quarta-feira, 24 de março de 2021

 

O CIRCO DO PARTIDÃO

(Esta crônica será publicada no livro "Histórias que ningúem vai contar")



Sobrava protagonismo ao PCB de Dourados. Lembro-me de que de certa feita, os trabalhadores rurais anunciaram que iriam acampar na cidade, pela reforma agrária. Quando chegaram à gleba escolhida, que ficava próxima à rodoviária, o local já estava todo demarcado e com os cavaletes de agua instalados. Era a força e a ação do Partidão.

Lá, tudo era no capricho. Certa vez, conceberam um projeto de agitação e propaganda que marcou época. Meticulosamente detalhado pelo arquiteto Luiz Carlos Ribeiro e pelo engenheiro Guilherme Meldau foi criado um circo para conversar com a população nos bairros. Guilherme era orgulhoso do fato de seu avô ter sido companheiro de pensão de Lenin, na Alemanha.

A estrutura da tenda do circo era de tubos metálicos com encaixes, aparafusadas uns aos outros resultando numa forma sextavada, coberta por uma lona plástica nas cores vermelha e amarela com capacidade de abrigar umas 50 pessoas sentadas. A infraestrutura ela completada por bancos e cadeiras de madeira, um cavalete com rolo de papel que funcionava como uma lousa.  Havia também um sistema de som que circulava em uma Kombi para a divulgação da atividade e que era depois montado no interior do circo durante o evento.  Na parte da manhã, o som percorria as ruas do bairro anunciando o evento no circo, ajudado por militantes que reforçavam o convite casa em casa, todos embandeirados e uniformizados com camisetas do Partidão, como forma de dar visibilidade ao Partido O sucesso era garantido. Juntava muita gente.

 

O circo chegou

Vamos todos até lá

Olha que o circo chegou

Não custa nada você ir até lá

 (Jorge Ben Jor)

Algumas horas antes do início do evento, os militantes no dia marcado chegavam ao local do evento e montavam o circo. Alguns dos nossos militantes com dotes artísticos e culturais faziam o papel de palhaços, e desenvolviam outras performances, organizavam brincadeiras com as crianças, horas antes do início do evento, as quais, uma vez atraídas, acabavam nos ajudando na mobilização dos moradores, já que iam contar aos pais o que estava acontecendo no bairro, e os convidava a lá comparecerem. Quando possível eram levadas algumas personalidades destacadas no cenário municipal, estadual ou nacional para estes eventos, que ao final eram encerrados com uma fala sobre o partido e a sua política.

Nas eleições municipais de 1988, quando lançamos Alan Pithan para prefeito em Campo Grande, o circo foi transferido para a capital para ajudar na campanha, ampliando as suas atividades. Eram dadas palestras, e prestados atendimentos sobre saúde; professores e pedagogos ajudavam com a recreação para as crianças. Na sequência falavam os nossos candidatos sobre suas candidatura e militantes, sobre a política do partido.

Outra inovação aqui introduzida foi a venda de comida feita pelos militantes. Não faltava o carreteiro, churrasquinho, mas tinha também comida mais sofisticada. Lembrou-me outro dia a Dedê Cesco, hoje afamada chef, de uma torta que ela fazia, chamada Kulebyaka - da tradicional da cozinha russa - a massa era levedada e os recheios eram múltiplos: linguado, molho bechamel e caviar. O caviar, item caro, era fornecido pela dispensa da sua mãe.

  Também, utilizamos o circo para fazer um acampamento de jovens militantes, na cidade de Rio Verde, para evento de formação política durante o carnaval. Bons tempos. 

  Ao final, depois de enrolarmos por um bom tempo, o circo foi afinal devolvido aos companheiros de Dourados, com dor no coração.

FAUSTO MATTO GROSSO

(Este texto teve como referência, um texto escrito do companheiro Ênio Ribeiro, e ajudas à memória de Luiz Carlos Ribeiro, Edilson Pereira e Dedê Cesco).

quarta-feira, 17 de março de 2021

 COMO ENTREI NO PCB.

Ângelo Arruda

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que ninguém vai contar)

O ano era 1980. Eu tinha acabado de chegar em Campo Grande vindo de Recife-PE. Formado em arquitetura e urbanismo e comecei a trabalhar no escritório do arquiteto Jurandir Santana Nogueira (JSN) na Rua Pedro Celestino 306 e um belo dia de semana ensolarado eu conheci o engenheiro Fausto Matogrosso que fazia trabalhos de cálculos estruturais para o escritório do Jura (era assim que ele era chamado). Participávamos de uma reunião técnica de um projeto e eis que, imediatamente, Fausto me convida para participar da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Campo Grande (AEACG) que tinha sede na Rua Dom Aquino bem em frente às Lojas Americanas.

Na AEACG acabei conhecendo muita gente que se tornaram meus amigos como Edson Bossay, Frederico  Valente, Euclides de Oliveira, Paulo César e tantos outros. Essa galera era tudo militante ou simpatizante do PCB e eu não sabia. Um dia Fausto chega prá mim e diz: “olha queremos te convidar para participar de reuniões do partido. O que você acha?”

Eu que em Recife como estudante de cursinho tinha dado meu primeiro voto aos 18 anos a um deputado comunista e votado em Marcos Freire para o Senado em 1974 que era de esquerda, aceitei o convite e passei a integrar a “base dos engenheiros e arquitetos”.

Essa base se reunia na casa do engenheiro Nilson Teodoro na Vila Pioneiros, saída para São Paulo e era um grupo bem grande de militantes. Caio Nogueira, Caco Lobo, Nilson, Paulo César, Euclides, Fausto, Valente, etc. Era muito bom discutir política nacional e internacional alinhada com o pensamento socialista em plena ditadura militar. Isso era 1980 ainda.

Tempo passa, passeata, Diretas Já, carreata em defesa do Pantanal, tantas lutas e veio o ano de 1982 com eleições gerais para todos os cargos legislativos, para governador, mas o prefeito de capital ainda era indicado.

O ano de 1982 foi emblemático para mim no PCB. No primeiro semestre, eu, Paulão e Mauri, seu irmão, fomos de busão para São Paulo participar do VII Congresso do PCB que não chegou, contudo, a se realizar, pois a polícia invadiu o local e prendeu os participantes, que foram liberados logo depois. Voltamos para casas frustrados.  No segundo semestre, as eleições e fizemos uma campanha muito bacana, dentro do MDB (como o PCB estava na clandestinidade, todos os seus militantes atuavam nesse partido) e elegemos Fausto Mato Grosso, Marcelo Barbosa, diretamente com o voto dos comunistas e ainda ajudamos a eleger Juvêncio César da Fonseca (que acabou em 1985 se elegendo prefeito) e Waldemir Moka, todos vereadores de Campo Grande.

Nesse ano ainda teve bomba em banca de jornal da cidade e tínhamos grande preocupação com a polícia política. As nossas reuniões na casa do Nilson Teodoro, por exemplo, eram cercadas de mistério. Todos eram avisado por telefone fixo e cada um tinha uma hora prá chegar na casa, na realidade uma mansão dentro de um bairro de classe baixa, com muros altos, grandes portões e a gente sempre entrava lá desconfiado.

Esses tempos foram muito importantes para a minha formação política de esquerda no campo socialista e a abertura de uma rede enorme de amigos e amigas que mantenho até os dias de hoje.

ÂNGELO ARRUDA – arquiteto e urbanista, professor aposentado da UFMS

 

terça-feira, 16 de março de 2021

 


TESOUROS PERDIDOS

Marisa Bittar

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que ninguèm vai contar)


  Como jovem militante do PCB em Campo Grande desde a segunda metade da década de 1970, o Partidão foi uma grande escola para a minha vida. Nele, concomitantemente às Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (hoje UCDB), eu fazia um curso de História paralelo ao dos bancos da Faculdade.

  Uma das marcas do PCB nessa época era a sua política de formação que, aqui em Mato Grosso do Sul, era levada muito a sério. Tínhamos o Centro de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais (CEPES) que funcionava no centro da cidade, na Rua Rui Barbosa, onde realizávamos cursos e palestras. Também mantínhamos Grupos de Estudos, que eram realizados nas casas de nossos companheiros.

` Além disso, o Partido tinha suas próprias publicações e documentos que, por segurança, para serem lidos, passavam pessoalmente de mão em mão por todas as bases e depois voltavam ao poder do Comitê Estadual que, então, providenciava local seguro para armazená-los ou então os devolvia ao Comitê Nacional.

  Aqui em Campo Grande, ficavam escondidos em lugares considerados seguros, um deles a minha casa na Rua Padre João Crippa. Eu cuidava com imenso zelo dessa minha tarefa e, para meu desgosto, esse tesouro que eu protegia foi destruído três vezes devido às suspeitas de que a ditadura recrudesceria. Nessas ocasiões, o procedimento era sempre o mesmo: um dos camaradas, que neste caso específico era Amarilio Ferreira Jr., vinha até minha casa e passava a ordem do Comitê Estadual: desfazer-se de tudo. Nenhum de nós jamais ousava fazer perguntas quanto mais não confiar totalmente naquelas decisões da direção, leia-se Fausto Matto Gosso, Onofre da Costa Lima e Carmelino Rezende.

  Da primeira vez, durante a madrugada, decidimos queimar tudo em casa mesmo, o que foi um tremendo risco. Da segunda, juntamente com Paulo Cimó, nos desfizemos de todos os papéis, já bem picadinhos, num lugar ermo próximo ao Córrego Segredo (ainda bem que era o Segredo e não o Prosa!). Mas da terceira vez, quando a mesma ordem chegou pelo mensageiro de sempre, resolvemos conjecturar por conta própria que talvez não fosse haver endurecimento do regime nem a polícia fosse bater em nossas casas, já que das outras duas vezes, felizmente, a suspeita tinha gorado. Por que então iríamos destruir tudo? Queimar nossas preciosidades de novo? Resolvemos, assim, adotar uma solução criativa e inovadora, diferente das anteriores: fomos para o fundo do quintal, que era de terra, e começamos a cavar um lugar onde, no futuro, pudéssemos encontrar todo o tesouro enterrado. O local escolhido foi próximo a uma goiabeira e lá trabalhamos em plena escuridão, sem lanterna, sem nada. Pois, não podíamos chamar atenção nem acordar minha família.

  Nosso segredo ficou guardado a sete chaves e esperávamos que quando a suspeita de endurecimento do regime passasse, nós fôssemos triunfantes contar a nossa façanha aos nossos dirigentes mostrando-lhes que havíamos sido capazes de preservar todo o material! Quando finalmente esse dia chegou, voltamos ao quintal e depois de várias tentativas nada encontramos. “Você tem certeza de que foi exatamente aqui?”, perguntávamos uns aos outros. Um achava que era mais ali, outro achava que era mais pra lá e o resultado foi que minha mãe, contrariadíssima, quis saber qual era a razão de estarmos fazendo buracos em seu quintal sem plantarmos nada. Não tivemos coragem de contar a verdade e o resultado foi que perdemos tudo de novo!

MARISA BITTAR

Professora da UFSCar      

 

 

segunda-feira, 15 de março de 2021

 

QUEIMEM OS DOCUMENTOS

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que ninguém vai contar)



         De vez em quando, não se sabe de onde, surgia uma notícia de blitz policial contra o Partidão na madrugada. Para essa situação já tínhamos sempre pronto um plano de contingência: esconder o Onofre e queimar documentos comprometedores.

O Onofre, quase sempre era o mais visado por ser a principal liderança e por ser membro do Comitê Central do partido. Muitas foram as noites em que dormiu em escritórios, consultórios ou na casa de amigos. Já meus maiores cuidados eram sempre com minhas “cadernetinhas” já que eu era responsável pela organização do Partido. Eram daquelas bem pequenininhas que, tirando a espiral, dava para engolir.

A queima dos documentos era sentida como uma grande perda. Afinal era material normalmente organizado meticulosamente, em relação aos quais tínhamos criado afeto. Eram memórias das nossas lutas. Eram jornais, coleções de documentos reservados, textos para cursos e grupos de estudo e livros proibidos.  Sentíamo-nos com se vivêssemos os fogos da nossa auto inquisição. Os que mais sofriam eram os companheiros da área de história.

Adicionalmente, tínhamos um problema, a militância não sabia exatamente o limite entre o que era e o que não era material comprometedor. Ao lado da “Voz Operária”, foram queimadas juntas coleções do Pasquim e gibis do Fradim.

Muitas vezes os documentos eram também enterrados e, em muitos casos, não mais se conseguiu reavê-los.

Certa vez nos veio a ideia de construirmos um arquivo supersecreto, cujo local fosse desconhecido até da direção do Partido. O local escolhido foi a casa de um fiel militante, Itamar Barreira, considerado fora de ação, pela idade. Foi comprado um arquivo de aço que foi colocado na sala do professor, no local inocente onde ele dava aulas particulares. Os documentos lá chegavam depois de uns três ou quatro intermediários que não sabiam uns dos papeis dos outros. Lembro-me de alguns dos nomes, a confirmar: Marisa Bittar, Fortunato Moreira, sua esposa Nilda, a professora Izaíra Tibéri, esposa do nosso secretário municipal de obras. Eu tinha a réplica das pastas suspensas e de seus conteúdos em uma das minhas “cadernetinhas”, que nos momentos de perigo era depositada na casa de minha mãe entre os seus sapatos.

Muitas vezes me vêm à ideia de que, daqui a alguns séculos, quando os marcianos vierem fazer escavações por aqui, talvez possam encontrar nosso material subversivo enterrado e comprovar que já existiu vida inteligente nesse sítio insalubre, mesmo durante a ditadura.

FAUSTO MATTO GROSSO

 

 

sábado, 13 de março de 2021

 

REFORMA ELEITORAL E DISTRITÃO



A legislação eleitoral brasileira é uma colcha de retalhos. Ela é composta de diversos dispositivos constitucionais e de inúmeras leis, cada uma delas tratando separadamente temas pontuais. Além disso, existem diversos projetos dos deputados e senadores tramitando sobre questões eleitorais. A reforma que se discute agora tem o objetivo anunciado de articular esse conjunto desconexo, em um novo Código Eleitoral.

No aspecto técnico-jurídico, não há como se opor a sistematização da legislação dispersa. O próprio presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, ressalta que, pela quantidade de leis que surgiram ao longo do tempo, “está chegando a hora de se ter uma sistematização dessas normas eleitorais”. Assinala ainda que o Direito Eleitoral é o mais dinâmico de todos, porque ele segue um pouco a dinâmica do processo político e das vontades das maiorias que se formam em cada momento. Portanto, é importante considerar que a corrente política hegemônica no Congresso hoje é o Centrão que valoriza a politica como negócio privado e não prima pela defesa da democracia.

O novo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), cumprindo compromisso de campanha, instalou há poucos dias, um grupo de trabalho que irá atualizar e sistematizar a legislação eleitoral. Integram o colegiado 15 deputados, dos quais oito são protagonistas de processos no Tribunal Superior Eleitoral. As alterações nas regras eleitorais só irão valer nas eleições de 2022 se forem aprovadas, nas duas casas legislativas, até um ano antes do pleito que será em outubro do ano que vem.

Entre as modificações que estão sendo discutidas, uma das que mais preocupa é a mudança do sistema eleitoral com a criação do chamado distritão. O presidente da Câmara Arthur Lira sinalizou que já existe grande força no Congresso pela sua aprovação.

No distritão cada estado é um grande distrito e são eleitos os deputados mais votados, independentemente do desempenho de suas siglas. O voto passa a ser 100% individualizado, “cada um por si e Deus por todos”. Há um enorme desperdício de votos, todos aqueles que não votaram nos poucos vencedores se considerarão não representados. Isso enfraquecerá a legitimidade dos eleitos.

Esse sistema também inibe a renovação dos políticos: serão eleitos aqueles já conhecidos individualmente. Em uma sociedade de espetáculo como a nossa, seria o reino das personalidades da mídia, das igrejas e do esporte, além de grandes grupos econômicos com poder de patrocínio.

Sem dúvida esse sistema tem a vantagem de ser mais fácil para o entendimento do eleitor, mas promove o personalismo na política, enfraquecendo os partidos e as ideias políticas. Acontece que não existe democracia moderna sem partidos fortes.  A fragmentação tão criticada da Câmara e do Senado será ainda mais nociva quando cada deputado virar um partido do eu sozinho.

Há ainda que se considerar a experiência internacional. Segundo pesquisa do Instituto Internacional da Democracia (Idea), entre 200 países pesquisados somente 2% deles utiliza esse sistema do distritão, entre eles Jordânia, Afeganistão, Ilhas Pitcairn e Vanuatu.

Por certo, o sistema eleitoral brasileiro está precisando de atualizações e sistematização técnica-legislativa, mas há que se ter cuidado para evitar jabuticabas e jabutis. Se o sistema atual de voto proporcional possibilitou a eleição de Tiririca ficará pior se possibilitar a eleição de vários tiriricas e big-brothers bem votados em seus estados.

FAUSTO MATTO GROSSO - Engenheiro e professor da UFMS 

 

domingo, 7 de março de 2021

 

ARAPONGAGEM NO PARTIDÃO

(Esta crônica será publicada no livro "Histórias que ninguém vai contar")


  A araponga é uma ave pertencente à família Cotingidae, gênero Procnias que produz som alto e estridente, parecido ao de um martelo batendo numa bigorna. Por estranho que pareça o termo é usado para denominar um policial infiltrado, daqueles que tem que trabalhar no quieto. Segundo algumas referências, o sentido de agente secreto começou em uma novela da Globo, escrita por Dias Gomes. O protagonista era o detetive atrapalhado Aristênio Catanduva (Tarcísio Meira) que uma vez finda a ditadura, não tinha mais a quem alcaguetar nem torturar e, por essa razão, trancado em seu quarto, torturava-se a si mesmo e depois sorvia leite de uma mamadeira.

  Existe uma classificação funcional dos agentes de informações – o infiltrado e o provocador, quando pertencentes à polícia ou aos órgãos de repressão, e os informantes e delatores, quando pertencentes à própria organização espionada. “Araponga” foi o termo intencionalmente criado para representar, de forma cômica e negativa esses agentes. Também eram chamados de X-9, nome originário de uma história em quadrinhos “O agente Secreto X-9”, que existiu entre 1934 e 1996.

  Aqui em Mato Grosso do Sul, a arapongagem, durante a ditadura, correu solta. Eu me lembro dos estudantes-arapongas infiltrados na UFMS. Eram jovens que entravam, sem vestibular, em diversos cursos como Engenharia, Medicina, Educação Física entre outros, todos mancomunados com a Assessoria de Segurança Informação da própria universidade. Hoje são profissionais que circulam faceiramente, sem embaraço, entre seus colegas que eram arapongados, alguns até não escondem o passado de dedos-duros.

  O Partidão também era de grande interesse desses órgãos de informações/repressão durante a ditadura, tanto no plano nacional com regional. Até o Comitê Central, no exterior, chegou a ser alvo da infiltração feita pela CIA que resultou na prisão e assassinato de dirigentes. Após a redemocratização muitos arquivos e documentos “confidenciais” foram abertos à sociedade, principalmente após o trabalho da Comissão da Verdade.

Sobre o Partidão de Mato Grosso do Sul, existe copioso material, hoje acessível, no Arquivo Nacional e no Arquivo Publico do Estado de São Paulo. Éramos acompanhados intensamente pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), pela Polícia Federal e pelo setor de informações do Exercito e da Aeronáutica.   Todos os eventos, ações políticas e participação social eram fartamente documentados. Dirigentes partidários, liderança dos movimentos sociais e estudantis eram documentados em suas mínimas atividades.

Naturalmente, tínhamos preocupações e cuidados, mas isto era insuficiente. Com o material hoje disponível podemos verificar a extensão dos riscos que corríamos, inclusive com as infiltrações policiais entre os nossos quadros. Nosso trabalho de incorporação de novos militante era cuidadoso, inclusive fazendo-os passar por longos períodos de aproximação através de cursos que ao mesmo tempo em que os capacitava politicamente, buscavam conhecer bem as pessoas. Tem até o caso de uma companheira, que só foi admitida depois de terminar o casamento com um “língua solta”.

  Lembro que tínhamos muita preocupação com a escuta telefônica e com microfones ocultos, tanto que muitas reuniões eram realizadas em carros rodando pela cidade ou estacionados a ermo. Foi assim a com o Movimento de Anistia de Direitos Humanos encaminhada com uma reunião de Ricardo Brandão com dirigentes estaduais do partido, rodando em círculos na Cidade Universitária, já tarde da noite.

  Para o caso de necessidade de despiste, conhecíamos todos os locais que tinham uma entrada e duas ou mais saídas ou se prestassem a confundir eventual seguidor. Lembro o caso da agencia central de Correios, do antigo Hospital da Noroeste (hoje Hospital do Câncer) e a travessia do trilho do trem, na Rua Barão do Rio Branco, onde uma escadaria dificultava a perseguição por carro. Foram lições da vida clandestina, usadas em favor da luta política e ideológica. Esses locais de despiste, ficamos sabendo depois, alguns camaradas também os usava para a safadeza de despistar namorados ciumentos.

FAUSTO MATTO GROSSO

(Esta crônica foi escrita com a ajuda à memória de Orlando Rocha)

 

quarta-feira, 3 de março de 2021

 

AS GRADES DA LIVRARIA GUATÓ

(Esta crônica, será publicada no livro Histórias que ninguém vai contar )


Os guatós formavam um grupo indígena que habitava na zona fronteiriça entre Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e a Bolívia. Eram índios canoeiros, respeitados pelo manejo certeiro do arco e flecha.  Não formavam grandes aldeias, mas viviam em grupos familiares esparsos que acabaram sendo afugentados pela criação de gado na região, que os levaram a se refugiarem na Bolívia ou nas periferias pobres das cidades da região.  Foram considerados extintos a partir de 1950 e, por isso, não receberam qualquer assistência do governo até 1976, quando foi encontrada uma aldeia do grupo próxima à periferia da cidade de Corumbá. A partir daí, passaram a lutar pelo seu reconhecimento étnico, com apoio de diversos setores da sociedade sul-mato-grossense. A palavra guató passou a ter um significado de resistência.

No início da década de 1980, o amigo Manoel Sebastião da Costa Lima, que viria a ser conhecido como Mané Guató, fundou uma livraria que se transformou em um dos mais importantes locais de encontro da intelectualidade do estado.

A Livraria Guató foi instalada em um sobradinho à Rua Rui Barbosa, no centro da cidade. Na edícula dessa casa, com entrada independente, funcionava o Centro de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos (CEPES), uma espécie de escola de formação política do Partidão, aberta à sociedade. A Guató funcionava como uma sala de espera para o CEPES. O CEPES e a Guató faziam uma combinação perfeita.

Ali podia ser encontrada uma ampla literatura geral e política, das mais importantes editoras nacionais e estrangeiras, entre elas a soviética O Progresso. Os temas sociais, políticos e econômicos eram o forte da livraria e os temas marxistas o carro chefe. O comando do Mané Guató era a consagração do espaço.

À livraria afluía a intelectualidade do estado, para conversar, discutir, saber das últimas e também, abastecer-se de livros clássicos e de lançamentos recentes. Era ponto de encontro de professores, jornalistas, artistas, estudantes e amantes da boa leitura. Lembro-me de um médico amigo, que passava vários meses em uma pequena cidade do interior, onde morava, e quando vinha a Campo Grande apenas ia à Guató comprava uma mala de livros e imediatamente voltava para o autoexílio na sua cidade para ler como um desesperado.

Manoel era agrônomo de profissão, com engajamento político desde os tempos de faculdade no Rio de Janeiro onde fora ligado com a Juventude Universitária Católica (JUC). Era também bacharel em direito. Como agrônomo foi funcionário do Instituto Brasileiro do Café - IBC. Tinha uma vasta cultura, fruto da leitura disciplinada e metódica que mantinha por décadas a fio, nas primeiras horas do dia, antes do alvorecer.

Na livraria era um grande anfitrião, sempre convidando as pessoas para um chá amigo no 1º andar. Generoso, franco e sincero, era uma pessoa doce e agradável, amigo de todos. Paciência não lhe faltava para conversar horas a fio. Morava com a sua companheira Joana e dois filhos em uma casa ao lado da livraria. Dizia que a livraria não era dele, era de todos, ele seria um simples “zelador”, já que “contra a propriedade privada”. Permitia inclusive que jovens estudantes sem moradia, dormissem no estabelecimento. Segundo diziam, o zelador Mané Guató várias vezes viu pessoas roubando livros e nada fez, achava que o importante era que os livros fossem lidos. Passados os anos, a livraria se revelou comercialmente insustentável e o Mané, “mais” a Joana e os dois filhos Paulo e Júnior, foram viajar de Kombi pelo Brasil em um longo itinerário que levou anos.

A Livraria Guató foi um local que deixou saudades. Ainda hoje passei lá em frente, passeando de Google, o que me lembrou um antigo enigma que muito me intrigava. Por que o prédio tinha grades apenas no andar de cima? Certa vez inquirí ao proprietário do imóvel sobre isso. Seu Onofre, pai do Mané Guató, me contou que antes da livraria, morava ali um jovem advogado comunista. Certa vez esse acordou, no meio da madrugada, achando que a polícia estava subindo a escada para prendê-lo. Não teve dúvidas deu um salto pela janela foi parar lá embaixo. A partir desse fato, tornou-se necessária a colocação da grade no primeiro andar.

FAUSTO MATTO GROSSO

(Esta crônica foi escrita com ajuda à memória de Ahamad Schabib Hany, Airton Sampaio e  Professor Paulo Cabral)

Ajustado em 03.03.2021 por indicação de Paulo Esselin

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 

ENTRE VÓRTICES, CICLONES E CAVADOS


A política é como uma nuvem, ensinava Tancredo Neves. Em política também existem ventos em altitude, sistemas de alta e baixa pressão, vórtices, ciclones e cavados. Sem programa de governo, com governabilidade instável e com precária capacidade de gestão, o governo Bolsonaro é pródigo em produzir surpresas e instabilidades.

O capitão saiu das eleições municipais de 2020 como um grande derrotado. Embora tenha adotado a tática de fingir-se de morto, os candidatos por ele apoiados foram fragorosamente derrotados. Eram 13 e apenas dois se elegeram. Entre os derrotados Crivella no Rio de Janeiro e Russomano em São Paulo, bem representativos do obscurantismo bolsonarista. Os únicos eleitos foram os prefeitos em Parnaíba no Piauí e Ipatinga em Minas Gerais.

As eleições municipais formam a base para as disputas nacionais, portanto é importante levá-las em conta. O partido que ainda mais elege prefeitos é o MDB que, de qualquer forma, pouco tem contado na política nacional. No Centrão cresceram PP e PSD. Enquanto o PSDB teve grande derrota, o DEM, de Rodrigo Maia, foi vitorioso com grande salto no número de prefeitos.  A esquerda e a cento-esquerda saíram também derrotadas, apenas o Cidadania aumentou o número de seus prefeitos.

As eleições dos presidentes da Câmara Federal e do Senado também afetaram profundamente o rumo da política, um verdadeiro ciclone. Bolsonaro que já perdera os olavistas e lavajatistas, enfim se entregou ao Centrão, que prometera destruir. Com isso ganhou temporariamente uma blindagem no Congresso contra o impeachment e impôs derrotas a dois prováveis antagonistas, o DEM de Rodrigo Maia e ao PSDB de Dória, rachando-os de forma humilhante. Como disse o senador Tasso Jereissati, “os partidos foram triturados no Congresso”.

Para quem tinha dúvida, o livro-entrevista do General Villas Boas revelou que os militares de alto escalão das Forças Armadas também estão ativos no jogo político e conspiram nos bastidores. Ao mesmo tempo Bolsonaro amplia a posse de armas e trabalha no sentido de transformar as polícias militares em milícias bolsonaristas; planta ventos parecendo querer navegar em tempestades, pescador de águas turvas que é. Isso demonstra como é frágil e instável a democracia brasileira e que as possibilidades de retrocessos autoritários ainda estão presentes na vida nacional. Um raio em céu azul é sempre uma possibilidade.

É com esse alto grau de indefinição política que caminha o processo eleitoral de 2022. Articulam também no Congresso mudanças na legislação partidária e eleitoral. É o caso do fim das cláusulas de barreira e a criação da federação de partidos, para atender demandas das pequenas legendas. Também cogita-se a aprovação do distritão, sistema regionalizado de voto em grandes distritos eleitorais, que valoriza o voto em chefes políticos regionais.

Enquanto isso Bolsonaro vai se movimentando tentando ajustar seu discurso para passar a impressão de que a estratégia continua sendo de política econômica liberal, representada por Paulo Guedes; mas, no caso da Petrobrás deu uma guinada populista e estatizante para agradar a sua base eleitoral e consolidar o poder dos generais do Palácio do Planalto.

Nesse clima instável, o Presidente vai vagando com iniciativas populistas, armamentistas e negacionistas para atender suas bases, ao mesmo tempo em que faz chantagem à educação e à saúde, para viabilizar recursos para o auxilio emergencial tão necessário.

  Apesar disso, com as pesquisas indicando sua aprovação no patamar de 30%, para a maioria dos analistas, Bolsonaro deverá estar no segundo turno nas eleições presidenciais. Falta saber quem estará com ele, quem vai encará-lo. Já estão na disputa Dória, Hadad, Ciro Gomes, Huck, Boulos e ainda correm por fora, Moro, Mandetta e o governador gaúcho Eduardo Leite.  Muitas outras candidaturas ainda poderão aparecer. Não se sabe qual delas prosperará, qual terá capacidade de aglutinar uma frente ampla contra Bolsonaro, única condição de derrotá-lo.

Candidatos não faltam, mas há que se avançar numa boa articulação democrática e num programa mínimo com para tirar o país do buraco em que se encontra.

FAUSTO MATTO GROSSO

Engenheiros e professor da UFMS

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

 O SOCORRO VERMELHO

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que ninguem vai contar)



O Socorro Vermelho Internacional foi uma organização que surgiu a partir de iniciativa da Internacional Comunista, no início do século passado. Tinha como objetivo defender àqueles que fossem vítimas da repressão em seu país, por participar em protestos ou movimentos de contestação. A organização ajudava, inclusive financeiramente, presos políticos e famílias de vítimas da repressão. Sua conotação básica era a da solidariedade. Na concepção original era uma frente de trabalho de massas, que deveria organizar amplamente o apoio da população aos vitimados. Mal comparando, hoje seria uma espécie de Greenpeace, ou Médicos Sem Fronteiras dos perseguidos políticos.

No Brasil, foi criada em 1924 pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), e seu ponto mais alto se deu quando da repressão ao Levante de 1935, a chamada Intentona Comunista.

Existia uma seção do Socorro Vermelho em Mato Grosso (uno). Nos anos 1960/1970, tomava conta dessa atividade a discreta Dona Lígia Pletz Neder, esposa do dirigente histórico do partido, Alberto Neder. Ela era a responsável pela organização da solidariedade aos militantes em necessidades e às suas famílias. Foi substituída, nesse desafio, por Yonne Orro, ajudada por várias outras camaradas. Pontualmente, Marisa Bittar foi responsável pelo Acelino Granja, um dos nossos quadros mais atingidos pela repressão.

Como Granja, entre nós, existiram muitos outros companheiros que dedicaram toda a sua existência à luta política pela mudança social através dos sindicatos e movimentos populares. Muitos eram presos e suas famílias padeciam com as suas ausências Muitos morreram deixando suas esposas e filhos completamente desassistidos. Generosos e dedicados à luta na qual acreditaram, esqueciam-se de si, numa doação quase religiosa à causa. Moravam muitas vezes em casas humildes, sem condições sanitárias, na periferia da cidade. Era olhando para essa situação que existia o Socorro Vermelho.

Com recursos partidários, campanhas especificas de finança ou contribuição de simpatizantes e militantes, os recursos eram arrecadados e destinados principalmente à assistência à saúde e à ajuda humanitária.      Contribuíam para essa ação muitas pessoas amigas, voluntariamente ou não. Lembro-me de um episódio especial. Uma militante nossa recebeu, como honorários, um generoso depósito em sua conta bancária. Julgado não merecedora desse valor, nossa camarada chegou a devolver a quantia, que era de novo retornada à sua conta. Diante dessa situação resolveu usar o dinheiro para um amplo abastecimento de roupas, remédios, material de alimentação, de cozinha de vários companheiros que recebiam ajuda local. Foram dois carros de compras, fora o material de construção. Uma carta de agradecimento em papel oficial do Partido foi enviada ao doador, uma pessoa conservadora, assinada pelos vários beneficiados, acompanhada pelas respectivas notas fiscais.

Outra ajuda humanitária que muitas vezes ocorria, era a destinação de recursos às despesas funerárias dos velhos camaradas. Chegamos a manter no Cemitério Parque das Primaveras, em Campo Grande, um túmulo para essa finalidade. Lá esses dedicados lutadores eram enterrados ao som da Internacional, educativamente cantada, a pleno fôlego, pelo Dr. Alberto Neder, reforçado pelo coro titubeante dos demais camaradas.

Solidariedade era, também, uma forma de luta política.

Fausto Matto Grosso

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 

GORBACHOPP

(Esta crônica, será publicada no livro Histórias que ninguém vai contar)

    

Após o término da Segunda Guerra Mundial, o mundo restou dividido em dois grandes blocos geopolíticos, o primeiro liderado pelos Estados Unidos e o outro pela União Soviética. A Guerra Fria levou à instalação de dois poderosos arsenais, capazes de destruir, várias vezes, a humanidade e tornou-se imperiosa a luta pelo desarmamento. Buscando desarmar esse duelo mortal, no início dos anos 1980, o líder soviético Mikhail Gorbatchov desencadeou várias iniciativas em favor da paz, algumas delas unilaterais. Esse foi um dos seus maiores feitos, que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1990.

  Nesse período, Gorbatchov viu crescer ainda mais o seu o prestígio mundial quando iniciou um processo de reformas internas do socialismo, com a Perestroika (restruturação econômica), a Glasnost (transparência) e a Uskorenie (aceleração do desenvolvimento tecnológico). Entretanto, seu enorme prestígio no exterior não correspondia ao apoio interno. Após uma tentativa de golpe de estado contra seu governo, Gorbatchov acabou sendo afastado em agosto de 1991. Com 89 anos, o ex-líder soviético, atualmente dirige, desde 1991, a Fundação Gorbatchov, e desde 1993, a Cruz Verde Internacional.

  No início da década de 1990, a juventude secundarista do partidão, homenageou-o, denominando Gorbachopp, a um bar que colocaram para funcionar no fundo da sede partidária em Campo Grande, com objetivo de finanças, mas também político. Surgiu aí um importante ponto de encontro suprapartidário da esquerda, que marcou época. Não só os jovens acorriam ao local, mas também vários intelectuais e dirigentes do partido. Era o espaço de confraternização e de trocas políticas e culturais, mas também ajudavam o crescimento partidário com a atração de novos filiados. 

  O trabalho dos jovens, liderado pelo organizador Orlando Rocha era pesado. Começava nas manhãs das sextas feiras, no Supermercado Soares, onde eram feitas as compras. Como não tinham carro, as coisas eram transportadas com o próprio carrinho do supermercado e subidas por uma escada bem íngreme até ao primeiro andar. Daí, vinham os preparativos das bebidas e dos petiscos, que incluíam pasteis, churrasquinhos e outros petiscos, feitos pelos próprios jovens. Às 18 horas o bar abria rigorosamente e começavam a chegar as pessoas para encontro e confraternização, que se tornaram rotineiras. Era muita conversa descontraída e rica politicamente.

  O bar, montado no sacadão da sede, era tocado pelos jovens, até a madrugada, quando começava o fechamento das contas e a faina da limpeza.

  Esse sacrifício, às vezes, era atenuado quando o camarada Onofre comparecia. Invariavelmente chegava com um bom uísque debaixo do braço, tomava a sua primeira dose e entregava a garrafa para ser vendida em doses pelo bar. Era uma oportunidade de se tomar um bom uísque a preços módicos. Mais, o que sobrasse do uísque, no fim da festa, podia ser tomado de graça pelos jovens. Afinal, o penoso trabalho revolucionário tinha que ter alguma compensação.

FAUSTO MATTO GROSSO



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

 

CERCADOS PELO EXÉRCITO

(Esta crônica será publicado no livro Histórias que ninguém vai contar)


O Centro de Educação Rural de Aquidauana (CERA) surgiu em 1974 por iniciativa de alguns agropecuaristas locais, durante o governo José Fragelli. Com essa denominação, funcionou até 2001, quando foi extinto. Durante os anos de 1994 e 1998, foi administrado pelo SENAR. Os estudantes eram alunos bolsistas em regime de internato para rapazes e semi-internato misto. Após a sua extinção, o patrimônio e o curso foi destinado à Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

  Seus alunos provinham de diversos municípios do estado e mesmo de estados vizinhos. Formavam uma espécie de comunidade à parte na cidade. Eram muitas vezes tratados como estrangeiros, que o digam aqueles mais afoitos que pretenderam arranjar namoradas na cidade. Era procurar encrenca certa. Os jovens do CERA tinham atividades culturais bastante intensa. Durante 10 anos, consecutivos produziram, realizaram e apresentavam peças teatrais orientadas pelo professor Paulo Corrêa de Oliveira, arquiteto, professor e diretor das peças. 

  Dentro da escola funcionava um núcleo partidário da juventude do Partidão, com a tolerância, a simpatia e a cumplicidade de alguns professores e diretores. Para reconhecer os jovens comunistas era fácil – todos usavam óculos, jogavam xadrez e usavam bolsas a tiracolo. A organização desses estudantes chegou a ter entre 15 e 18 membros, segundo relatado por alguns deles.

  A vida de internato era rotineira, focada nos estudos, o que propiciava bons resultados em termos escolares. Os jovens do Partidão tinham também outro interesse paralelo, a formação política, propiciadas por leituras, palestras ou por grupos de estudos. Às segundas feiras à noite tinham as reuniões partidárias realizadas abertamente debaixo de alguma árvore ou nos corredores dos blocos, à vista de todos, como um encontro normal de estudos escolares. Não sei por que, mas tinham a ideia de que realizar essa atividade de maneira clandestina seria mais perigoso. Nos fins de semana ocorriam as reuniões dos grupos de estudo, às vezes na cidade.

  Durante certo tempo fui encarregado de providenciar a remessa de livros para a insaciável sede de leitura daqueles jovens. Enviava os textos, muitas vezes através de Yonne Orro, dirigente do partido em Aquidauana. Era material introdutório ao marxismo, alguns clássicos de Marx, Engels e Lenin, e os manuais de materialismo dialético de Afanasiev, Thalheimer e Politzer e Marta Harnecker. Era o suficiente para incendiar aqueles jovens generosos com todas as certezas do mundo, inclusive a de que, com a completa eletrificação rural na URSS, seria atingido o comunismo. Só nos últimos tempos começaram a receber material de Gramsci.

Interessavam-se também pela questão agrária. Quatro Séculos de Latifúndio de Alberto Passos Guimarães e Os Sertões de Euclides da Cunha eram leituras obrigatórias. Certa vez fomos surpreendidos com a encomenda de A Função do Orgasmo, de Wilhelm Reich. Após certa indecisão nossa, acabaram sendo atendidos.

  Apesar de reclusos em internato, tinham certas regalias, que lhes permitiam participar das reuniões do partido na cidade, bem como viagens pelo movimento estudantil no Estado e eventos nacionais. A convivência no internato, o foco nos estudos e na formação política produziram uma geração de jovens bem formados e maduros politicamente. Após a conclusão dos cursos, muitos desses jovens voltaram para as suas cidades onde prestaram grande ajuda à organização do Partidão no interior do Estado.

  Um único incidente resta registrar. O trabalho político desses jovens nos enchia de orgulho e muitas vezes repercutiam fora dos limites do partido. Certa vez tivemos um problemão com a pixação de uma foice e martelo no paredão de pedra em um dos morros próximos. Seria uma resposta a uma pichação com a insígnia da organização católica conservadora Tradição, Familia e Propriedade (TFP). 

Nossos jovens continuam negando a autoria do ato até hoje. Teria sido um funcionário da escola, simples simpatizante. O glorioso Exército Brasileiro fechou a estrada de acesso á  escola, reteve o ônibus  que transportava funcionários e alunas, mandou descer todo mundo e manteve um funcionário pertencente ao PCdoB à parte durante a averiguação. A direção municipal do Partidão mandou queimar todo o material de agitação e propaganda, os exemplares do jornal A Voz da Unidade, salvo os livros, porque se temia uma batida geral na escola e alojamentos. 

Ao final, tudo restou tudo resolvido, foi apenas um pequeno incidente, nada que não pudesse ser mediado pelo diligente deputado Roberto Orro, grande amigo do partido. Quanto à TFP não se sabe de qualquer providência.

Fausto Matto Grosso

 

(Esta crônica foi escrita com a ajuda memória dos ex-diretor do CERA Paulo Esselin, do professor Carlos Machado e e dos ex-alunos Hélio Sampaio e Norton Hayd Rego).

 Ajustado em 17.02.2021 por sugestão do Professor Tito Carlos Machado e do engenheiro Pedro Celestino, Presidente do Clube de Engenharia do RJ)).
          Ajustado em 02,03.2021 por sugestão do ex-aluno Hélio Sampaio. 



sábado, 13 de fevereiro de 2021

 

LIMITES E FRONTEIRAS



Na antiguidade, na época do Império Romano, não havia a noção de limites, prevalecia a ideia de fronteiras. A fronteira era uma zona de transição onde os povos interagiam com suas trocas culturais e econômicas.

Com o advento dos estados nacionais passou a ter sentido a ideia de limites como término de um território. Nesse conceito prevalece ideia de distância e separação. Já a fronteira movimenta a ideia de contato e integração. Os limites são, portanto, assunto de domínio alta política ou da alta diplomacia, já as fronteiras pertencem ao domínio dos povos, ou seja, são um assunto local.

O Brasil é um país que teve limites antes de ter fronteira, antes mesmo, de ter população. Nossa primeira linha divisória foi estabelecida antes da nossa descoberta. O Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 na vila espanhola de mesmo nome, determinava uma linha imaginária, a partir da qual todos os territórios a leste, “descobertos ou a descobrir” pertenceriam ao Reino de Portugal e aqueles a oeste pertenceriam à Coroa de Castela. Esse limite caiu em desuso quando houve a União Ibérica (1580-1640). Neste momento, tanto Portugal como suas possessões passaram a fazer parte da Coroa Espanhola, o que propiciou que brasileiros avançassem para o oeste, com suas entradas e bandeiras.

Avançando no tempo, nas últimas décadas, da globalização, houve o enfraquecimento do poder dos estados nacionais e começaram a surgir de territórios transnacionais integrados.  A União Europeia é a consagração dessa tendência.

Agora, passados 150 anos do término da Guerra da Tríplice Aliança em 1870, é útil pensarmos nossa região na sua dinâmica passado, presente e futuro bem como explorar novas abordagens territoriais. Atualmente, temos no Brasil a definição de uma faixa de 150 km como faixa de fronteira, temos até um Programa de Integração e Desenvolvimento desse território. Do lado paraguaio também existe uma faixa de 50 km. Ambos os lados executam planos de desenvolvimento, separadamente. Um não olha para o outro. Estão de costas quando deveriam estar abraçados.

No interesse das populações fronteiriças estaríamos muito melhor se unificássemos os dois territórios, em projetos de desenvolvimento locais compartilhados, sob a liderança dos municípios. Isso seria útil na prestação dos serviços de saúde, de educação, segurança, entre outros, que reconhecessem realidades locais.

A realidade atual clama por uma nova abordagem dessa questão fronteiriça. Ainda temos questões não bem resolvidas dos brasiguaios, dos empreendedores brasileiros no Paraguai assim como de trabalhadores tidos como estrangeiros nos locais onde realmente trabalham, nos dois lados da fronteira.

 Para avançarmos no enfrentamento dessas questões, talvez pudéssemos desenvolver a ideia da construção de uma zona transnacional, institucionalmente integrada, onde se poderia implantar um estatuto do cidadão de fronteira, com direitos e deveres sociais, econômicos e políticos transnacionais. É uma ideia para discussão. Esse poderia ser um caminho para facilitar a integração binacional Brasil-Paraguai.

FAUSTO MATTO GROSSO

Engenheiro, Mestre em Desenvolvimento Local e professor aposentado da UFMS.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

 

ELES ERAM MUITO BONS

(Este artigo será publicado no livro Histórias que ninguém vai contar)




Nos anos 1980, a juventude do Partidão era a elite do movimento estudantil em Mato Grosso do Sul. Eram jovens idealistas, sonhadores, corajosos e generosos, que queriam mudar o mundo. Não conseguiram isso, mas fizeram parte da nossa história política. Do território deles fazia parte, o Centro de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais (CEPES), onde se formavam; a Livraria Guató onde proseavam; o Colégio Latino-Americano que abrigava muitas das suas reuniões; o bar Gorbatchopp onde se confraternizavam; e da sede do Partido, onde se organizavam politicamente para as suas missões.

O que atraia a juventude para o Partidão era a oportunidade de formação política e a possibilidade de atuação organizada na luta contra a ditadura. Nossos líderes estudantis eram muito bem formados, tinham capacidade de formular e de conseguir vitórias. Isso os tornava líderes admirados, e respeitados, com grande capacidade de atração de novos militantes para o partido. A forma como atuavam, organizadamente, despertava a curiosidade dos estudantes, sobre o que haveria por trás daquilo tudo. Tínhamos bons agitadores, bons propagandistas, bons organizadores, e eram dedicados ao estudo da política. Nos anos mais duros participavam aguerridamente do Partido, sem ao menos conhecer nossos dirigentes.

Os secundaristas do Partidão chegaram a dirigir, ao mesmo tempo, a União Campo-Grandense de Estudantes (UCE), a União Douradense de estudantes (UDE) e a União Sul-Mato-Grossense de Secundarista (USMES). Foram responsáveis pela organização de muitas entidades municipais secundaristas: em Ponta Porã, Paranaíba, Três Lagoas, Aquidauana, Corumbá, Rio Brilhante entre outras. Em congressos nacionais secundaristas, nossos jovens chegaram a levar 11 ônibus de delegados, o que resultou na participação de companheiros nossos na diretoria da União Nacional (UBES) e também na coordenação nacional partidária do movimento secundarista. 

  Narrou-me um dos nossos antigos secundarista um evento cinematográfico. Beto Cunha foi certo tempo presidente da Usmes e da UCE concomitantemente. Ocupado com trabalho no interior, tinha que chegar a Campo Grande para abrir uma reunião. Chovia muito, era difícil chegar a tempo, os participantes estavam quase desmarcando a reunião quando ele entra todo molhado e sujo de barro na sua moto na quadra da UCE, a la herói da Marvel, dizendo que tinha sido difícil a viagem, mas um comunista nunca deixava de cumprir um compromisso.

  Durante esse período nossos estudantes atuavam sempre sob a bandeira da Unidade, que era o rebatimento da nossa política de frente democrática durante a ditadura. Tinham capacidade de juntar os jovens de maneira pluralista e democrática. Contou-me um jovem dessa época que a primeira diretoria da USMES, tinha a participação de 52 membros, apenas 2 do Partidão. Ao final do mandato, tínhamos 50 deles filiados. Sem aparelhamento, funcionávamos como partido integrado.

  Havia um clima de camaradagem entre os nossos militantes que se manifestava em qualquer luta setorial que era travada. Eleger uma camarada nosso para alguma entidade era uma tarefa coletiva, que mobilizava o conjunto do partido. O movimento secundarista ajudava o movimento universitário e vice-versa. Ambos participavam das nossas outras disputas políticas, o que nos ajudava a construir campanhas vitoriosas. Pichações e colagens eram com eles mesmos.

Não raro, nossos secundaristas viajavam para o interior, ou para eventos nacionais, só com a passagem de ida. Dias depois voltavam sãos e salvos com dinheiro arrecadado no movimento e nas ruas. A venda de broches e cartazes soviéticos era uma fonte de arrecadação. Esse era o “ouro de Moscou” dos secundaristas. Durante um Festival Mundial da Juventude pela Paz, conseguimos enviar dois jovens para Moscou, o Beto Cunha e o Guilherme Leal. Muitas oportunidades foram abertas para nossos jovens participarem de cursos de formação política no Instituto de Ciências Sociais da União Soviética.

O partido funcionava como uma confraria, com laços afetivos de camaradagem. Era como uma família. Não raro eu recebia, durante as madrugadas, telefonema de pais preocupados com o atraso de seus filhos. “Seu doutor, são duas horas da madrugada e minha filha ainda não chegou em casa. Trate de me dar conta dela”, cobrou-me o pai, um velho comunista.

Grandes campanhas foram realizadas com a participação e a liderança dos nossos jovens. Entre elas me lembro da campanha do passe-escolar para os estudantes, o que foi uma grande conquista. Nesse período foi conquistada a participação estudantil no Conselho Estadual de Educação, para o qual indicamos Paulo Ribeiro Júnior, posteriormente o Carlos Roberto de Marhi (Neno),

  Também, tenho na memória a campanha pela meia-entrada nos cinemas, da qual cheguei a participar. Os estudantes montavam filas-bobas nas bilheterias, quando chega a vez deles, saiam da frente e entravam novamente no fim da fila. A Polícia Militar sempre era chamada para assustar os “baderneiros”. Era quando eu entrava, com a “autoridade” de vereador do partido do governador anotando na minha cadernetinha os nomes que os oficiais traziam escritos nos uniformes. Não tinha efetividade nenhuma, mas metia grande medo na tropa. Foram carteiradas do bem.

Fausto Matto Grosso

 (Este material foi escrito com ajuda memória dos seguintes jovens do Partidão: Orlando Rocha, Neno, Paulo Ribeiro Junior, Edilson Magrão, Eliane Sampaio, Hélio Sampaio e Beto Cunha - “In memorian” a Guilherme Leal).

Artigo ajustado em 08.02.2021 por sugestão do amigo Neno

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