestão de Frederico Valente, amigo do partido, como presidente da Sanesul.

  Foi um desespero total, precisávamos legalizar a câmera com uma nota fiscal. Foi um corre-corre. Como nenhum amigo nosso, seminarista, podia nos ajudar, acabamos caindo nas mãos do bicheiro e carnavalesco Castor de Andrade, que tinha sido colega de Faculdade de Direito de um camarada nosso. Contatado, ele nos indicou o telefone de uma pessoa que podia nos ajudar e imediatamente, em voo da madrugada, despachamos para o Rio, o companheiro Carmelino e o câmera operoso Alci Costa Leite. Lá chegando, conta-nos nosso emissário que foi atendido em um estúdio cheio de gente mal encarada, e foram então encaminhados para o gabinete do proprietário, sim, nada mais, nada menos que Jece Valadão, o mais famoso cafajeste das telas do país. Era ele que operava no ramo de notas frias na área de equipamento de comunicação. Ele, antigo simpatizante do partido lá no Espírito Santo, ficou emocionado ao saber da finalidade, nos cobrou US$5.000” e se dispôs a repassar uma nota fiscal, emitida por sua empresa, para regularizar nosso equipamento.”.

  Essa nossa câmera só serviu para boas causas. Terminada a campanha, foi emprestada para filmagem do primeiro programa nacional de televisão do PCB e finalmente doada para a campanha Freire Presidente. Aí sumiu nos tempos, entrando para a história.

Fausto Matto Grosso

(ajustado em 29.12.2020 por sugestão do amigo Francisco Hardy)

sábado, 26 de dezembro de 2020

 NÃO ERAM DO RAMO 

(Este artigo será publicado no livro "Histórias que ninguém vai contar")



  Construir e “dar assistência” ao Partido no interior sempre foi um trabalho difícil e desafiador, principalmente nos velhos tempos. Tinha-se que vencer longas distâncias, muitas vezes de ônibus, hospedar na casa de companheiros, não raro, usando dinheiro do próprio bolso. Mas era também prazeroso e deixava boas lembranças e muitas amizades.

  Certa vez fui a Corumbá, tentar reorganizar antigos militantes. Tinha o Adolfo Cunha, poaeiro, o marceneiro Guinemer Gomes da Silva, vulgo Juquinha, o Tutu Pedrosa, ex-deputado do PCB na constituinte de 1947. Era necessário aproximá-los da nova militância Celso Philbois, Domingos e Wilma Sabóia, entre outros. Sempre sobrava tempo para uma visita ao ex-deputado Percy de Barros por Deus, amigo do partido.

  Levei na bagagem alguns exemplares do jornal clandestino “a Voz Operária”, um livro recente do Partido e também um livro sobre o congresso de um partido do Leste Europeu, seria a Bulgária? Ou seja, tudo material pouco inocente.

  Chegou a hora de voltar e veio-me a preocupação com a viagem de retorno. Corumbá era uma fronteira de drogas e a polícia costumava ser muito atenta. Por preocupação, na praça central da cidade, deixei o que sobrou do material, guardando apenas um exemplar de cada livro, o que poderia ser justificado como material pessoal de leitura. Em linguagem do ramo, desovei o excesso comprometedor.

  Embarquei no ponto do ônibus, com a inspeção de rotina. Estava salvo. No meio da estrada, chegou com todo o barulho de praxe, uma patrulha da Polícia Federal que no meio do chão de pedra e poeira fez que todos baixassem as bagagens. Começaram revistando a mochila de um casal de jovens estrangeiros nórdicos, provavelmente. Acharam um soco inglês, e já começaram ali mesmo o espancamento do rapaz que tentava escapar de cata cavacos.

  Na minha mochila acharam os dois livros. Folearam ambos minuciosamente, com se quisessem achar algo escondido. Nada encontraram. Mandaram-me abrir minha bolsa de couro, pediram que eu abrisse a carteira.  Lá se interessaram por uma folhinha verde que estava entre os documentos. Dei uma explicação que aquilo era uma folha de louro que minha mãe, no fim de ano, colocava na carteira dos filhos para que enriquecessem no ano seguinte. Levaram a folhinha para averiguação para os policiais mais experientes, mordiam, cheirava, molhavam com um líquido. Acabaram aceitando a minha versão.

  Sorte que não eram do ramo, não estavam interessados em questões políticas. Pude então seguir minha viagem aliviado.

Fausto Matto

(revisado em 28.12.2020)