quinta-feira, 18 de junho de 2020


ECONOMIA, O PRÓXIMO DESAFIO
  O maior problema que enfrentamos hoje, sem dúvida, é a epidemia do Covid 19. Afinal são milhares de vidas perdidas, de pessoas sequeladas e de famílias em luto. Nesse momento, não cabe uma disputa entre saúde e economia. Não existe economia sem vida.
  Atualmente ainda existem dúvidas quanto às perspectivas da crise sanitária. Serão descobertas vacinas? Em que prazo? Haverá ou não uma segunda onda? Haverá avanços quanto ao isolamento social? Essas indagações ainda não têm respostas conclusivas. 
  Se as ações concretas do governo e da sociedade devem ter o sentido de proteger a vida, também é verdade que não se pode deixar de pensar sobre o que fazer com a economia depois da crise. Governo e Congresso devem avançar logo no debate sobre as novas formas de proteção às pessoas vulneráveis e novos estímulos à economia, para enfrentar 2021.
  Estamos herdando da pandemia uma economia em situação desesperadora, e nem se sabe se já chegamos ao fundo do poço. Alguns dizem que lá embaixo, ainda pode haver um alçapão. Isso poderá ser confirmado, por exemplo, se houver uma segunda onda da pandemia. O FMI já usou a expressão "o Grande Confinamento” para caracterizar a recessão causada pelo Covid 19.
  Nossa taxa de crescimento do PIB, que vinha negativa desde os dois últimos anos do governo Dilma (-3,5% e -3,3%), ganhou um pequeno alento com as reformas ensaiadas pelo governo Temer (dois anos de 1,1%). O primeiro ano de Bolsonaro manteve esse crescimento pífio de 1,1%, sinalizando uma anemia crônica da nossa economia. A situação se agravou ainda mais com a chegada da pandemia.
  Relatório recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê para o Brasil uma grande recessão, com um crescimento negativo em 2020 de -7,4%, seguida de um avanço parcial de 4,2% em 2021, insuficiente para recuperar as perdas anteriores. A recuperação será lenta, e a crise terá efeitos de longa duração que afetarão de maneira desproporcional as pessoas mais vulneráveis, salienta o relatório.  Somente em 2022 teremos de volta o crescimento.
  Para consolo dos brasileiros, nesse mesmo relatório é apontado que a crise do Covid atingirá todos os países do mundo, com a economia global sofrendo a maior contração em tempos de paz em um século, tendo uma dimensão maior do que a grande depressão dos anos 30 do século passado. A única exceção, entre todos os países, prevê-se para a China que deverá ter uma contração de 2,6% este ano, seguida de uma expansão de 6,8% em 2021.
  Economistas e analistas de mercado costumam recorrer ao alfabeto para explicar visualmente como preveem a recuperação de uma economia. Algumas das letras comumente usadas são V, W e U. Elas ajudam o público a visualizar o gráfico da taxa de crescimento do PIB ao longo do tempo. Vários cenários para a recuperação têm sido desenhados ultimamente.
  O mais otimista deles é o representado pela letra V. Expressa a idéia de que após a queda, retornar-se-á rapidamente ao nível inicial. Entretanto, o cenário considerado mais provável é o U. Nesse, há uma entrada e uma saída da crise, mas a recuperação é difícil, mantendo-se, por um período mais longo, o baixo crescimento. Alguns consideram que a segunda perna do U poderá ser menor que a primeira, representando a retomada em um nível mais baixo de crescimento.
  Há os que consideram também a possibilidade de um cenário de longa turbulência, com características de recessão, representado pela letra W. Esse seria consequência de sucessivas ondas do Covid ou de descontrole da condução das medidas sanitárias, como o isolamento social. Coloca-se ainda a possibilidade da letra L. Nesse cenário, depois de uma queda, a economia se manteria estável, mas em um ritmo muito menor, sem se recuperar.
  Em um momento como esse, de alta indagação sobre o futuro, de mudanças de paradigmas, também de discussão sobre os limites do desenvolvimento, não seria oportuno discutir se é possível melhorar o Brasil sem apostar tudo só no crescimento?
Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS

quinta-feira, 4 de junho de 2020


OS MANIFESTOS


Já se disse que manifesto é a arte do barulho. Estes podem ser muito úteis, principalmente quando o som é do toque de reunir. Muitos deles mudaram a história dos povos.
  Aqui, de repente, tudo o que era sólido parece estar começando a se desmanchar no ar. A grande onda bolsonarista, que parecia imbatível, logo poderá virar marolinha, porque construída de ilusão e de medo. Afinal, tudo que era sagrado para o brasileiro, está sendo profanado – a vida, o respeito às leis, a tolerância ao diferente, a convivência fraterna e solidária, principalmente diante da doença e da morte. As pessoas estão começando a encarar com responsabilidade uma crise que ameaça nos colocar na barbárie, fora da democracia e da civilização.
  Até agora, as ruas pareciam dominadas pelo bolsonarismo. Hostis ao isolamento social, os bárbaros desfilavam em hordas, desafiando as autoridades sanitárias, atentando contra a saúde pública e promovendo aglomerações potencialmente disseminadoras do COVID-19. Aos mais antigos, lembram as manifestações dos caricatos camisas pardas do fascismo tupiniquim. Mas poucos dias atrás, novas cores entraram unidas na disputa, o alvinegro do Corinthians e o alviverde do Palmeiras. É muito pouco ainda. As manifestações não tiveram densidade de massa, porque o isolamento social tem dificultado, mas simbolicamente, nossa cultura popular trouxe a senha da necessidade e da possibilidade da unidade dos contrários, diante das ameaças à liberdade e à democracia.
  É nesse contexto que surgem três manifestos importantes para a resistência democrática. O primeiro, de profissionais do Direito, se intitula “Basta”, afirma que Bolsonaro “exerce o nobre mandato que lhe foi conferido para arruinar os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito e contra a saúde dos brasileiros”. O segundo assinado pelas principais associações de juízes e procuradores do País, que pede que haja “cautela e ponderação” de todos os que “exercem parte do poder estatal”, para que “a democracia, construída a partir de esforços de gerações, possa ser resguardada e aprimorada”.
  Finalmente, surge o manifesto “Estamos Juntos”, já assinado por milhares de cidadãs, cidadãos, empresas, organizações e instituições brasileiras, convocando-nos a sonhar e fazer um Brasil que nos traga de volta a alegria e o orgulho de ser brasileiro.
  Nele se afirma que “como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum. Esquerda, centro e direita unidos para defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia”.
  O movimento Diretas Já, evocado pelo manifesto, foi a maior mobilização política e social já ocorrida no País. Ele nos trouxe o ensinamento da necessidade de mobilizar as forças políticas de maneira ampla e suprapartidária quando existe uma causa comum. O movimento agregou diversos setores da sociedade brasileira. Participaram inúmeros partidos políticos de oposição ao regime ditatorial, além de lideranças sindicais, civis, artísticas, estudantis e jornalísticas. Embora derrotada a Emenda Dante de Oliveira, o movimento preparou as condições para a derrota da ditadura no Colégio Eleitoral, com a eleição de Tancredo Neves e José Sarney.
  O movimento Estamos Juntos, articulado pelo recente manifesto, está no rumo e vem na hora certa. O apelo pela unidade das oposições começou a fazer efeito, embora em momentos tensos sempre haja o risco de dissenções. Foi assim na Constituinte, na Anistia, no Colégio Eleitoral. Há que se ter, portando, todo o cuidado de manter sempre a porta aberta, afinal política é sempre movimento.
  Não é fácil cumprir esse desafio, principalmente cercados pela pandemia, mas tal é imperioso nesse momento em que a sociedade civil começa a romper o pessimismo imobilizante em que se encontrava. O cerco ao autoritarismo avança.
FAUSTO MATTO GROSSO
Engenheiro Civil e professor aposentado da UFMS

sexta-feira, 22 de maio de 2020


A FALTA DE CONFIANÇA NO PRESIDENTE


  O brasileiro não gosta de política e não confia em suas instituições. Isso é muito ruim para a democracia.
  Existe hoje um mal-estar institucional. A elite política não goza da confiança dos cidadãos o que incentiva os cidadãos a buscarem lideranças messiânicas como uma válvula de escape. Nosso sistema não tem sido capaz de gerar uma adesão cívica, como chama a atenção o Professor Marco Aurélio Nogueira. Assim nasceu o mandato de Bolsonaro.
  Confiança é uma palavra chave. É o sentimento de segurança, convicção ou expectativa que se tem de que um indivíduo, grupo ou instituição atue da maneira esperada, em uma dada situação. A confiança é uma espera baseada em probabilidade positiva de que a outra parte cumpra o que prometeu, ou o que é a sua finalidade.
  Na vida econômica a existência de confiança é decisiva. Não houvesse confiança não haveria moeda, cujo valor depende somente da confiança nela depositada. A decisão entre reinvestir ou distribuir lucros depende também da confiança que se tenha no retorno ampliado dos investimentos. No caso de investimentos estrangeiros diretos (IDE), estes dependem da confiança que se tenha nos fatores políticos econômicos, geográficos e culturais de um país, especialmente na estabilidade das regras do jogo.
  Mas é no campo da política onde é mais crítica a questão da confiança, já que é ela que cria e destroem os líderes. Nesse âmbito a situação do Brasil é crítica.
  Recente pesquisa (XP investimentos, jan.2020), no início deste ano, apontou os níveis de confiança nas instituições. Entre as melhores classificadas ficaram Forças Armadas 63%; Igreja Católica 55%; Igrejas Evangélicas 40%. A confiança na Presidência da República foi de 37%, mas está caindo aceleradamente; Senado 15%; Câmara dos Deputados 11% e Partidos Políticos 6%. Percebe-se o desprestígio indiscutível das instituições políticas.
  Nosso presidente não tem gozado da confiança necessária para governar. Pesquisa recente do mesma fonte, mostrou a queda na avaliação do Governo. São apenas 28% os que o consideram bom e ótimo, contra 42% que o consideram ruim ou péssimo – os piores números da série história. Ao mesmo tempo tem melhorado a imagem do Congresso e dos governadores. Estivéssemos em regime parlamentarista, um voto de desconfiança já teria derrubado o gabinete, sem crise, na maior normalidade.
  Falta ao Governo, base congressual, resultado da sua desastrada tentativa de montar sustentação com as bancadas temáticas e não com os partidos políticos. Hoje, diante da possibilidade de impeachement, o Presidente tenta reverter a situação com a fidelização do Centrão, em troca de cargos, prática que esconjurava durante as eleições. Isso tem diminuído ainda mais a confiança da opinião pública.
  Outro segmento com o qual esperava governar era o militar. Embora haja uma militarização do governo, existem indícios de que, institucionalmente, as Forças Armadas começam a temer que o desgaste do governo possa contaminar a sua liderança moral e o seu prestígio. Bolsonaro parece tê-las no varejo, mas não no atacado. 
  Sem confiança e sem adesão cívica não se consegue governar. Bolsonaro já se encontra em modo de impeachement. A espera de Color foi a chegada a 7% de popularidade; Dilma 8%. Com relação ao nosso atual presidente, deixado à sua própria sorte, com o roteiro diário de malfeitos, insensibilidades e imprudências, seu tempo logo se esgotará.
  Como Yuval Harari explicitou em recente artigo na revista Times, hoje a humanidade enfrenta uma crise aguda, não apenas devido ao coronavírus, mas também devido à falta de confiança entre os seres humanos. Para derrotar uma epidemia, as pessoas precisam confiar em especialistas científicos, os cidadãos precisam confiar nas autoridades públicas e os países precisam confiar uns nos outros. No caso brasileiro, essa realidade global combinada com o estilo Bolsonaro de governar, cria uma situação insustentável.
  Nessa situação, sem dúvida alguma, o Brasil não conseguirá sair de suas crises com a baixa confiança na liderança do atual presidente.
FAUSTO MATTO GROSSO
Engenheiro civil, professor aposentado da


sexta-feira, 8 de maio de 2020


INCÊNDIOS FLORESTAIS, PANDEMIA E CRISE POLÍTICA


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  A Amazônia, o Cerrado e o Pantanal já começam novamente a arder em chamas. Os incêndios de 2019, além das perdas econômicas e ambientais, queimaram irremediavelmente a imagem internacional do País.   O que foi feito de lá para cá para diminuir nossa vulnerabilidade? Uma das últimas notícias a respeito foi a intervenção do Presidente querendo punir os servidores que queimaram as máquinas e equipamento dos garimpeiros e desmatadores ilegais.
  Corremos o sério risco de assistirmos, daqui para frente, a superposição da crise política com o coronavirus e os incêndios florestais.
  Os temas sociais, ambientais e sanitários parecem mesmo estar ligados. A pandemia do coronavirus, pela diminuição da atividade humana, gerou uma série de efeitos colaterais positivos no meio ambiente. Ao diminuir o tráfego de automóveis e as atividades industriais, diminuiu a poluição ao redor do mundo, como mostram imagens de satélites.
  Em Veneza, os canais voltaram a ter águas cristalinas e peixes. Na Índia, um dos países mais poluídos do mundo, o Himalaia passou a ser visto de cidades a mais de 200 km de distância, recuperando situação de três décadas atrás. Na China, segundo a NASA, imagens de satélites, mostraram um declínio expressivo nos níveis de poluição, principalmente na região de Wuhan, onde se impôs o mais drástico isolamento social.
  Essas realidades, em pequena escala, mostram cabalmente que, controlando a ação do homem, pode-se conseguir fazer uma gestão de risco mais adequada das emissões de gases das mudanças climáticas.  O futuro do planeta, em grande medida, depende das opções que fizermos em termos de combate a desigualdades, de concepção de desenvolvimento e de estilo de vida. Não se trata de voltarmos às cavernas, mas de aproveitar a crise para preparar um “novo normal” mais virtuoso em termos civilizatórios.
  Há muito que se sabe que os momentos de crise são oportunidades de mudanças.          Discute-se agora se a profundidade das nossas crises atuais será capaz de gerar grandes mudanças de paradigmas. Há os que crêem que após a atual pandemia passar, e tudo voltar ao “normal”, o normal já será outro. Outros acreditam que as mudanças serão apenas temporárias e cosméticas, insuficientes para romper esse paradigma baseado em desigualdades sociais, consumo desenfreado e individualismo exacerbado, que são as causas principais de degradação da sociedade e da natureza. Tudo depende do que fizermos ou deixarmos de fazer.
  Em um mundo globalizado tais questões já se tornaram universais. A pandemia do coronavirus veio na direção do aprofundamento da compreensão de que o enfrentamento de problemas sanitários também exige articulação mundial, inclusive com o fortalecimento de instituições multilaterais como a OMS.
  Os diversos países do mundo, em diferentes graus de desenvolvimento, deverão sair da atual crise com mudanças sociais, ambientais e econômicas.  O direito a uma Renda Mínima Universal, para o cidadão, saiu reforçado.  A experiência da quarentena ajudou a recolocar na ordem do dia a questão da redução da jornada e a incorporação de novas modalidades de trabalho como o home office. A segurança alimentar e de insumos para a saúde foram reforçados com questões estratégicas.
  O mundo está intimado a se repensar. Mas em tudo, se impõe uma visão global. Não existe salvação fora do mundo, seja na questão ambiental, social ou sanitária.
  O Brasil está em um mau momento. Nossa crise política nos desmoraliza mundialmente. Na pandemia temos sido expostos a vexames internacionais, da mesma forma como sucedeu no ano passado com a questão das queimadas.  O país não suporta três crises ao mesmo tempo.

Fausto Matto Grosso

Engenheiro e professor aposentado da UFMS

sexta-feira, 24 de abril de 2020


O COTIDIANO DEPOIS DO CORONAVIRUS
 Série “Depois do Coronavírus” propõe reflexões para o período pós ...
  Normalmente contamos os tempos, através do calendário. Os historiadores costuma usar outras escalas. Consideram a ocorrência de fatos significativos de inflexão na trajetória da vida da sociedade.
  O historiador inglês Eric Hobsbawm, por exemplo, considerava que “o curto” século XX, só começou em 1914 com a Primeira Guerra Mundial e o seu término ocorreu em 1991, como a desintegração da União Soviética. Para a historiadora Lilia Schwarcz (USP/Princenton) e outros especialistas faltava um símbolo mais forte para o fim do século 20. E esse marco seria a pandemia do coronavírus.
  Não que a ruptura provenha diretamente da doença, mas trata-se do coroamento de um processo que já vinha amadurecendo e que explodiu com a crise. É provável que quando tudo voltar ao normal, o normal seja outro.
  Uma nova cultura se imporá, com revisão de crenças e valores. Consumir por consumir deverá sair de moda; morar perto do trabalho ou trabalhar em casa deverá ser valorizado; a cooperação em redes, em comunidades e entre vizinhos sairá fortalecida.  Empresas serão mais cobradas quanto ao cumprimento das suas responsabilidades sociais e a ciência será mais valorizada em detrimento de crendices obscurantistas.
  Profundas serão as mudanças nas relações de trabalho. O desemprego em massa levará ainda à maior precarização das relações entre patrões e empregados, com mais insegurança aos que vivem do trabalho. A sociedade terá que bancar os custos sociais dessas mudanças. Por isso, aumentou muito no mundo, a consciência sobre a necessidade de programas de Renda Mínima Universal. A isso se agregará a necessidade de fortes investimentos em educação, uma das principais formas de diminuição das desigualdades sociais.
  Viveremos uma reconfiguração dos espaços de trabalho. O trabalho remoto ou em casa - home office - que já é praticado por  muitos, inclusive em alguns casos, com desumana superexploração, se imporá avassaladoramente para os profissionais liberais e empregados de empresas que buscarão o aumento da produtividade desse o modelo. Novas regulamentações serão necessárias para essas novas formas de contratação do trabalho.
  Haverá também impactos na estruturação das residências, onde se valorizará a existência de espaço para o trabalho. Nos condomínios e edifícios, espaços compartilhados (coworking) serão considerados imprescindíveis. Tudo valerá a pena, para as pessoas fugirem do transporte caro e de longa distância, desconfortável e cansativo, poluidor do ambiente.
  Novos modelos de negócios se imporão. Conviveremos com a ampliação das compras virtuais e com a tele-entrega. Os ambientes presenciais de bares, restaurantes, cafeterias e academias também deverão ser redesenhados para garantir maior afastamento entre as pessoas.
  O fim da epidemia reforçará a discussão sobre as novas formas de aprendizagem, presencial e à distância, e que demandará novas formulações pedagógicas, que tirem essas decisões do âmbito dos interesses do ensino comercial. Ainda no plano da educação, novas formas de socialização, deverão ser incrementadas, compatíveis com a realidade da sociedade em rede.
  A atividade cultural, durante a pandemia, experimentou várias formas imersivas e deverá continuar agora a fazer uso de novas plataformas e mídias para shows e espetáculos online.
  Muitas outras mudanças deverão ocorrer nas diversas áreas da atividade humana. Muitas opiniões serão quebradas e substituídas por novas concepções. Uma delas é que o Estado não serve para nada. O SUS desmente isso e a construção da segurança estratégica de insumos para a saúde será um novo desafio.
  Após décadas de supremacia do discurso liberal, está ocorrendo uma volta à razão. O mercado serve para muita coisa, mas não consegue resolver desigualdade e insegurança social. O fato é que até críticos do Estado, hoje não podem deixar de a ele recorrer, para sobreviver. Hoje nenhum governo pode se dar ao luxo de ser ultraliberal, principalmente em época de crise.
Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS

quinta-feira, 9 de abril de 2020


CORONAVIRUS E O NEGACIONISMO
  Por que negamos fatos que contrariam as nossas crenças | Nexo Jornal
A crise do coronavirus, em alguns aspectos, nos remete a Idade Média, à “idade das trevas”, com a disputa entre a luz e a escuridão. Naquele período, a dominação religiosa impedia o desenvolvimento da razão, das artes e das ciências, criando uma era de atraso e primitivismo. É desse período de terror da Inquisição, a condenação à fogueira de Giordano Bruno, frade dominicano, filósofo e teólogo italiano, por prática de heresia, por defender teorias científicas, principalmente astronômicas, contrárias às da Igreja Católica. 
  Quando pensávamos que tudo isso tinha ficado para trás, em plena sociedade do conhecimento, ressurge a epidemia da negação da ciência.
  Negacionismo é o nome que se dá à rejeição de conceitos básicos, incontestáveis e apoiados por consenso científico, em favor de ideias obscurantistas, radicais e controversas. É um tipo de narrativa que não tem base no conhecimento e nos fatos e trabalha apenas com o objetivo de negar incômodos da realidade.
  Temos negacionismo para todos os gostos. Há os que duvidam do papel do homem no aquecimento global, apontando para um complô dos países desenvolvidos para frear aqueles que estão em desenvolvimento. Há os criacionistas, que travam uma disputa cultural, política e teológica sobre as origens da Terra, da humanidade, da vida e do universo.
  Duvidar que o homem foi à Lua, como acontece com 25% dos brasileiros, ou ter a convicção de que a Terra é plana, pode soar como motivo de piada, algo apenas cômico e inofensivo. Mas as desenfreadas crenças nessas narrativas esdrúxulas têm sido apontadas como um risco à democracia moderna. Afinal, o estrago provocado pelo negacionismo não se reduz ao que se nega, representando também uma quebra de confiança em relação às instituições e um dissenso acerca de temas que já são consensuais. A democracia não funciona, sem confiança nas instituições, inclusive nas científicas.  A ciência é principal forma de compreender o mundo e atuar sobre ele, sob pena de vermos consensos universais serem trocados por crendices.
  Esse processo de regressão histórica e cultural que temos presenciado, raramente é espontâneo. É na maior parte fomentado por grupos financiados e promovidos por fabricas de idéias (think tanks) conservadoras, grandes indústrias e poderosos políticos e formadores de opinião.
  No caso brasileiro, grande importância tem sido exercida pelo influenciador digital, ex-astrólogo, ideólogo da nova direita brasileira, autoproclamado filósofo, Olavo de Carvalho, que inspira o Presidente e seus filhos. Adepto da teoria da conspiração, entre as suas proezas intelectuais afirma, com todas as letras, que o nazismo é de esquerda. Olavo é um santo guerreiro, montado no cavalo da ignorância, na sua luta mortal contra o dragão do “marxismo cultural” que ele enxerga onde houver claridade.
   Amparado por essa retaguarda ideológica é que o governo Bolsonaro, com o seu “negacionismo histórico” da ditadura e apologia de torturadores, já produziu diversos vexames nacionais e internacionais nas áreas de meio ambiente, educação, cultura e relações internacionais e vem tentando descredenciar a história, a ciência em geral e a inteligência.
  Na atual crise do coronavirus, o negacionismo tem obrigado o ministro da Saúde a dispensar tempo e energia, que seriam mais úteis no combate à doença, à luta em defesa da ciência.
  Desde o seu autodesterro em Richmond, nos Estados Unidos, Olavo de Carvalho, que nomeou ministros e controla a área ideológica do governo, tenta agora destituir ministros. No dia em que escrevo (8), o autoproclamado filósofo, do alto da sua teoria da conspiração, critica a “passividade dos generais” e declara que o ministro da Saúde deveria ser preso porque, junto com os governadores querem manter as pessoas em quarentena, para destruir a economia brasileira.
  Haja escuridão. Será que precisaremos ter um novo Giordano Bruno, nesta idade média que escureceu o Brasil em pleno século 21?

Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS