terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PREFEITOS: GERENTES OU LÍDERES?

Campo Grande viveu nesses três últimos anos um período de crises na administração municipal. Será que prefeitos mais ou menos competentes fariam diferenças fundamentais nos resultado para a população, especialmente naquilo que se refere ao seu desenvolvimento humano integral?
As crises profundas, apesar dos sofrimentos que impõem, muitas vezes são oportunidades para enxergarmos o que ocorre nas profundezas submersas da estrutura da sociedade.
Há muito vivemos uma crise de financiamento do Estado, em todas as suas esferas - nacional, estadual e municipal - e uma crise ética que se coloca com toda a sua contundência. Déficits públicos crescentes, aumentos de impostos, infraestrutura sucateada, serviços públicos de péssima qualidade. Corrupção, estilos autoritários de decidir e governar, falta de confiança nos governantes e descrédito na política. Esses são sinais visíveis dos problemas que marcam o tempo presente.
O olhar para esses fenômenos sinaliza, para alguns, a discussão de mais Estado ou menos Estado, para outros a simples troca dos nossos políticos e escolha de gestores mais competentes. Errado: esse tipo de Estado e esse tipo de governo estão esgotados, já não conseguem resolver os desafios de uma sociedade que sofreu profundas transformações, tornando-se mais complexa, mais articulada, e mais consciente da sua autonomia. Esse é o cerne da questão.
Todo governo tem que ter capacidade de gestão, mas isso não é suficiente. Não é possível resolver a imensa demanda reprimida da sociedade sem mobilizar os imensos recursos que estão fora dos orçamentos públicos. Fora do governo existem recursos imensos desperdiçados. São recursos, financeiros, cognitivos, organizativos, políticos entre outros. Há que se somar toda essa riqueza, articulando um orçamento ampliado por uma nova governança baseada na democracia e na responsabilidade solidária.
Colocando em termos práticos, quanto vale o eficiente trabalho da Pastoral da Criança no combate à desnutrição infantil, quanto vale o imenso voluntariado da cidade a serviço da solidariedade humana, quanto vale o potencial produtivo e de responsabilidade social das nossas empresas, quanto vale o conhecimento das nossas Universidades, o potencial dos pequenos negócios e das organizações da sociedade civil? Tudo isso é desperdiçado, não converge para ajudar no enfrentamento dos desafios do desenvolvimento da cidade.
Há que se juntar esse imenso potencial em um projeto baseado na maximização da coesão social, na organização das interdependências do conjunto dos atores da sociedade para produzir níveis crescentes de desenvolvimento humano. Há que se perceber que a sociedade política, sem a sociedade civil, já não da conta das imensas demandas de uma sociedade democrática, complexa e articulada em redes. Essa apartação é a fonte da nossa crise de capacidade de governo e de deslegitimação da representação.
Nessa visão, o governo deve ser um agente organizador das potencialidades existentes. Essa é a experiência de regiões que trilharam caminhos mais sustentáveis de desenvolvimento. Robert Putnam estudou e identificou esse modelo nas cidades desenvolvidas no norte da Itália. É dele o conceito de capital social: o conjunto formado pela confiança social, pelas normas e redes articuladas para resolver os problemas comuns com compromisso cívico. Quanto mais densas forem estas redes, mais possibilidades existirão de que os membros de uma comunidade cooperem para obter um benefício comum.
Para cumprir esse papel novo não são suficientes gerentes. A materialização dessa utopia possível depende de uma mudança cultural, depende do surgimento de lideres que possam entusiasmar e ter o crédito da sociedade. Esses líderes seriam capazes de organizar com a sociedade um grande projeto de longo prazo, onde houvesse a convergência ampla de interesses e fosse calçado em uma liderança moral inequívoca.
Os momentos de crise podem, muitas vezes, serem as oportunidades de criação do novo. As crises são como momentos de partos, elas são caracterizadas pela existência de uma situação em que o “velho já morreu, mas o novo ainda não nasceu”. As possibilidades são apenas duas, acreditar em mais do mesmo ou ousar no parto de novos paradigmas para a gestão pública.
Apressar a emergência de um novo estilo de liderança e de um modo novo de governar é um dos maiores desafios contemporâneo do pensamento progressista.

Fausto Matto Grosso
Engenheiro, professor aposentado da UFMS

01.12.2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

INDIGNAÇÃO


A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las. Santo Agostinho
Vivemos um momento de apagão ético na política e na gestão da coisa pública. Baixemos nosso olhar para a situação concreta da nossa cidade.
É um dever moral a indignação diante desse quadro.
Por outro lado, é preciso ter coragem cívica para lutar contra forças poderosas que tentam manter essa situação. Só não entende essa responsabilidade os desinformados, os covardes e os beneficiários diretos e pensionistas desse poder corrupto. Esse é o jogo do momento, no qual a sociedade tem tudo para ganhar. As tripas do monstro da corrupção estão expostas cobertas de vermes, graças a um novo momento em que vive a Justiça no país.
Ainda assim, existe uma manifesta intenção de nos roubarem qualquer réstia de esperança. Querem nos fazer acreditar que nunca vai mudar essa regra do jogo perverso no qual se transformou a política. Querem nos submeter pela alienação, ou pelo medo, aos poderosos beneficiários desse reinado de impunidade.
É o caso da pretensão de esmagarem uma rebelde, a vereadora Luiza Ribeiro. Tentaram desmoralizá-la por fazer, supostamente, denuncias sem provas, quando apenas relatou, como testemunha convocada pelo Ministério Público o que o povo fala em todas as esquinas. Ora, será que queriam que ela dissesse que nunca tinha ouvido falar de corrupção na gestão pública de Campo Grande? Seu depoimento foi um imperativo ético da sua responsabilidade de representação. Cabe ao Ministério Publico levantar as provas, que estão sendo fartamente documentadas e que, em pouco tempo, tomaremos conhecimento.
Na verdade, o posicionamento da vereadora, desde o início do seu mandato, mexeu na colmeia dos que sobrevivem da moagem espúria dos interesses da baixa política. Por isso querem destruí-la, precisam de uma punição exemplar para manter, pelo medo, a política que combina mediocridade com interesses menores, no jogo de faz de conta da representação popular. Por isso clamam por sangue, por punição exemplar que possa criar símbolos que causem medo e acomodação aos que sonham com mudanças na política.
Atualmente a vereadora Luiza Ribeiro está para ser pregada na cruz da Comissão de Ética na má companhia de nove vereadores que o Ministério Público apontou como suspeitos de participarem de esquema de compra de votos que cassaram o prefeito Bernal. Não é de todo estranho que só Luiza seja condenada e os outros sejam protegidos pelo corporativismo. A acusadora virar réu não é coisa estranha na realidade brasileira, por mais repugnante que seja essa situação.
Por traz disso tudo, a ação dos grupos poderosos que tem dominado a política em Campo Grande, nos últimos anos. Porque esses gigantes da política, como todo o seu exército de seguidores, temem Luiza Ribeiro? Afinal a desigualdade da força é a mesma de um elefante, diante de uma formiguinha, de um Golias diante de Davi. A resposta é única, uma vendetta exemplar para desacreditar a possibilidade de uma política baseada no bem comum e na motivação republicana. Querem esmagar a coragem dos que sonham com um mundo melhor.
Nessa luta desigual a vereadora Luiza tem só uma pedrinha na funda. Mas essa pedra é de uma densidade neutrônica. Concentra a indignação da população, que ela tão bem representa, combinada com a esperança das pessoas que querem dignidade na política desta cidade.

Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS

12.11.2015

domingo, 6 de setembro de 2015

UMA CÂMARA REPUBLICANA


A Câmara Municipal é a instituição pública mais importante da democracia. Mais do que o Executivo, a Câmara é o espaço público mais aberto à cidadania, é através dela que se pode praticar a chamada “democracia de contato”. Enquanto o Executivo representa o voto da maioria, a Câmara é o espaço da representação da diversidade da sociedade, essa que é o maior desafio da democracia contemporânea. Alguns pensadores opinam, inclusive, que para experimentação e para educação política da população, o parlamentarismo devesse começar pelos municípios, situação essa que promoveria ainda mais a importância dessa Instituição.
No dia 25 de agosto, um tsunami varreu a política de Campo Grande. Um prefeito foi derrubado, outro prefeito foi reconduzido, o Presidente da Câmara foi destituído e oito vereadores foram conduzidos, “sob vara”, para prestar depoimentos na justiça, em um escândalo, sem precedente, envolvendo a denúncia de compra de votos com dinheiro proveniente da corrupção. Muitos outros desdobramentos são ainda esperados.
Esses episódios puseram a nu a grave deterioração institucional que, no geral, atinge as Câmaras Municipais. Não faço essa crítica a partir de uma posição moral, já que a moralidade pública deve ser um padrão universal, dos agentes públicos. Essa situação vexatória dos parlamentos municipais tem componentes históricos e políticos. Os homens são eles próprios e os seus contextos.
Vivemos nas últimas décadas a perda de referências ideológicas na política, do referencial coletivo representado pelos programas partidários, do senso do bem comum, do sentimento republicano, que foram sendo substituídos pelo pragmatismo e pelo individualismo daqueles que encaram os mandatos como se fossem passos de uma carreira profissional. Em um tempo da radicalização da ideologia do liberalismo, cada um é um, a perseguir o seu projeto individual de pequenas ambições e grandes apetites, amparado em uma política de clientes e financiadores.
Tem jeito? O futuro não está escrito, nada está garantido, mas vejo na crise atual uma oportunidade de dar bons passos na direção da mudança. O Brasil não vai acabar, nem Campo Grande. Existem ainda focos de resistência da boa política a perseguir boas causas e principalmente existem muitos cidadãos decentes que podem, em um contexto de mudanças, assumir a política como dever de cidadania. Isso vai exigir mudanças radicais de posturas das pessoas, e instituições renovadas.
O Prefeito não pode ignorar a representatividade do legislativo, mas essa relação tem que ser claramente mediada pelo interesse público. É necessário que seja duro, contra a velha política de trocas que está indo parar na barra dos tribunais, talvez atrás das grades.
Por sua vez, o Legislativo não pode ser subserviente ao Executivo, tem que ser afirmativo, mas exclusivamente dentro das suas atribuições legais de fazer leis e fiscalizar. Vereador não pode ser um despachante subalterno das reivindicações clientelistas que os tornam dependentes dos favores do Executivo. A população tem que se relacionar de maneira direta e cidadã com os órgãos da administração, através dos seus próprios líderes, entidades e movimentos. Nem sempre os vereadores gostam disso, pois muitos querem estabelecer relações farsescas que lhes permitam cobrar pedágio político dos eleitores por ocasião das eleições.
A Câmara, pela representatividade que tem, deve se transformar em um grande fórum dos problemas da cidade, de discussão da qualidade e dos resultados das políticas públicas. Para isso tem que se qualificar tecnicamente, para poder discutir, em alto nível, os projetos próprios e aqueles provenientes do Executivo. Não se constrói qualidade legislativa apenas com contratação de cabos eleitorais que ficam o tempo todo preparando a próxima campanha.
Imagino que o Ministério Público e o GAECO, com sua ação na Prefeitura e na Câmara, em nome da moralidade pública, fizeram uma nova proclamação da República em Campo Grande no dia 25 de agosto. Cabe agora à cidadania garanti-la e aprofundá-la nas próximas eleições para barrar essa “classe política” despreparada e irresponsável.

Fausto Matto Grosso

Diretor da Fundação Astrojildo Pereira/MS

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"O descrédito da política"


A cada dia a população fica mais chocada com os noticiários. Além da violência pura e simples, hoje predomina a violência da criminalidade política, que aos poucos vai mostrando, o mundo da política dominado, no dizer do Ministro Celso Mello, “por um grupo de delinqüentes que degradam a atividade política”.  A política real, predominantemente, se transformou em campo de ação de bandoleiros. 
Essa situação parece ter recrudescido nas últimas duas décadas. No plano nacional já foi atingido o Judiciário e, em uma escala sem precedentes, o Executivo e o Legislativo, estes, flagrados em conúbios com o sistema financeiro, estatais, fundos de pensão e com as maiores empresas de obras públicas do País. 
Essa crise de valores republicanos se irradia também em todas as esferas do poder público, assim vemos os escândalos atingindo os Estados e Municípios, como acontece atualmente em Mato Grosso Sul e em Campo Grande, demonstrando o caráter endêmico da crise ética com o correspondente descrédito da população nos políticos e nos partidos.
Na raiz dessa degradação está a perda do sentimento de coletividade, de bem comum, substituídos pelo egoísmo do individualismo, fruto da radicalização da ideologia do liberalismo. A idéia do mercado, como valor supremo da vida econômica, se transbordou gravemente para todas as esferas da vida social.  Hoje, partidos e políticos, no geral, são produtos de mercado. No dizer de Alfredo Reicilin, “criou-se um círculo vicioso: uma classe política inculta e irresponsável produz um mundo cínico de clientes e financiadores”. Na falta das grandes causas, utopias e esperança, só se ouve – parafraseando Montesquieu – o lamentável ruído das pequenas ambições e dos grandes apetites.
Recente pesquisa, patrocinada pelo Conselho Nacional de Justiça, sobre a credibilidade das instituições, feita pela FGV, mostra que apenas 5% da população confia nos partidos políticos. Vou na contramão desse sentimento difuso. Conheço políticos dignos, eles existem.
Acredito na política, porque acredito na democracia e esta precisa da política, o seu antônimo é a barbárie. Mas a presente crise é grave. Fosse apenas uma crise política, bastava trocar os partidos e os políticos e o problema estaria resolvido, mas trata-se de algo muito mais grave, é a crise de credibilidade na política, esse produto dos mais sofisticado da civilização, cuja função é regular as relações humanas. 
É certo que, para além dos problemas da conjuntura, há uma crise estrutural, que exige novos paradigmas.  Hoje, os partidos já não possuem o monopólio representação política dos cidadãos. A pressão das ruas, os mecanismos de participação direta, as redes e mídias sociais são novos elementos que vieram para ficar. Entretanto, seria uma imensa ingenuidade supor que estas possam substituir as instâncias institucionais da política. Já não vivemos na polis grega, mas em sociedades complexas que exigem institucionalidade sofisticada, inclusive para garantir, não apenas os direitos da maioria, mas também a representação de toda a diversidade existente na sociedade.
O grito dos “indignados”, as pressões dos movimentos, essenciais para fazer valer a vontade democrática dos cidadãos deve colocar em questão, não a política como valor, mas sim a qualidade da representação e dos partidos, em uma pressão salutar para a qualificação da democracia e dos partidos.
Abertos a essa realidade, temos que fazer a transição para novas formas-partidos, principalmente daqueles que se pretendem transformadores. Tenho convicção de que isso precisará muito de gente que, olhando a política atual, “não quer fazer política”, mas tem brios de cidadania. É preciso construir utopias novas, mobilizadoras das energias da sociedade. Os partidos e a política terão que se refundarem em novas formas e conteúdos se quiserem ter protagonismo no futuro. 

Fausto Matto Grosso

Diretor Geral da Fundação Astrojildo Pereira/MS

quarta-feira, 15 de julho de 2015

PODER E DEMOCRACIA
NO MUNICÍPIO: UM DESAFIO À
REFUNDAÇÃO DA POLÍTICA

Estou disponibilizando um link youtube, onde acabei de colocar uma aula que dei em uma universidade virtual durante as eleições de 2004. É um material um tanto quanto desatualizado em relação ao que eu diria hoje, mas enfim já continha algumas idéias que ainda podem serem úteis: http://youtu.be/_LUFXItvLC0..

segunda-feira, 6 de abril de 2015

''O significado do Fora Dilma''

As manifestações de rua no 15 de março demonstraram a desaprovação e a grave crise de confiança dos brasileiros no governo.
A última pesquisa da CNT/MDA aponta que apenas 10,8% apontam a gestão Dilma ótima ou boa, enquanto 64,8% a tem como ruim ou péssima. Pior, mostra ainda que se a eleição presidencial fosse hoje, Aécio Neves venceria a disputa por folgados 55,7% contra 16,6%. Em relação aos escândalos na Petrobras, 68,9% acham que a presidente é culpada e 59,7% se diziam favoráveis ao impeachment, contra 34,7% que se dizem contrários. 
Inicialmente o governo e o PT tentaram descredenciar os manifestantes como sendo expressão dos derrotados da eleição presidencial, defensores do golpe militar, ou reacionários que se opunham aos avanços sociais. Ao contrário, o que move as ruas é a indignação com o presente e o imenso medo do futuro. 
A generosa intenção política de combinar desenvolvimento com justiça social não se assentou em bases sólidas. O projeto de criar um ciclo longo de desenvolvimento baseado na expansão do mercado interno tinha limites e centrou-se apenas em ações conjunturais de incentivo ao consumo individual, criando uma bolha de consumo, sem se preocupar com reformas estruturais que pudessem lhe dar longo curso, o que configura uma postura ideológica absolutamente conservadora: compre mais e vote no PT.
Houve um grande descuido quanto à expansão de bens e serviços coletivos como saúde, transporte público, saneamento, segurança e habitação, vitais em um País altamente urbanizado, com a população concentrada em grandes cidades, onde a vida do cidadão acaba se tornando um inferno cotidiano. 
Os equívocos da política econômica levaram à desindustrialização do País. A participação desse setor no PIB desceu ao nível dos anos 1940. A nossa economia voltou a se assentar crescentemente na produção primária, um recuo vergonhoso em termos da história econômica brasileira. A taxa de crescimento do PIB do primeiro governo Dilma foi o segundo pior resultado da história republicana.
Pior ainda, a crise fiscal começa a colocar em xeque todos os instrumentos de distribuição de renda montados nos últimos 20 anos. Os aumentos do salário mínimo acima do aumento da produtividade média da economia deverão se tornar cada vez mais improváveis, entre outras razões pela crise da Previdência.  A continuidade dos programas de transferência de renda já se encontra sob pressão em função do ajuste fiscal. A dura realidade do desemprego marcará os próximos dois anos, pelo menos. Enfim, deu no que tinha que dar a política de distributivismo sem geração de riqueza.
A outra crise se dá no plano da política. A governabilidade foi montada a partir do loteamento do estado nacional, para a manutenção da base de apoio político-partidária. O escândalo da Petrobras é apenas a ponta de um iceberg imenso que está ainda por se conhecer.  Esse tipo de prática rebaixou a credibilidade do sistema político, tornando a denúncia da corrupção o principal mote das vozes roucas das ruas.
Esse quadro mostra o esgotamento de um ciclo na política brasileira. Enfim, a pequena política, de curto prazo, sem dimensão estratégica, de simples projeto de poder sem projeto nacional, levou o País a uma imensa crise, que se reflete na crescente mobilização nas ruas. O próximo 12 de abril deverá comprovar isso. A festa acabou e esse bloco de poder não tem nada mais a oferecer ao País.
O que nos alivia é que o Brasil não vai acabar. Mas para passar por esse difícil período precisaremos da boa política, da grande política, que tem faltado ao Brasil. Com Dilma ou sem Dilma, esse problema terá que ser enfrentado com o esforço da nação. Poderá ser com Dilma? Isso é o que atualmente garantem a Constituição e as regras do jogo democrático. Mas para isso Dilma terá que, dialeticamente, se transformar no contrário do que é, com ou sem PT.


Engenheiro e professor da UFMS aposentado Fausto Matto Grosso 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

TERRORISMO E CULTURA DE PAZ


Passados os dias, os massacres de Paris, cada vez mais, se tornam emblemáticos dos desafios que a humanidade vive nos tempos atuais.
Os massacres despertaram reações de grande conteúdo emocional, instigadas e pasteurizadas pela comunicação da sociedade de massas. Inicialmente, o mote era a defesa da liberdade de imprensa e a sagração dos mortos como seus mártires.
Ato contínuo o presidente francês, aproveitando para se recuperar da baixa popularidade, respondeu com a ampliação da presença militar francesa no Oriente Médio. Também a direita francesa e européia, xenófoba e intolerante mobilizou suas multidões apontando para o chamado “choque de civilizações”: o pensamento islâmico seria incompatível com os valores culturais do ocidente. Marine Le Pen declarou: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada”, apontando para a segregação e o apartheid.
Já no mundo muçulmano, da Chechênia ao Afeganistão, da Argélia à Palestina, explodiu a indignação contra o desrespeito a sua cultura religiosa. No Níger chegaram a incendiar 45 igrejas cristãs causando 10 mortes. Essas manifestações continuam nos dias atuais e são a senha para a radicalização do mundo islâmico, contra o ocidente.
Diante da radicalização, o papa Francisco clamando pela moderação e pela responsabilidade foi incisivo: “Não se pode ofender, ou fazer guerra, ou assassinar em nome da própria religião ou em nome de Deus. Você não pode provocar e insultar a fé dos outros, você não pode zombar da fé. Não se pode fazer das religiões dos outros um brinquedo”. Enfático afirmou: “Se xingar minha mãe, espere um soco”, disse o Papa sobre ataque em Paris.
A grande pergunta é onde vamos parar com esse tipo de confronto onde todos têm razão. Minha convicção é que esse conflito não se resolverá pelas armas. Por essa via não haverá vencedores, pois é um permanente jogo de perde, perde. Diante dessa situação de completo contrassenso, é que evoco a lembrança da Guerra Fria e de como ela foi desarmada.
Lembro-me de Gorbatchov dizendo que apesar de todas as contradições existentes, de toda a diversidade de sistemas políticos e sociais, de todas as diferenças de escolhas feitas pelas nações, o mundo era uno. Ressaltava “estamos no mesmo barco, a Terra, e não podemos permitir que ele se afunde, não haverá uma segunda Arca de Noé”.
É esse tipo de responsabilidade moral que se espera dos líderes mundiais, a partir dos 50 que compareceram à marcha de Paris. O Ocidente tem a principal responsabilidade na saída dessa crise, porque é o lado mais forte e também por que não pode se arriscar em uma nova guerra do Vietnã, em um mundo globalizado e fragmentado, com a exacerbação do individualismo. A propósito, lembro que o Vietnã venceu os EUA dentro da sua própria casa. O povo americano, clamando pela paz, desarmou a sanha do Império, o que destaca o grande papel que pode ser representado pela opinião pública.
A solução dos impasses nessa guerra com o terrorismo, não é fácil, mas tem que ser buscada, em nome da humanidade. Acredito que o desarmamento dessa armadilha está nas mãos das potências ocidentais e que a solução dessa guerra passa por uma política internacional. Imagino que a partir da pluralidade representada pelos 50 líderes presentes em Paris, incorporando outros de lideranças incontestes, como o Papa e seus equivalentes das diversas religiões e apaixonando amplamente a sociedade se possa buscar uma saída. Precisa que, a partir dos principais fóruns internacionais, se possa adotar iniciativas que passem pela delimitação do Estado Palestino e pelo controle dos rentáveis negócios das armas, do petróleo e da terceirização das guerras, mas principalmente aponte para o desafio principal que é a construção de uma nova, forte e universal Cultura de Paz.

Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS

Jornal da Cidade - 08/02/2015

sábado, 27 de dezembro de 2014

O REENCONTRO DA ESQUERDA DEMOCRÁTICA



Neste mês de dezembro, foi anunciada a criação de um Bloco Parlamentar na Câmara dos Deputados composto pelo PSB, PPS, PV e o Solidariedade. Juntos esses partidos possuem a segunda maior força política no parlamento, 67 deputados, somente menor do que a bancada do PT com 70 deputados. Essa articulação nacional é o embrião de uma Federação entre esses partidos que deverá ser rebatida nas esferas estaduais e municipais, na interlocução com a sociedade e com os movimentos sociais.
A aproximação atual entre PPS e PSB não fortuita, pois ao longo da história brasileira esses partidos protagonizaram, no mais das vezes, ações convergentes que dão sentido ao projeto político que recomeçam a construir.
Em 1927, formamos o “Bloco Operário e Camponês” que em 1930, lançou o primeiro operário à Presidência da República, o vereador do PCB, Minervino de Oliveira.
Diante da ascensão do fascismo no mundo, em 1935 formamos, junto com outras forças democráticas, a Aliança Nacional Libertadora, que chegou a ter 1.600 diretórios organizados em todo o país. Os socialistas defenderam sua transformação em partido político, mas precipitação radical do PCB, liderado por Prestes, levou à decretação da ilegalidade da ANL. Isolado, o PCB tentou a improvável insurreição armada, duramente esmagada. Embora discordantes, os deputados socialistas no Congresso Nacional, tomaram a frente na denuncia da Lei de Segurança Nacional, duramente aplicada contra os comunistas. Essa postura levou à cassação prisão do deputado socialista João Mangabeira.
Com legalização em 1945, o PCB lança a candidatura presidencial de Yedo Fiuza. Os socialistas, organizados na Esquerda Democrática se aliaram com o a oposição liberal, integrando-se à UDN que lançou o Brigadeiro Eduardo Gomes. Ambos saem derrotados por Eurico Gaspar Dutra.
O PSB é reorganizado em 1947 e buscou se diferenciar do PCB por críticas ao modelo soviético, propondo um socialismo democrático e pluralista. Em 1947 o PCB é cassado e entra os anos 50 na ilegalidade e isolado, com uma política estreita, de extrema-esquerda, que só vai se alterar a partir de 1958, com ruptura com o stalinismo e a adoção do compromisso com a via democrática.
Apesar dessas diferenças, nova convergência entre o PCB e o PSB foi a constituição da Frente do Recife, a partir de 1947, que logrou eleger Arraes, em 1960, prefeito de Recife e, posteriormente Governador de Pernambuco, posição onde se encontrava quando do Golpe de 1964.
PSB e PCB voltam a se reencontrar durante a resistência democrática. Ambos apontam o caminho da Frente Democrática contra a ditadura e participam, mesmo na ilegalidade, da fundação do MDB. Em 1974, no contexto da eleição indireta, o MDB lançou a “anticanditatura” à Presidência da República de Ulisses Guimarães e do socialista Barbosa Lima Sobrinho, e ajudou na formação de uma forte bancada de 161 deputados peemedebistas.
Derrotada a campanha pelas “Diretas já”, o PMDB participa da eleição indireta, contra Maluf, elegendo, no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves e José Sarney. No governo Sarney, em 1985, o PCB conquista a sua legalidade e o PSB se reorganiza com líderes como Antônio Houaiss, Evandro Lima e Silva, Jamil Haddad e Evaristo de Moraes Filho, entre outros.
Na Constituinte de 1986 os dois partidos, embora com pequenas bancadas PPS (3) e PSB (6) tiveram uma expressiva participação no bloco de centro-esquerda. Juntaram forças contra o mandato de cinco anos para Sarney e a favor do parlamentarismo.
Nas eleições de 1989, quando a disputa se faz contra Collor, o PSB participa da Frente Brasil Popular em torno do Lula e o PCB, após a candidatura presidencial de Roberto Freire, vai se juntar nessa articulação somente no segundo turno.
No Governo Collor, Evandro Lins e Silva, fundador do PSB participou da comissão de juristas responsável pela elaboração do pedido e impeachment, cabendo ao socialista Barbosa Lima Sobrinho, representando a ABI, entregar esse documento à Câmara dos Deputados.
Os dois partidos participam do Governo Itamar, um virtual momento “parlamentarista” de salvação nacional. Freire foi líder do Governo na Câmara dos Deputados e os socialistas Haddad (Saúde) e Houaiss (Cultura) participaram do Ministério, apoiando o lançamento do Plano Real, para o enfretamento da inflação. Em 1993 no plebiscito, ambos compõem a Frente Parlamentarista.
Nas eleições de 1994, o PPS, sucedâneo do PCB, e o PSB participam da coligação em torno de Lula, derrotado no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso.
A partir daí, fruto da disputa de projetos de poder, o Brasil passa a viver a polarização PT x PSDB. Essa divisão do campo de centro-esquerda levou a um sistema político onde, cada um por sua vez, esses dois partidos tivessem que governar em alianças com a direita e o atraso fisiológico.
Assim chegamos a 2014, com PSB e PPS, no campo da oposição, articulando um projeto alternativo, primeiro com Eduardo Campos, depois com Marina Silva. Esse é o momento que Roberto Freire chamou de “reencontro da esquerda democrática”.
O Bloco da Esquerda Democrática, surgido dessa articulação, que incorpora, também, a contemporaneidade da pauta do PV e a base sindical da Solidariedade surge com o desfio de “contribuir de forma efetiva para o fortalecimento das instituições democráticas, resgatar as boas práticas republicanas e promover as mudanças que o povo exige para que o Brasil volte a crescer e melhorar a qualidade de vida dos brasileiros”.
O Bloco se apresenta, assim, como um importante polo para a aglutinação de uma grande quantidade de quadros progressistas que se acham ausentes, ou dispersos na política brasileira.

FAUSTO MATTO GROSSO.

Engenheiro e professor aposentado da UFMS

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"Emendas parlamentares"


(Foto: Divulgação)

“Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!” (Stanislaw Ponte Preta)
Durante as campanhas eleitorais, o discurso de grande parte dos candidatos a deputados e senadores é o de que vão trazer dinheiro de Brasília para o nosso Estado. Aliás, essa coisa de trazer dinheiro de Brasília é um assunto que não deveria ser comentado na sala, em frente das crianças, muito menos nos horários eleitorais quando os inocentes, mesmos aqueles de maior idade, ainda estão acordados. 
Naturalmente não me refiro às pessoas, mas sim a uma mazela estrutural da política brasileira, que precisa ser desnudada. É preciso falar o que muitos sabem, mas se calam por conveniência ou leniência. Isso é importante até para que políticos íntegros e bem-intencionados, imagino que existam, possam escapar desse lodaçal.
Para a maioria dos nossos “representantes”, a missão mais importante do mandato tem sido conseguir emendas parlamentares. É aí que se estabelece o jogo espúrio e imoral, promíscuo, entre o Executivo e o Legislativo. A emenda é, ao mesmo tempo, instrumento de o parlamentar fazer política clientelista e instrumento de controle político exercido pelo Executivo sobre o Legislativo.
A farra começa na montagem de um “pacotão” fantasioso de emendas que os parlamentares levam “para as bases” para montar o jogo, com governadores, prefeitos e entidades. É o famoso “me engana que eu gosto”. Depois vem a realidade. Somente uma parcela ínfima do “pacote de bondades” entra, efetivamente, no orçamento. Na execução deste, apenas uma parcela, ainda menor, das emendas parlamentares é liberada – nos últimos 10 anos, apenas 16,9% - assim mesmo, nos momentos das votações decisivas para o Governo. É quando funciona no Executivo o famoso franciscanismo do “é dando que se recebe”.
Durante a execução dessas emendas, o escândalo é ainda maior.  As emendas têm “donos” que, não raro, ficam com o direito de cobrar “pedágio” para que esse dinheiro chegue até a realidade da obra executada. É preciso que se diga que o orçamento geral é apenas uma lei que autoriza o governo a gastar em determinados programas ou ações, mas não lhe impõe a obrigação de fazê-lo. Na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2014, surgiu uma novidade. Em um ato de “rebeldia”, os deputados colocaram a cláusula que torna impositiva a execução das suas emendas.   
As regras das chamadas emendas impositivas obrigam o governo a executar 1,2% da receita corrente líquida da União em emendas individuais dos parlamentares. Com isso abriram-se as portas, também, para o atendimento do “baixo clero” da oposição. Por enquanto, o efeito dessa dinâmica ainda é duvidoso diante de um Executivo imperial e uma maioria cartorial, simplesmente homologatória, no Legislativo. Exemplo disso aconteceu ainda agora, quando o aumento e a liberação de recursos para as emendas parlamentares ficaram condicionados à aprovação da farra fiscal do Governo.
Pilhada em “malfeitos” com relação às despesas públicas, a Presidente Dilma escancarou, no Diário Oficial, o Decreto nº 8.367/14, que aumenta em mais R$ 750 mil, para cada deputado, o valor das emendas, condicionando-as, com todas as letras, à aprovação do projeto que a livraria do crime de responsabilidade. Com isso o valor total destinado aos 594 parlamentares chegará a cerca de R$ 6,9 bilhões, ou seja, a Bolsa Deputado, depois da aprovação do decreto, será de R$ 11,6 milhões per capita, para ser usada na política clientelista.

Assim, como nunca acontecera neste País, o Governo Dilma passa para a história, de maneira vergonhosa, como legalizador do outrora clandestino troca-troca das emendas parlamentares por votos governistas. Foi criada a “jurisprudência” sobre a legalidade do voto vendido. Simples assim!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Fausto Matto Grosso: "Esquerda e direita"


 
Nas eleições deste ano, principalmente nos debates nas redes sociais, toda e qualquer crítica ao PT e à sua candidata Dilma Rousseff era acusada de “coisa da direita”. Chegaram assim a acusar, com tais, Marina Silva e Aécio Neves e todos os seus partidos de apoio. A primeira questão que se coloca é da validade dos conceitos de esquerda e direita na atualidade. Esse tipo de questão tornou-se mais comum após a crise do socialismo real, quando muitos começaram a acreditar que o capitalismo triunfante seria o ponto final da civilização e a história teria, então, acabado.
Uma das mais consagradas análises a respeito da questão é a do pensador italiano Norberto Bobbio. Para o autor tais termos, que fazem parte do imaginário da sociedade e da identidade dos atores políticos, são absolutamente pertinentes. Ressalta ainda que esses termos são “antitéticos”, ou seja, não se pode ser ao mesmo tempo de esquerda e de direita.
Esquerda é aquele que assume que a ideia de que a igualdade é condição para a liberdade e a direita pressupõe que a liberdade é a condição da igualdade. Bobbio, considerando esse parâmetro reparte o espectro político dos partidos, em quatro posições: extrema esquerda (simultaneamente igualitários e autoritários); centro-esquerda (simultaneamente igualitários e libertários); centro direita (simultaneamente libertários e inigualitários) e extrema-direita (simultaneamente antiliberais e antigualitários).
Ressalta ainda o autor que os termos direita e esquerda podem representar diversos conteúdos conforme o tempos. Assim, na Revolução Francesa a burguesia e a pequena-burguesia, na luta pela igualdade, contra o feudalismo, eram forças de esquerda, que se assentavam no lado esquerdo da Assembleia Nacional, dai a origem das designações esquerda e direita. Quanto ao aspecto histórico, uma boa referência para a análise é a Segunda Internacional ou Internacional Socialista (1889-1916) uma organização dos partidos socialistas e trabalhistas, criada por influência de Friedrich Engels.
Entre seus membros estava o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Cabe informar aos amigos petistas, “radicais, porém sinceros”, que Lênin liderou a Revolução Russa exatamente com o POSDRb, só depois, isolado no contexto pós-Segunda Guerra Mundial, surgiu a Terceira Internacional e o poderoso Partido Comunista da União Soviética.
Trinta e cinco anos depois, em 1951, resurge a Internacional Socialista (IS) que busca a divulgação e implementação do socialismo democrático através da união de partidos políticos social-democratas, socialistas e trabalhistas. A IS é uma das maiores organizações partidárias em atividade. Entre seus mais notórios dirigentes, figurou Willy Brandt (1976-1992) que através da sua “ostpolitik” buscou a aproximação com o bloco comunista. Esse processo resultou no degelo político leste-oeste e teve como consequência o reconhecimento de Gorbatchov, de que, comunistas e sociais-democratas eram partidos do mesmo tronco histórico, portanto partidos irmãos. 
Da Internacional Socialista, como membro pleno, participa hoje apenas o PDT. O PT flerta com ela, na condição de observador e o PSDB, ao buscar sua filiação, foi vetado por influencia sectária de Brizola, não por conta da sua doutrina, mas por conta de sua aliança com o PFL. 
Resumindo a história, feliz o país que teve, desde a redemocratização, à exceção da aventura Collor, apenas candidatos competitivos de centro-esquerda, o PSDB, o PT, o PSB e o PPS. A direita foi escorraçada, pelo processo democrático, só tem figurado, como mero coadjuvante em todas, e em cada uma, das candidaturas presidenciais. O resto é ranço autoritário, estreiteza de projetos hegemonistas de poder, críticas de quem tem, ainda, um pé na visão de partido único da esquerda.


Fausto Matto Grosso é engenheiro e professor da UFMS 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Fausto Matto Grosso: "Herança maldita e cleptocracia''

Em 2003, após três tentativas frustradas, Lula assume pela primeira vez a Presidência da República. Enfim, chega ao poder para cuidar do que chamou de “herança maldita”, deixada por FHC, mera retórica da política de polarização e de “construção do inimigo”, já que, inclusive deu continuidade a sua política econômica. Nada mais parecido com Malan do que Pallocci e Meirelles. 
Em 2014, passados 12 anos e três governos do PT, a candidata Dilma continuou brigando com o passado, fazendo política pelo retrovisor.  Disputando a eleição sem programa de futuro, venceu por estreita margem de votos - e se considerarmos os 27,44% abstenção, votos brancos e nulos – recebeu apoio de menos de 40% dos eleitores. 
Presidente legitimamente eleita, mas fraca para assumir, em um país dividido, a sua própria “herança maldita”. Herdou, de si própria, um país em profunda crise econômica, política e moral. Foi a única presidente, depois da redemocratização, que entregou o governo com indicadores da economia, piores do que recebeu.
A economia em crise, ameaça até os avanços sociais conseguidos nos últimos 25 anos, prenunciando dias difíceis para a população, atingida diretamente pela inflação e pela previsível volta do desemprego, resultado natural do crescimento pífio da economia.
As taxas de crescimento e de inflação fogem das metas, mostrando o completo descontrole de gestão, apesar da “contabilidade criativa”. Ingressamos no terreno pantanoso da estagflação. A isso o governo responde com falsificações e manipulações de informações, que humilham órgãos de longos anos de prestígio técnico, levando crise ao interior destes, como aconteceu com o IPEA e com o IBGE.
As contas públicas não fecham. O Brasil entrou no “cheque especial”, ou seja, para o clube de pagadores das dívidas com juros mais altos. Ao não cumprir os limites da Lei de Diretrizes Orçamentárias o governo tenta alterá-la no Congresso. Simples assim – não cumpre a lei, quer muda a lei. 
No aspecto político, a herança de Dilma também é “maldita”. O presidencialismo de coalizão entrou em crise com a rebeldia da base governista, principalmente do PMDB, que reage ao hegemonismo petista. Apesar do tamanho da sua bancada, o aliado teve no governo apenas três ministérios, diante dos 20 controlados pelas diversas tendências do PT. O “custo PMDB” ficará cada vez mais caro quanto mais se acentuar o tamanho da crise de legitimidade da Presidente, sendo que esta, cercado pelos escândalos de corrupção, fica mais impotente para conseguir manter o sistema tradicional de cooptação por amor comprado.
A radicalização da disputa presidencial turvou ainda mais o ambiente político. O país por conta do marketing eleitoral de desconstrução do adversário, primeiro Marina, depois Aécio, encontra-se profundamente dividido. Por sua vez, o PT, em um completo autismo político, cobra da Presidente uma maior radicalização, tentando organizar uma restrita frente de esquerda para a sua sustentação.
No aspecto moral, o governo está no chão. Dilma, logicamente, sabia dos subterrâneos da Petrobras, tanto que afastou diretores indicados por Lula, mas não apurou seus “mal feitos”. Era a criatura protegendo o criador, o presidente “mais probo” que esse país jamais conheceu. Na verdade, o grande líder e grande gênio que transformou o “modo petista de governar” em um novo regime de governo, a cleptocracia.
Após o alucinado desvario durante a campanha, quando qualquer crítica à política do governo era atacada como coisa de direita, agora sim, Dilma e o PT vão saber quem é, de fato, a direita.
Alimentaram a fera, agora ela, raivosa e fortalecida, cheia de razão, está se mostrando nas ruas querendo o diálogo da “degola” da Presidente.


Fausto Matto Grosso. Engenheiro e professor da UFMS

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Fausto Matto Grosso: "O Trololó"

A democracia brasileira, tão judiada por décadas de ditaduras no século passado, não conseguiu consolidar partidos programáticos. Na maior parte dos casos, estes são meros ajuntamentos pragmáticos para disputa de eleições para realizar projetos de poder.
A partir de 2009 foi tornada obrigatória a apresentação das “propostas defendidas pelo candidato a Prefeito, a Governador de Estado e a Presidente da República”, por ocasião do registro das candidaturas. Todos os candidatos presidenciais, portanto, colocaram lá no TSE algum documento ao qual se referiram como propostas de governo. Tenho convicção de que, na maior parte dos casos, isso se fez por mera obrigação, sem nenhum compromisso com o programa real de governo. 
No processo de “fusão” entre o PSB e a Rede Sustentabilidade que resultou na filiação e posterior candidatura de Marina, foi costurado um pacto para mudanças profundas na política brasileira.  Assim nasceu a proposta da Nova Política, uma confluência político-ideológica, à qual o PPS se somou desde a primeira hora.  
Baseado nesses fundamentos surgiu o Programa de Governo de Marina Silva, um documento de mais de 200 páginas, elaborado em discussão com inúmeros especialistas e segmentos da sociedade. É esse o Programa que foi divulgado para a análise crítica dos eleitores e é assumido publicamente pela candidata. Isto faz toda a diferença em relação aos outros candidatos.
Fica difícil entender como candidatos ainda sem programas, em vez de procurar declará-los à sociedade, jogam todo o seu tempo de propaganda eleitoral na desconstrução das propostas de Marina. 
A afirmativa de Aécio é de que os brasileiros não precisam se preocupar, pois seu programa “ficará pronto antes das eleições”. Da mesma forma, com viva voz, vemos a Presidente dizer que “quem tá no governo não precisa dessas coisas”. 
Na verdade, serve melhor aos interesses de Aécio não se expor programaticamente. Vende-se como o “mais competente” sem, na verdade, dizer exatamente para fazer o que. Já o documento de Dilma, até este momento não foi ainda oficializado e, ao que parece, não o será. Segundo vários analistas políticos, procura-se com isso evitar o “cabo de guerra entre o que pensa o governo e o que pensa o PT” evitando o “fogo amigo”. 
Enquanto isso, os “sem programas” somam seus interesses e preferem apostar na desconstrução de Marina, a candidata com menor rejeição e, portanto, mais viável para bater o lula-petismo no segundo turno. São ataques raivosos e mentirosos contra a candidata do PSB. Sobre esse tipo de comportamento, é bom  lembrar  que Dilma deu a entender, já em 2013, que é “aceitável fazer o diabo na hora da eleição”.
Orientados pelo marketing sofisticado, pago a ouro, usam produções hollywoodianas e aproveitam a desigualdade de tempo de TV para aplicar a máxima de Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, de que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Querem transformar Marina em representante da “elite branca de olhos azuis escudeira do capitalismo paulista e dos bancos”, como se não tivesse sido o próprio lula-petismo que transformou o Brasil no paraíso dos amigos escolhidos da elite e dos banqueiros.
Enquanto isso a campanha, comandada por marqueteiros, amesquinha-se e vira um imenso trololó, onde não se discute, de maneira consistente, o futuro do Brasil. Em vez de mostrar os diferentes programas, passa a ser a abertura de sacos de bondades e a distribuição destas, meticulosamente estudada, como se faz com inocentes crianças nas festas de São Cosme e Damião.

Fausto Matto Grosso - Engenheiro, professor da UFMS

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A CIDADE UNIVERSITÁRIA

Aposentado há mais de 12 anos, nunca rompi meus vínculos sociais com da UFMS, sempre retornando, pontualmente, para eventos, palestras, debates e mesmo para visitas esporádicas ao meu antigo departamento. Recentemente tive de percorrer seus meandros, com maior amplitude e mais tempo, e fiquei tristemente surpreendido. A Universidade virou um conjunto disforme de prédios, “puxadinhos” e intermináveis estacionamentos.
Arriscando-me a eventuais impropriedades pontuais, sinto-me na obrigação de compartilhar minha aflição, até porque conheço certos aspectos singulares da sua história que ainda não foram contados.
Era inegável a beleza original do campus. O projeto dos pavilhões de ensino começou a ser desenvolvido pelo escritório de Oscar Niemeyer. Diante da grita política, o Governador recuou e passaram a atuar diretamente arquitetos locais de grande valor como Armênio Arakelian (Teatro Glauce Rocha, Restaurante e Hospital Universitário, etc.) e Avedis Balabanian (conjunto aquático). Surgiu assim um patrimônio monumental da arquitetura do Estado. A Cidade Universitária era o orgulho dos campo-grandenses, ponto obrigatório para exibir e nos gabar diante de visitantes da nossa cidade.
Nem tudo era perfeito. Os pavilhões de ensino, onde passei anos da minha vida, apresentavam alguns problemas. A cobertura em lajes pregueadas, de concreto aparente, era fechada lateralmente por tijolos furados. Para quem a projetara, a tão longa distância, deve ter ficado a sensação de uma brilhante solução para o calor campo-grandense. Através dos orifícios dos tijolos deveria circular o ar refrescante. Desconhecia o projetista a poeira vermelha dos meses de agosto, que caracterizava nossa cidade 40 anos atrás. O resultado foi que todos os orifícios foram entupidos por rolinhos de jornais. Ficamos então, com um colchão de ar quente preso em cima das nossas cabeças. Na construção dos primeiros blocos novos, durante certo tempo, consegui-se resolver tal problema respeitando a arquitetura externa.
Na construção dos longos corredores, a pressa do “milagre brasileiro” não permitia, também, muitos devaneios e preciosismos técnicos. Avisado da falta de certas “ferragens” pelo engenheiro da obra, depois professor da universidade, a construtora perguntou: “tem no projeto? Se não tem, não põe”. Como herança, passamos a consertar inutilmente e a conviver, com longevas goteiras que escorrem das lajes em incompreensíveis estalactites.
Na região central de cada bloco havia sempre uma cantina. Em frente destas, um amplo espaço de convivência social dos estudantes. Mas arquitetura tem a ver com política também. Vivíamos a ditadura. Aglomeração de estudantes não combinava com o regime. Começa aí o desastre político-arquitetônico. A Universidade começou a crescer “para dentro”, ocupando, com novas instalações, esses espaços “livres”. A universidade virou um imenso conjunto de corredores de desencontros. Em alguns locais esses corredores também começaram a ser tomados por “puxadinhos para dentro”.
Ainda sobre a política, um dos mais belos prédios da UFMS, o Restaurante Universitário, já pronto e equipado, ficou vários anos fechados, por ordem do Comando Militar da Região, que abominava esses “centros de agitação subversiva”.
Outro equipamento que marcava o campus era o famigerado Morenão, um intruso megalomaníaco no projeto da Universidade. Presente de grego, em um estado sem futebol, sempre foi um imenso problema para a Universidade a quem cabia arcar com o ônus do seu alto custeio, vindo a se tornar, posteriormente, de maneira inadequada, o local de novos “puxadinhos para dentro.”
Passaram-se os anos. A Universidade cresceu muito em instalações e prédios. Imagino que todos devem ter a sua utilidade, não se trata de questioná-los. Entretanto, uma revisita ao campus, nos mostra o grande patrimônio arquitetônico original, além de sucateado, transformado em um monstrengo estético e social.
Exemplo singular e especialmente chocante é o atentado contra a visão monumental do Teatro Glauce Rocha, obstaculizada por uma edificação singela, provavelmente muito importante, mas de locação absolutamente imprópria. Choca-nos também o imenso estacionamento no qual se transformou o campus, sem que se negociasse, com a cidade, uma solução adequada de transporte público.
Quanto às novas construções, não se percebe uma harmonia mínima entre elas e o núcleo original dos prédios. Salta aos olhos uma poluição de estilos, uma distribuição aparentemente caótica na implantação de novos blocos, a perda de áreas verdes, a existência de construções precárias. Parece que a lógica dominante, aqui também, é de que governar é construir obras, aparentemente o planejamento foi substituído pela cultura do imediatismo.
Choca também as notícias na imprensa de a Universidade fazer essa expansão, muitas vezes, através das famigeradas emendas parlamentares, como se a instituição, não fosse, ela mesma, Governo Federal e tivesse, de pires na mão, obrigada a percorrer caminhos tortuosos e nefastos em uma área onde o caminho deveria passar por processos de competência institucional.
Não tenho nenhuma intenção de culpar pessoas, dirigentes acadêmicos ou técnicos da Instituição, até por que não conheço os fatos. Exponho aqui o resultado, tristemente perceptível, de um longo processo de degradação física e estética do campus.
Junto a toda essa perplexidade, talvez por sentimentos já vencidos no tempo, o aperto no peito de ver uma Universidade fechada por cercas e dentro delas uma Reitoria ilhada por outra cerca protetora. Vivi um tempo em que a Universidade era cercada apenas pelo respeito social, onde se defendia a autonomia e onde polícia não entrava.

FAUSTO MATTO GROSSO
Engenheiro, professor aposentado da UFMS

29.08.2014

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MARINA – TEMPORAL OU CHUVISCO

Frederico Valente* e Fausto Matto Grosso**
Será mesmo forte a ventania Marina Silva? Analistas mais afoitos já dão como certa a eleição dela. Realmente, algumas ondas são incontroláveis, vide Collor em 89, Zeca do PT 98 e o Bernal em 2012. Começam a aparecer pessoas que a rejeitavam, mas em função das novas circunstancias estão revendo posições. A própria Marina ajuda, se colocando de forma diferente, mais paciente e pragmática, sem deixar de ser programática como ela está sempre reafirmando. Particularmente acho que esse cenário tem grande probabilidade de acontecer e cabe ser analisado. 
Confirmado o temporal, o que passa a preocupar é a capacidade de Marina para liderar o jogo político e ao mesmo tempo efetivar as principais mudanças que precisam ser feitas para o Brasil voltar a trilhar os caminhos do desenvolvimento, iniciado por FHC, continuado por Lula e paralisado por Dilma.
Estamos vivendo aquela sensação de que o Brasil até melhorou (mesmo nos momentos de turbulência internacional), mas está caminhando para a estagnação (agora num ambiente de recuperação econômica mundo afora). Essa sensação indica que pode avançar muito mais se houver uma troca geral do comando político que a tempos vem mandando no país e que se esgotou por si só.
Nesse caso volto ao passado recente para uma nova comparação histórica. Itamar Franco foi alçado à presidência com essas mesmas dúvidas, talvez até maiores, pois participava de um projeto que qualquer pessoa mais bem informada sabia o que viria com o homem que “combatia os marajás”.
O acidente que vitimou o Eduardo Campos junto com a eleição de Marina Silva, oferece ao Brasil uma nova oportunidade histórica à semelhança da que foi dada com o impeachment de Collor. Trata-se da possibilidade real da formação de um governo de coalisão, com a participação das forças políticas mais responsáveis do País.
Marina e sua Rede, o PSB e o PPS, formam um tripé que vem mostrando organização, modernidade, e coesão, amplamente demonstrados nesse momento difícil. Todo processo vivido pela coligação, tanto na postura em relação à morte de seu líder maior, como na sua substituição, tem sido coerente e competente. A família Campos deu o tom através de declarações sensatas do irmão de Eduardo, e de sua esposa, que poderiam aproveitar o clima emocional e oportunisticamente, postular o lugar dele, ou mesmo de vice. Outro ponto forte deles é a proposição de uma “Nova Política” para o Brasil, conteúdo das falas de Eduardo Campos e Marina Silva, e que é o anseio maior da população brasileira, amplamente demonstrado nas manifestações de junho de 2013.
Para isso a nova presidente do Brasil terá que demonstrar capacidade e disposição para negociar com os adversários e com os diferentes setores da oposição e vai precisar de grande competência para convencimento da sociedade a respeito das reformas econômicas e sociais. Em princípio parece uma competência que Marina sozinha não tem e nem Itamar tinha. Em uma coalizão bem articulada Marina poderia dispor do apoio necessário para tanto e enfrentaria uma oposição menos radical facilitando a governabilidade.
Por outro lado existe a preocupação em relação ao que a Marina ambientalista pensa sobre o setor rural. Sobre isso seu vice Beto Albuquerque já começou a trabalhar. Em entrevista ao ser lançado para o cargo disse "Acho que tem muita gente que tem preconceito contra a Marina, talvez porque seja uma mulher, talvez porque seja uma mulher negra, mas sem ouvi-la. Tem muita gente que ouve os outros falarem da Marina e acha que o que o outro diz sobre a Marina é mais importante do que ouvi-la. Quem ouvir a Marina na campanha vai ver que há muitos preconceitos absolutamente despropositados". Ela já disse também que cumpre o programa proposto pelo PSB.
O momento e as circunstâncias são propícios a um governo de coalizão e esse talvez venha a ser o principal legado construído e deixado por Eduardo Campos com a formação da terceira via. Mas Marina terá que entender e tratar cuidadosamente disso ao longo de toda a campanha eleitoral, pois pequenos deslizes podem azedar o clima e por tudo a perder.
Não vai ser tarefa fácil administrar tudo isso, o PT mesmo vai tratorá-la tão logo se confirme seu crescimento, mas o PSDB talvez não o faça, pelo menos foi isso que FHC sugeriu. Vamos acompanhar os acontecimentos.

*Engenheiro, foi Secretário Nacional de Saneamento

**Engenheiro e professor aposentado da UFMS