sábado, 6 de abril de 2019


DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS DA ESQUERDA
  
Há hoje, uma grave crise mundial de legitimidade que atinge todos os partidos, entre eles os de esquerda. É preciso mudar ou morrer.
  Um momento fundador dos partidos da esquerda, tal como existem hoje, pode ser considerada a Revolução de 1917 (fevereiro e outubro), liderada pelo Partido Operário Social Democrata Russo. Esse partido acabou rachado entre bolcheviques, defendendo uma ruptura revolucionária, e os mencheviques que propunham uma revolução moderada, permitindo primeiro a democracia e o pleno desenvolvimento do capitalismo para só depois implantar o socialismo. Essas foram as divergências que geraram os partidos comunistas, em oposição aos partidos sociais democratas.
  A base material sobre a qual esse processo se desenvolveu foi a economia da Revolução Industrial, cujos reflexos produziram no operariado “o sentimento e a necessidade de organizar-se enquanto classe, com o objetivo de combater a burguesia”. Esse mundo mudou, por mais que isso não seja reconhecido por certa esquerda conservadora.
  Por trás da nova realidade, uma modificação profunda na civilização: a Revolução Cientifica e Tecnológica, que está enterrando a instituições nascidas da Revolução Industrial, entre elas os partidos tradicionais de esquerda.
  Essa nova era da civilização, baseada nas tecnologias de informação e comunicação, as TICs, surge impactando todas as esferas da vida em sociedade. O mundo se globaliza.  As coisas, que pareciam sólidas, se desmancham no ar. Surgem novos valores, novas práticas e novas regras, que demandam novas instituições.
  As pessoas hoje tem mais acesso à informação, organizam-se em redes que articulam os cidadãos em suas lutas e demandas. Elas não precisam mais de partidos, embora estes devam continuar existindo por conta da democracia representativa. Os cidadãos não querem ser tutelados por organizações que representam a velha ordem. Vocês não nos representam, gritam nas ruas! Não adianta fingir que não é conosco também. Um mundo novo pede passagem.  Ou a esquerda se conecta, ou não terá futuro.
  A polarização entre esquerda e direita, continuará válida enquanto houver desigualdades e o fundamentalismo liberal que pretende não apenas uma economia de mercado, mas também uma sociedade de mercado.   Essa polarização não é mais suficiente para dar conta do mundo mais complexo. Novas questões se colocam e a politica pensada de maneira unidimensional torna-se insuficiente. Há um demanda por uma visão pluridimensional, considerando outras polarizações, para responder à complexidade crescente.
  Há hoje uma nova ordem mundial globalizada. Nenhum dos grandes problemas contemporâneos pode ser resolvido fora dela, com cooperação internacional. Isso está claro na questão ambiental, mas também é válido para o comércio, a circulação de pessoas, os fluxos financeiros, a articulação do conhecimento, o combate ao crime organizado, o clima e as doenças. Nessa questão, há uma clara disjuntiva que opõe nacionalistas, xenófobos e isolacionistas, normalmente de direita, e a esquerda globalista, herdeira das melhores tradições internacionalistas.
  A questão ambiental contrapõem sustentabilistas e negacionistas, estes últimos não aceitam que as ações predatórias dos homens sejam responsáveis pela destruição do planeta. Quanto à organização da vida política, há clara contradição entre democratas e autoritários.
  Há que se pensar também uma nova forma-partido, permeável à participação da cidadania. Não mais partidos fechados, verticalizados, aparelhados e centralizadores. Tem que se pensar em uma forma intermediária ente os partidos atuais e os movimentos, um partido-movimento. Instrumento da sociedade e das suas demandas e não pretendendo tutela-la. Aberto também às manifestações eleitorais da cidadania, abrigando as candidaturas independentes e avulsas.
  Uma organização partidária, que se pretenda progressista, no mundo atual, tem que ter flexibilidade organizativa e conjugar os valores da equidade, da democracia, da sustentabilidade e do globalismo. Só assim a política poderá se libertar do sectarismo e da simplificação. E sobreviver.
Fausto Matto Grosso,
Engenheiro civil e professor aposentado da UFMS.

sexta-feira, 8 de março de 2019

QUAL REFORMA DA PREVIDÊNCIA
  Um fantasma assombra o mundo. O fantasma da Reforma da Previdência Social. Surfando na onda do liberalismo, da globalização e do tsunami demográfico, essa questão chegou também ao Brasil.
  Em 1998, Fernando Henrique aprovou a Emenda Constitucional (EC 20) pela qual, para a aposentadoria, não seria mais levado em conta o tempo de serviço do trabalhador, mas sim o tempo de contribuição. Teve ferrenha oposição do PT.
  Em 2003, Lula, através da Emenda Constitucional (EC41), focada no servidor público, estabeleceu que a aposentadoria não seria mais pelo salário da ativa e sim pela média da contribuição. Aumentou a contribuição para 11%, e estabeleceu o teto para servidores estaduais e federais. Para aprovação dessas medidas, contou com o apoio do PFL e do PSDB e oposição de dissidentes petista que vieram a formar o PSOL.
  Em 2015, Dilma teve que fazer um ajuste fiscal, e chamou para tanto o ministro liberal Joaquim Levy. Na Previdência, aprovou a regra que somava tempo de contribuição com a idade, cujo total que deveria atingir os 85/95 pontos. Sofreu grande desgaste da sua base social e partidária.
  Depois foi a vez de Temer com a sua dura reforma de 2018. Só não foi aprovada pela sua baixa governabilidade decorrente dos escândalos de corrupção que envolveram o próprio Presidente.
  A cada um desses momentos o déficit da Previdência se apresentava maior.
  Agora é a vez de Bolsonaro. Sua proposta de Reforma é duríssima, ancorada em uma concepção ultraliberal, focada, basicamente, no déficit previdenciário.
  O resumo da história é o seguinte: a direita atual repete as tentativas de reformas feitas pela centro-esquerda e pela esquerda. Ou seja, a esquerda quando assume o governo também tem que enfrentar a realidade e deixar o palanque. Vira “esquerda de governo”, que tem que tratar do conjunto dos problemas do País. O caso mais exemplar é o da Grécia, da frente de esquerda Syriza, onde tiveram que cortar até aposentadorias, pensões e proventos.
  Vivemos, neste momento, a guerra das narrativas, parecidas com as que marcaram a campanha eleitoral. Cada um tem seus números e suas verdades. É aquela situação do copo d’agua. Uns só enxergam o meio copo vazio e outros só enxergam o meio copo cheio, de acordo com o seu interesse.
  Uma grande dificuldade é a discussão isolada da Reforma da Previdência. Para boas decisões, a discussão deveria ser feita no contexto de um plano de desenvolvimento. Qual país queremos ser, como seria o financiamento da saúde, da segurança, da educação? De onde sairá o dinheiro para infraestrutura e desenvolvimento econômico e social, para tecnologia e meio ambiente? Como combater os privilégios e as desigualdades?  Se a discussão se desse neste nível, seria outra, com mais responsabilidade com o País e com os brasileiros.
  Quanto à Previdência, por exemplo, teríamos que ter respostas para o rápido envelhecimento da população, para a diminuição do número de filhos das famílias, para o crescente esforço para pagar as aposentadorias que acabam comprimindo as despesas sociais. Hoje, os idosos se aposentam mais cedo e vivem mais, crescem as desigualdades entre o setor publico e o privado. Os gastos nacionais e estaduais têm aumentado insuportavelmente, com o Brasil destoando da maioria dos países do mundo, quanto à aposentadoria.
  Diante desse quadro, não tenho dúvida que alguma Reforma da Previdência será aprovada. Pode ser mais, ou menos parecida com a proposta Bolsonaro, dependendo do jogo congressual. Diante desse quadro, a pura “resistência” é burra, irresponsável, e reacionária. O desafio politico é travar a luta pela proteção dos mais vulneráveis e contra as desigualdades e privilégios. Isso só se faz, participando do processo, pressionando e negociando. Numa democracia cabe aos movimentos sociais e de trabalhadores pressionarem em defesa dos seus interesses. Mas, cabe aos partidos, se quiserem ser nacionais, que tratar a questão dentro da complexidade do conjunto dos problemas do País.
  Oposição à Bolsonaro, não pode significar oposição ao País. Tem que haver comedimento. Além disso, responsavelmente, não dá para brigar contra a demografia e contra a matemática. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

POLITICAMENTE INCORRETO


POLITICAMENTE INCORRETO
  O novo Presidente soltou seus demônios no momento solene da posse.
  Tal qual um Dom Quixote de verde amarelo, afirmou ser sua missão libertar o povo brasileiro do socialismo, da inversão dos valores, do gigantismo estatal e do “politicamente correto”.
  Presidente falou aos seus.  Trata-se de uma declaração esdrúxula, mas, provavelmente, grande parte dos seus eleitores se regozijou diante dos impropérios.
  Vamos ao “politicamente correto”, assunto espinhoso, um terreno altamente minado por susceptibilidades.
   Como podem questões tão humanas e universais, como direitos, igualdade, liberdade, paz e tolerância, dividirem os brasileiros? Infelizmente isso acontece e tem sólida base na nossa própria cultura.
  Enfrentar essa realidade, como acontece nos movimentos de mulheres, de negros, de índios, de sexualidade ente outros, faz parte da luta de muitos outros brasileiros corajosos e abnegados que querem construir um mundo mais humano e solidário
  Preocupa-me, entretanto, os resultados desses movimentos. Desconfio das estratégias adotadas. Essas tem que ser de construção de consensos amplos, não o de fuzilamento de hereges nos “paredóns” identitários de cor, sexo, orientação sexual, etnia, deficiências físicas, origem geográfica, identidade de gênero, entre outros.
  A luta em torno das identidades, não raro, se coloca como vertente política que estabelece que os grupos minoritários são oprimidos, e seus opressores devem ser eliminados. A esses grupos se atribui uma superioridade moral, e se cobra individualmente aos “opressores” o pagamentos das dívidas. Assim, todo branco poderá ser responsabilizado pelo racismo, todo homem pelo machismo, independentemente de suas posições individuais sobre a questão. Dessa forma vai se perdendo a clareza de quem é o inimigo a ser derrotado.
  O homem comum, esse que trabalha duro, mata um leão por dia para sobreviver, que vive com dificuldades, não pode ser responsabilizado pela escravidão, pela matança dos capitães do mato e dos bandeirantes. No entanto, os movimentos de identidades jogam em cima dele apenas culpas, dívidas sociais e obrigações de reparação. Diz que sua vida se resume a privilégios e que tem que acostumar a perder para reparar suas culpas. Esse olha em volta e não vê nada disso. Ninguém gosta de ouvir, o tempo todo, que tudo em sua vida é resultado de privilégios, principalmente quando olha em volta e vê que tem menos do que mereceria ter.
  Esse tipo de postura só joga para o outro lado pessoas que poderiam ser ganhas e acolhidas no amplo campo de luta por cidadania, onde devem ser reunidos os brasileiros, independentemente das suas pequenas falhas, consideradas como imperdoáveis pelas milícias radicais.
  Outro resultado natural da radicalização é a fragmentação dos movimentos. Sempre será possível dentro de um grupo surgirem sub-identidades que enfraquecerão os movimentos. Esses acabam não formando uma articulação consistente porque há superposições e colizões fragmentadoras. Exemplificando, de dentro de um movimento de cidadania, sai um movimento de mulheres, dentro desse, sai um de mulheres negras, dai um movimento de mulheres negras vítimas de violência, assim avança a fragmentação.
  O bolsonarismo articula-se em uma onda mundial de guinada à direita conservadora, que tem um dos seus fundamentos na chamada guerra cultural.
  A resistência a isso tem que ser no mesmo campo da cultura. É preciso ganhar as pessoas para as boas teses. A cultura da confrontação permanente não consegue isso. Nessa “guerra” o importante é ganhar hegemonia cultural e política, fazendo que cada conquista seja sustentável. Deve ser uma guerra de trincheiras e não uma luta de movimentos em que avanços podem ser revertidos pela falta de articulações amplas e fortes. O desafio é fortalecer o campo amplo e generoso da luta pela cidadania.
  Daí vem a pergunta, como ganhar eleições satanizando a maioria? O Presidente eleito conseguiu falar para elas. Pisar nos pés da maioria não parece ser uma boa idéia.
Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS
24.01.2019

domingo, 30 de dezembro de 2018


O ANO DE OGUM

  
Pelo candomblé, 2019 será regido por Ogum, nosso São Jorge, o santo guerreiro. Filho de Iemanjá, dono do ferro e da espada, é representado por Marte, o planeta vermelho. É o prenúncio de dias muito intensos com grandes obstáculos a serem enfrentados, com muitas decisões difíceis e inadiáveis.
  Na política, 2019 sinaliza um ano de muitas esperanças e muitos medos.
  Credenciado nas urnas democráticas por 39% do eleitorado, Bolsonaro e equipe começa o governo visto por 75% dos brasileiros como 'no caminho certo', segundo recente pesquisa Ibope. Nosso povo, reconhecidamente, tem sobrenome de esperança, e torce para que tudo dê certo.
  Por outro lado, o discurso agressivo, conservador, xenófobo, alinhado a Trump, socialmente insensível, incentivador da intolerância, causa grande receio e medo a outros muitos brasileiros. Estes terão o desafio de organizar a oposição. 
  Não será fácil Bolsonaro atender as expectativas da população, é muito grave a situação econômica do País. O orçamento para 2019 prevê um déficit fiscal de 139 bilhões de reais, medida da distância entre o que precisaríamos gastar e o que conseguiremos arrecadar. Esse é o tamanho do rombo no cheque especial dos brasileiros.
  O Congresso também deixou para o futuro presidente, algumas bombas fiscais.  É o caso da concessão do reajuste do funcionalismo, da revisão salarial do Judiciário e da manutenção dos incentivos à indústria automobilística.  A equipe econômica terá ainda de respeitar o teto de gastos e a regra de ouro (proibição de tomar empréstimos para cobrir despesas de custeio).
  Entre outros, talvez o problema mais aflitivo seja o desemprego, cuja taxa está próxima de 12% da força de trabalho, levando ao desespero milhões de famílias.
  Mas, o eleitorado do novo presidente vai ter pressa e Bolsonaro despertou expectativas que não tem condições de atender. É normal o povo querer ver tudo resolvido, ao mesmo tempo e agora. Isso não é possível acontecer. As prioridades da população nem sempre baterão com as prioridades da administração, essa tendo que se virar com restrições orçamentárias, óbices legais, viabilidade política entre outras. É provável que caiam a ficha de muita gente e a boa vontade com o novo governo.
  Já se disse, 2019 será o ano da oposição.
  Para a oposição achar seu caminho é necessário, primeiramente, assumir a sua derrota.  Centro, centro esquerda e a esquerda foram esmagados em eleição democrática. Há que se respeitar a vontade do povo e trabalhar com paciência histórica e modéstia.
  No horizonte já despontam três oposições ao governo Bolsonaro.
  A primeira uma frente de “resistência”, tendo como adversário o moinho de vento do fascismo, articulada por um isolado Partido dos Trabalhadores. Nesta ainda predomina o vitimismo e a narrativa da perseguição. Se não se cuidar, vai para o isolamento.
  Também, uma frente de esquerda que está sendo articulada em torno da liderança de Ciro Gomes (PDT, PSB e PCdoB), aglutinada pela visão do nacional-desenvolvimentismo herdada do PT. Terá que se abrir para o centro político se quiser ter futuro.
  E, por último, uma frente democrática, de maior amplitude política, com estratégia mais aglutinadora, disposta ao diálogo, inclusive com os futuros descontentes, eleitores que votaram em Bolsonaro, de boa fé, e logo se frustrarão. Assim foi a frente democrática que derrotou politicamente a ditadura.
  Para essa o desafio, como assinala o Prof. Marco Aurélio Nogueira (UNESP) é necessário o abandono de dogmas e roteiros já experimentados e que, de olho no século 21, articule iniciativas que sejam claramente democráticas, abertas, laicas, flexíveis, com capacidade de expansão e de negociação, que reverberem no Parlamento e nos ambientes da sociedade civil, compondo o que há de vida ativa no Brasil.
  Salve Ogum! Feliz 2019 aos brasileiros.

FAUSTO MATTO GROSSO,
Engenheiro e professor aposentado da UFMS.

sábado, 15 de dezembro de 2018


A TRÊS COLUNAS DO FUTURO GOVERNO
  No primeiro dia do mandato, o governante aperta o botão e a máquina não funciona. Não é para desesperarmo-nos, pode ser que ele consiga seu intento antes de terminar o mandato. O tempo é um recurso escasso que começará a ser gasto no dia da posse. A ampulheta é fria e insensível.
  Conseguirá bons resultados o governante que trouxer na bagagem um bom plano de governo, conseguir construir governabilidade e montar uma boa equipe com capacidade tecnopolítica. Essas três colunas são interdependentes. Falhando uma delas acabam sendo afetadas as outras.
  Vejamos a situação do próximo governo federal, quanto aos três requisitos.
  O programa do próximo Presidente, se existe, é pouco claro. Foi construído durante a campanha, acessando grande diversidade de demandas de um eleitorado com raiva e “mal estar” diante da política tradicional. Os eleitores sabiam o que não queriam, mas não tinham muita ideia do que fazer. O capitão ganhou esses eleitores pela emoção, repetindo dogmas ultrapassados a acenando com fantasmas.
  Hoje, o programa parece ser uma colcha de retalhos, com cada pedaço terceirizado para uma pessoa “competente”, o que confirma a falta de clareza do que fazer. Um programa retrô, que não aponta para o futuro, e o que é um programa de governo senão um caminho para onde ir.
  O programa que estiver na cabeça do Presidente é muito importante, afinal nenhum governo pode ser melhor do que seu governante. A qualidade do líder é um teto para a eficácia de governo.
  O segundo fator, a governabilidade, é vital para as realizações do governo. Em termos gerais é a expressão do grau de controle que o presidente tem sobre os recursos políticos. Indica a maior ou menor capacidade política para tomar iniciativas e sustenta-las. Ela tem que existir tanto na sociedade, como no Congresso Nacional.
  A grande votação de Bolsonaro – 39% do eleitorado – é praticamente igual à de Dilma em 2014.  Depurada dos votos úteis contra o PT, o apoio na sociedade deve ser algo entorno de 20% na sociedade. Expressa uma boa base política como ponto de partida. Para mantê-la e amplia-la, precisa, entretanto, resultados rápidos. O povo tem pressa e vai querer todos os resultados prometidos, de imediato. Diante da grande crise fiscal do País esse desafio torna-se muito difícil.
  No Congresso, o novo Presidente, tenta montar sua base em negociações com as grandes bancadas temáticas, especialmente agronegócios, evangélica e da segurança. Diz não estar havendo negociação com os partidos políticos. A grande maioria dos analistas, entretanto, sinaliza que esse arranjo heterodoxo não deve dar certo. As regras de funcionamento do Congresso são assentadas nos partidos políticos, na Mesa Diretora, nas lideranças, nas comissões e nas bancadas partidárias.
  Parece haver problemas de governabilidade na sua própria equipe de governo. Há superposição de atribuições, principalmente na articulação política e na coordenação de governo. A equipe nasceu fracionada entre o grupo liberal, o evangélico, o militar, o ideológico e o familiar, embora esse sem cargos no governo. O vice-presidente tem expressado sua frustração com relação às funções de coordenação geral de governo que pretendia exercer. O Presidente poderá também ter dificuldades em conciliar a agenda liberal com a agenda nacionalista.
  Por último, mas não menos importante, o pilar da capacidade de governo. Fez bem o Presidente em aproveitar alguns técnicos competentes do governo Temer. A maioria dos outros, ministros e técnicos novos, necessitará do tempo próprio de aprendizado. Mesmo aqueles provenientes do mercado, terão que aprender que a atividade de governo não é uma função simplesmente ideológica ou técnica, é tecnopolítica. Como se darão, por exemplo, os quadros militares com a necessária componente política do jogo governamental?
  O povo vai querer resultados. Boa sorte ao Senhor Presidente.
FAUSTO MATTO GROSSO
Engenheiro e professor aposentado da UFMS
13.12.2018

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018


UM FALSO TSUNAMI
  Antes da eleição de Bolsonaro, a imensa maioria dos analistas e das lideranças políticas apontava que o capitão era um candidato inviável. Poderia até ir ao segundo turno, mas seria derrotado ao final. Quem de nós não se enganou, também.
  O resultado eleitoral, nos primeiros momentos, parecia um tsunami. Algo inesperado, que surgia de surpresa, destruindo tudo pela frente. Mas, era um falso tsunami. Suas premissas já estavam sendo construídas há tempo. Era só olhar para a Europa, para a eleição de Trump, assim como para as jornadas de junho de 2013. A globalização fundia todos esses fatos.
  Na Grécia, o Syriza, um partido socialista, para as eleições de 2019, está 20% atrás do ultradireitista Nova Democracia. Para o Parlamento italiano, o Partido Democrático (ex-PCI), encontra-se atropelado fortemente pelo partido direitista 5 Estrelas para a disputa de 2019. Na França assistimos o último exemplo da implosão dos partidos tradicionais, com o novo La République en Marche, que hoje domina o Parlamento e tem Macron, a ocupar o Champs-Élysée. Ao mesmo tempo ressalta-se o nítido crescimento  do Frente Nacional, de Marine Le Pen, atualmente em segundo lugar.
  Em 2017 aconteceram, na Europa,  eleições presidenciais chaves, nas quais os partidos de extrema direita, embora derrotados, tiveram grande crescimento e ameaçam o futuro. Na Alemanha, o partido Alternativa para Alemanha se tornou a terceira maior força política no parlamento alemão. E, na Holanda, o Partido para a Liberdade ficou em segundo lugar no pleito. Polônia e Hungria são países cujos governos são considerados ultradireitistas;
  Resta a exceção de Portugal governado desde fins de 2015 por uma coalizão política de esquerda, liderada, do Partido Socialista. Tão deslocada do panorama europeu que é conhecida como “a geringonça”. Essa articulação é citada como modelo por muitos líderes do PT, entre eles Tarso Genro, que tentam articular aqui uma frente de esquerda.
  Seria viável, uma solução à la portuguesa, aqui no Brasil?  Segundo Theófilo Rodrigues (UFRJ) o Bloco de esquerda em Portugal tem 53% da Assembleia da Republica, no Brasil, tem pouco mais de 23% da Câmara dos Deputados. Falta muito para isso.
  Parodiando Paulinho da Viola, as coisas estão no mundo globalizado, só que é preciso aprender.
  Outra questão importante para compreender a vitória de Bolsonaro, é perceber as mudanças provocadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação. O eleitor é outro e a política tradicional não entendeu isso. Bolsonaro parece que sim.
  Vivemos outro momento, com outros cidadãos e com outros eleitores. Hoje convivemos com a cidadania líquida, que não tem passado, tampouco tem futuro, é o aqui e agora radical.
  Nessa nova sociedade do consumo, somos mercadoria a nos expor nas redes sociais, absolutamente vulneráveis às fake-news, o que, aliás, não é novidade na história.
  O historiador Robert Darnton (Harvard) conta que as notícias falsas são relatadas pelo menos desde a Idade Antiga: “Procópio foi um historiador bizantino do século VI, famoso por escrever a história do império de Justiniano. Mas ele também escreveu um texto secreto, chamado “Anekdota”, e ali ele espalhou “fake news”, arruinando completamente a reputação do imperador Justiniano”.
  Com as redes sociais é possível disseminar informações discriminatórias e violentas que seriam excluídas pelos meios de comunicação tradicionais. Porém, nas redes sociais, esses conteúdos circulam com mais facilidade. Até quem inventou a mentira acaba acreditando nela.
  Se fosse adepto da teoria da conspiração, estaria procurando quem passou a Bolsonaro, a tecnologia de mapeamento dos algoritmos, ou seja, da cabeça dos eleitores. Ele fez um discurso individualizado à cada eleitor-consumidor, esse, ávido por resolver o seu problema ou frustação imediatas. Se isso ainda não aconteceu, devemos nos preparar, porque brevemente as eleições poderão ser disputadas pelos algoritmos. O problema é quem está por trás deles.
Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS
07.12.2018


domingo, 18 de novembro de 2018


PARA ONDE VAMOS?
  Existe grande ansiedade quanto aos rumos do próximo governo, mas é muito cedo para ter certezas absolutas. O governo ainda nem começou e suas primeiras iniciativas são contraditórias. Como já se diz, Bolsonaro acerta quando recua e erra quando avança.
  O discurso de campanha criou muitas expectativas, na maior parte inviáveis diante da grave crise fiscal. Por isso é importantíssimo acertar na economia. A economia é exatamente essa ciência e arte de operar, com recursos escassos, diante de necessidades infinitas.
  Quanto à questão chave da governabilidade, é preciso construí-la tanto no campo institucional – Congresso e Judiciário – como junto à sociedade. Como o futuro Presidente conduzirá essa construção?
  O futuro é necessariamente incerto e abre-se a diferentes alternativas factíveis. Tendo como referência a opinião do Prof. Rogério Bastos Arantes (USP) são elas apresentadas abaixo.
  - O primeiro cenário é o da adesão de Bolsonaro ao presidencialismo de coalizão, ou seja, mais do mesmo. A tentativa de basear a governabilidade nas bancadas corporativas (agronegócios, evangélicos, da bala, etc.) e nos governadores, não dá os resultados esperados. Neste caso desaquece o discurso antissistema, e ajusta suas estratégias à política realmente existente.
  Indícios de que Bolsonaro pode se render a essa lógica são a retirada da ameaça de extinção dos 20 mil cargos de confiança e os recuos e flexibilizações de posições, como no caso da redução do número de ministérios. 
  Existem dificuldades na evolução de Bolsonaro em direção a este cenário de adesão às regras do presidencialismo de coalizão: o seu eleitorado e apoiadores poderão considerar essa fraqueza como um estelionato eleitoral e o setor militar poderá pressionar pela centralização do poder.
  - Um segundo cenário a considerar é o de avanço autoritário. 
  Bolsonaro, que expressou em campanha que “pelo voto não se muda nada” vira a mesa desfazendo-se da política tradicional e de suas instituições. Passa ao uso intenso de medidas provisórias. Apela para a sustentação popular direta. Governa com nova Constituição elaborada por juristas auxiliares. Os militares passam a ocupar o núcleo central do poder e o Brasil aproxima-se da política internacional de Trump.
  Serão obstáculos a esse cenário a articulação das forças democráticas que mobilizariam a sociedade civil e as suas instituições. Parte do eleitorado do Presidente passaria também a reagir.  Haveria ainda forte pressão internacional contrária ao fechamento do regime.
  Alguns indícios dessa alternativa autoritária podem ser notados na dificuldade atual de lidar com o Congresso, mesmo em questões centrais como a discussão do orçamento de 2019 e a reforma da Previdência ainda em 2018. Também sinaliza nesse sentido, a prometida guinada na política externa, que passaria a ser anti-globalista, com nefastas consequências econômicas,
  Os dois primeiros são cenários extremos. Dificilmente se realizariam por completo, seja por contradições internas, seja por resistência do eleitorado e das instituições democráticas.
  - Diante disso, um terceiro cenário se apresenta, o de um governo sem rumo.
  Bolsonaro não conseguindo dobrar as instituições, busca manter o apoio direto dos eleitores, recorrendo à mobilização popular pela mídia eletrônica, com constante uso de plebiscitos e referendos, estimulando a violência na sociedade e a beligerância internacional, Pressionado entre economistas liberais e militares nacionalistas torna-se um governo sem rumo. Aumenta a instabilidade do país.
  Indicam esse rumo as negociações alternativas com governadores e bancadas corporativas, em vez de se trabalhar com os partidos políticos e mandatários, o que pode revelar-se insuficiente.
  Esses três cenários deverão ser levados em conta pelas forças políticas, especialmente do campo democrático, para se posicionarem perante o futuro governo. Nada de voluntarismo e pressa. O jogo ainda está por se jogar.
Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS.
17.11.2018


quinta-feira, 20 de setembro de 2018


FIGURINHAS POLÍTICAS

Aproximam-se as eleições. Os principais contendores, segundo as pesquisas, têm também, as maiores rejeições. Temos pela frente uma eleição de ódio e medo, dois maus conselheiros. O país que herdaremos poderá ser um Brasil ainda mais dividido, com mais instabilidade política e social.
O pano de fundo da eleição que se aproxima é o de esgotamento da política tradicional, caracterizada pelo descompromisso programático, pela promiscuidade entre o público e o privado, pela corrupção, e pelo clientelismo, situação essa que afeta os mais diferentes partidos e suas lideranças.
Diferentemente de eleições anteriores, quando todos os candidatos pareciam iguais aos olhos dos eleitores, hoje a cena está mais iluminada. A exposição dos candidatos nos debates, nas pesquisas e nas mídias eletrônicas está deixando mais claro o que cada um representa. Será que escolheremos o mais acertado?
Uma boa ajuda para a tomada de decisão do voto pode vir da análise da tipologia dos líderes políticos construída pelo chileno Carlos Matus. O autor tipificava os estilos de liderança política em Chimpanzé, Maquiavel e Gandhi, em uma escala civilizatória.
Tais como nos grupos de chimpanzés, os líderes, assim classificados, são caracterizados pela expressão “o fim sou eu”. A forca representa o seu atributo político principal. Não existe projeto algum - o líder guia a manada a lugar nenhum e é guiado pela lógica de que “o projeto é o chefe e o chefe é o projeto”. É o estilo mais primitivo de fazer política. Os ditadores sul-americanos, velhos e novos, são uma boa representação desse espécime.
“Os fins justificam os meios” essa é a síntese da ideologia que sustenta o estilo Maquiavel. Em relação ao estilo anterior, a grande diferença é que neste caso há um projeto, que transcende o líder. O projeto não é mais individual, é coletivo, tem base social, mas é impossível realizá-lo sem o líder messiânico. Aqui o poder pessoal não é o objetivo, mas o instrumento. Nesse contexto, não há adversários, e sim inimigos que devem ser derrotados e, se necessário, eliminados. A esquerda autoritária foi pródiga em produzir tais lideranças.
Mas a humanidade já conseguiu produzir, embora mais raramente, outro tipo de líder, que baseia a sua liderança na força moral e no consenso. Gandhi é o paradigma desse tipo de liderança política.
Também aqui o projeto é coletivo, mas o líder não disputa para sê-lo. Não precisa força física, lidera pela superioridade de seus valores e da sua ética. Não precisa construir inimigos para vencê-los, mas sim subordinar e ganhar os adversários pela razão objetiva do projeto socialmente superior. Pratica a coerência entre discurso e ação, essa coisa hoje tão rara na política, cuja escassez está na origem da desmoralização dos líderes políticos.
Esses estilos de lideranças políticas raramente são encontrados em estado puro. O estilo real de cada político acaba sendo uma combinação particular entre esses estilos básicos, sendo, normalmente, possível identificar o que é preponderante em cada um.
A cada estilo de liderança, a cada combinação de estilos, vai corresponder, no exercício do poder, um comportamento político previsível. O de pensar e usar o governo como coisa sua, ou comportar-se segundo princípios republicanos. O de isolar-se no uso pessoal do poder ou de compartilhá-lo com a sociedade. O de perpetuar conflitos ou buscar convergências que possam viabilizar projetos de interesse público.
A essa altura, cada um deve estar procurando colocar as figurinhas dos líderes da atual disputa, nos álbuns de personalidades que lhes correspondem. O critério é de cada um, assim como a responsabilidade do acerto ou erro.
De acordo como os líderes são hoje, é possível prever como serão seus governos. Repare bem, não adianta reclamar depois.
Fausto Matto Grosso.
Engenheiro Civil, Professor aposentado da UFMS
20.09.2018


domingo, 16 de setembro de 2018

  NÓS CONTRA ELES


   O Brasil hoje é um campo de guerra. Cada um procurando um inimigo para esmagar. Vivemos tempos de ódio e de medo. Cabe aqui a advertência de Mahatma Gandhi: olho por olho e o mundo acabará cego.
  É muito comum pessoas que, na busca de sua de sua afirmação individual, expressam sua diferença por contraposição a um “inimigo”. O inimigo dá sentido para sua vida. O mesmo ocorre com organizações políticas. Nesse sentido é a luta contra um inimigo, real ou imaginário, que as fazem existir. Mais grave ainda quando essa divisão não é feita tendo por base a ideologia, mas sim, o oportunismo eleitoral.
  Assim, surge a prática de afrontar divergentes e antagonistas, de difamar e espalhar notícias inverídicas (fake news), de agitar e chantagear, de insuflar os ânimos para agredir adversários e transformá-los em inimigos. Essas são práticas que negam a democracia e bloqueiam a vida civilizada.
  O conceito de Inimigo não serve para a política. Inimigo não é feito para falarmos com ele, e sim feito para a guerra.
  Não servem aqui, portanto, os ensinamentos do general chinês Sun Tzu, na “Arte da Guerra”, tampouco os de Von Clausewitz que associam guerra e política, orientando que a política deve ser a preparação para a guerra.
  Em uma sociedade democrática, que queremos ser, a política deve ser a prática de escutar o outro, o diferente e o divergente. É preciso despir-nos de nós próprios, de largarmos a obsessão com a nossa identidade. Na realidade, a solução de um problema dificilmente virá apenas da nossa verdade, mas sim uma nova síntese que também incorpora as verdades do adversário.
  Política é o instrumento civilizado de nos relacionar com o outro. Isso não significa despirmo-nos da nossa identidade, mas sim exploramos as possibilidades de avançar, mesmo limitadamente, onde possa existir espaço para algum consenso que permita avançar a nossa causa. Fora disso é a guerra.
  Nos últimos anos surgiu, entre nós, um partido que se afirmou com essa lógica. Todos conhecem a história e os responsáveis pelo “nós contra eles”. Nós, que representamos o povo, “eles”, os inimigos do povo. A ideia de bons contra maus, de santos versus golpistas é o caminho mais curto para a quebra do pacto democrático que nos sustenta, ou deveria.
  Aqui entre nós, a arrogância salvacionista do projeto de 20 anos de poder era uma clara demonstração de falta de compromisso com a democracia e com a alternância do poder.  Do alto da sua prepotência chegou a ameaçar “extirpar o DEM da política brasileira”, demonstrando seu desprezo pelo respeito ao pluralismo.
  Em algum momento, em alguma curva da estrada, o “nós contra eles” termina por se tornar o “eles” contra nós todos.
  Explode agora o conservadorismo e o autoritarismo. “Eles” saíram do armário e hegemonizaram uma multidão de inocentes úteis, de incautos e simplórios despolitizados, cheios de si e dispostos a construir uma nova hegemonia. Trata-se de uma regressão histórica.
  Em tempos recentes os sinais de perigo já se materializam. Em 2013 a aparição dos Black blocs, recentemente os tiros no ônibus de Lula em uma estrada do Rio Grande do Sul, também no acampamento pró-Lula em Curitiba e o deplorável atentado contra Bolsonaro.
  Que esses graves episódios, façam os brasileiros repensarem a raiva, essa péssima conselheira, e apostarem na tolerância democrática. Essa postura requer que todos encarcerem os seus demônios e mais uma vez aprendam com a sabedoria popular de que é impossível existir só pessoas boas de um lado e só más do outro.
  Também aprendamos, mais uma vez, com Mahatama Gandhi que o “fraco jamais perdoa, o perdão e uma das características do forte”.

Fausto Matto Grosso
Engenheiro civil e professor aposentado da UFMS
14.09.2018



quinta-feira, 6 de setembro de 2018



REQUIEM AETERNAM PARA LUZIA


Enterrada por cerca de 12 500 anos, Luzia foi desenterrada no início dos anos 1970. A descoberta do seu crânio fossilizado, o mais antigo encontrado na América, foi obra da arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire. O crânio foi descoberto em escavações na Lapa Vermelha, uma gruta no município de Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Na antropologia ficou conhecida, mundialmente, como um exemplar do “Homem da Lagoa Santa”.
Os fósseis são as principais fontes de informação utilizadas pelas pessoas que estudam a origem da humanidade. Falta muito ainda para completarmos nossa história natural. A moderna tecnologia hoje disponível, como a datação pelo método urânio-tório, os estudos de DNA, a impressão 3D, entre outras, nos levarão a muitas novas descobertas. Pesquisas atuais lideradas pelo paleontologista Don Swanson, do Museu de História Natural de San Diego, Califórnia, estão a indicar que o homem chegou à América 115.000 anos antes do que se acreditava até agora. Como se vê, falta muito ainda para completarmos nossa história natural. Daí a importância da preservação dos fósseis humanos como de Luzia.
O estudo da morfologia craniana de Luzia revelou traços que lembram os atuais aborígenes da Austrália e os negros da África. Esse fato desmontou uma versão hegemônica de que o homem americano provinha de uma única corrente migratória. Os homens-caçadores asiáticos provenientes da região do Cáucaso e da Sibéria, durante a última glaciação, teriam atravessado do Estreito de Bering e chegado à América.
  A partir da descoberta de Luzia, passou-se a acreditar em duas migrações separadas, uma por Bering e outra transoceânica, segundo a qual homens que habitavam a Polinésia (na região da Oceania) se locomoveram em direção à América do Sul em pequenos barcos. Esses teriam se movido por meio das correntes marítimas que os conduziram. Luzia ajudou a sabermos quem somos e de onde viemos.
  Seria isso importante? 
  O senador Cristovam Buarque, que entre 2003 e 2004, como Ministro da Educação do governo Lula, lançou as diretrizes da Política Nacional de Museus, recentemente respondeu afirmativamente a isso, dizendo que o povo que não respeita os museus, não respeita seus antepassados. "O museu é o álbum de retrato do povo", disse. Afirmou ainda, que o incêndio do Museu Nacional foi uma “uma tragédia sem precedentes” - “cremamos a memória do Brasil” clamou o senador.
  Há que ressaltar também a desmoralização internacional do Brasil, que se mostrou incapaz de administrar um patrimônio, que não é apenas nacional, mas mundial. Foi um constrangimento para o País no exterior, especialmente perante a comunidade científica e cultural mundial.
  Alguns haverão de defender que faltou dinheiro por causa da crise econômica, mas governar é definir prioridades. Convém lembrar que o governo Dilma queimou dinheiro com as Olimpíadas e a construção de 12 estádios para a Copa do Mundo de 2014. Os garotos propagandas dessa causa eram o governador Sérgio Cabral e o Presidente Lula, este ensandecido pelo sucesso efêmero, tentava ser Secretário-Geral da ONU. Uma total irresponsabilidade que hoje nos cobra a conta.
  Luzia, a primeira brasileira, ao que parece destruída definitivamente pelo fogo, foi enterrada novamente, pelas cinzas. Cantamos enlutados a sua nova despedida.
  Triste situação de uma Nação que não valoriza a cultura.
Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS
05.09.2018



terça-feira, 21 de agosto de 2018


CIDADANIA LÍQUIDA

  Há um crescente mal-estar na sociedade brasileira quanto à nossa política. As pessoas não se sentem representadas nos partidos e no Estado brasileiro.
  Como diagnostica o Prof. Marco Aurélio Nogueira, o mal-estar institucional (...), é real. Insegurança e falta de confiança são seus principais indicadores. Hoje, no Brasil, o sistema vive numa espécie de “caos estável”: funciona, mas está cheio de problemas e gera pouca adesão cívica. Os cidadãos “obedecem” às regras instituídas, mas fazem isso sem muita convicção. A adesão se faz por “gratidão” ou receio da punição, não por algum critério racional de “respeito” ou “apreço”.
  Há pois, além da falência das instituições, uma falência da cidadania, o outro pilar da democracia.
  Os políticos profissionais são a contrapartida dos cidadãos que só querem “se dar bem e o mundo que se exploda”. Essa é a combinação explosiva da crise que vivenciamos. O campo dos políticos profissionais é o reino da sordidez, entre os cidadãos o reino da alienação e da desinformação voluntária.
  A alienação política é aquela situação em que a pessoa se recusa a exercer, de fato, a sua cidadania; tem total desinteresse por todas as questões públicas; pouco se interessa em acompanhar ou investigar os atos de seus governantes. A maior parte dessas pessoas ainda confia, cegamente, o seu destino a alguns líderes políticos, achando que esses são os “que entendem de política e serão capazes das decisões mais acertadas”. Enfim, elas entendem exercício do voto, mais como um peso do que um direito legítimo.
  Nas duas últimas décadas, o mundo passou por grandes transformações entre elas o salto representado pelas novas tecnologias de informação e comunicação – as TICs. Essas permitiram aos indivíduos, maior independência pessoal e maior protagonismo, que recusam a exercer.
  O paradigma anterior era baseado na cultura, instituições e valores que nasciam na produção da vida material na sociedade industrial, ou seja, gerador de consciência de coletividade. O novo paradigma é baseado no consumo, ou seja, em um fator essencialmente individual, que quando exacerbado se transforma na patologia social do individualismo. O pensador polonês Zygmunt Bauman dedicou-se, com intensidade, à análise dessa transição e construiu o conceito de “modernidade líquida”, contrapondo-a a “modernidade sólida” da sociedade industrial
  Quando se chega à sociedade da informação, todas as estruturas sociais e mentais surgidas da sociedade industrial, baseadas na estabilidade, se diluem. Para Bauman, as relações transformam-se, tornam-se voláteis. Trata-se da individualização do mundo, em que o sujeito agora se encontra “livre” para ser o que quizer. A cidadania torna-se líquida. A liquidez a que Bauman se refere é justamente essa inconstância e incerteza, que derivam da falta de pontos de referência socialmente construídos.
  Na nova realidade, as regras, instituições e valores, se diluem. As pessoas não tomam posição articuladas na vida em sociedade. É o onanismo mental e cultural. Cada um acha suficiente a sua própria verdade que vai se alterando ao sabor das circunstâncias, juntando-se em ondas aqui, que se dissolvem logo ali. As verdades tornam-se líquidas, conformando-se a cada situação, sem continuidade histórica.
  No período eleitoral que estamos vivendo, a modernidade líquida reflete-se na transformação da luta política, absolutamente necessária, em jornadas de raiva e intolerância, em manifestações de incivilidade, em reinados de fake news.
  Mas o que propõe o eleitor raivoso a respeito disso: o nada, a verdade líquida, descompromissada, cada um julga estar certo com a sua verdade e isso lhe basta. Essa mística individualista, de fundo liberal, só pode produzir equívocos e, atualmente, é um dos vetores do crescimento do populismo e do fanatismo. Ele não se percebe, ao mesmo tempo, como vítima e responsável.
Fausto Matto Grosso,
Engenheiro Civil e professor aposentado da UFMS