sexta-feira, 20 de janeiro de 2017


OBAMA E TRUMP

Oito anos atrás, em artigo neste jornal, saudei a posse de Barak Obama. Dizia na ocasião que: " pela primeira vez, está posta a possibilidade de um líder global, que baseia sua força, não no arsenal bélico que comanda, mas na sintonia com o tempo em que vive e na liderança moral que foi construindo na sua campanha, lavando a alma de jovens, de excluídos, de celebridades do mundo das artes, de cientistas, de ambientalistas, de libertários e humanistas de todos os matizes, do mundo inteiro. [...] Todas as mudanças anunciadas são possíveis e o mundo inteiro torce por elas. Estará o líder americano à altura dessas expectativas e desafios? "
Em seu discurso de despedida, Obama apontou que a economia voltou a crescer, superando a crise de 2008, que os salários e as aposentadorias voltaram a subir e a pobreza voltou a diminuir. Que o desemprego é o mais baixo em dez anos e que os ricos estão pagando uma parcela mais justa de impostos inclusive financiando a expansão do sistema de seguros de saúde, o ObamaCare que incorporou cerca da 18 milhões de pessoas, antes sem nenhuma cobertura assistencial.
Na frente internacional acabou com a tortura em Guantánamo, mas, por oposição do Congresso republicano, não conseguiu fechar a prisão, colocou os EUA no Acordo do Clima, fez a reaproximação com Cuba, retirou tropas do Iraque e, parcialmente, do Afeganistão e distensionou a relação com o Irã na questão nuclear.
O primeiro presidente negro dos EUA assumiu o mandato com 84% de aprovação e terminou-o festejado por uma aprovação de 60% da população, uma das mais alta entre todos os presidentes americanos. Alguns críticos, entretanto, apontam que o seu maior legado, negativo, foi a eleição do multimilionário extravagante, racista e xenófobo Donald Trump, hoje, com aprovação de apenas 40% dos americanos. Tendo perdido a eleição no voto universal foi eleito presidente em decorrência do esdrúxulo sistema eleitoral do país.
Sua posse em vez de festa, tornou-se um momento de protesto de intelectuais, artistas, lideranças políticas e de grande número de cidadãos nas grandes cidades americanas.
Eleito com os votos dos deserdados da globalização, principalmente trabalhadores brancos que perderam seus empregos no médio oeste americano, onde a industria automobilística se transformou no "cinturão de ferrugem", uma região estagnada, onde o populismo xenófobo fez enorme sucesso, principalmente por conta do desemprego, pelo qual culpa os imigrantes e a China.
Mais, não são os chineses que estão roubando postos de trabalho em todo o mundo, é a indústria que está se robotizando em decorrência da incorporação da tecnologia de quarta geração, altamente poupadora de mão de obra. As plantas antigas das indústrias automobilísticas jamais serão recuperadas, pois a reconversão produtiva, destas, é antieconômica. A economia nova sempre surgirá do zero em novas regiões. Isso nós já assistimos também no Brasil.
Acabou também o espaço para economia autóctones reguladas a partir de ditames dos governos nacionais e dos seus bancos centrais, não há mais como distinguir a nacionalidade do capital. O capital financeiro está no controle de tudo e flui pelo globo na busca da otimização de seus ganhos, inclusive na China. Os chineses, hoje, são donos de parcelas expressivas dos títulos da divida pública e de empresas americanas. Já chegou até a Hollywood. Parece estar chegando ao fim o império americano.

Quem mandou Trump não ler o Manifesto Comunista de 1848, onde Marx profetizava "em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolvem-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual". É o capitalismo, simples assim.


FAUSTO MATTO GROSSO
Engenheiro e Professor da UFMS

20.01.2017

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016


O QUE ESPERAR DO FUTURO PREFEITO


Os campo-grandenses terminam o ano com certa sensação de alívio. A crise política e de gestão vivida nos últimos anos não vai deixar saudades, mas seus efeitos deverão se projetar para os próximos anos. Não há como fugir dessa herança e, pior, em um contexto de grave crise econômica, social, política e ética em toda a nação brasileira.
O prefeito eleito, no seu ato de diplomação,apontou para revisão de conceitos e atitudes, e para parceria, união, diálogo e construção paciente de consensos com a sociedade civil. Apontou o desafio de criar marcos estruturantes para a gestão e pediu tempo e paciência. Afirmou querer ser o "melhor prefeito que essa cidade já teve".
Supondo coerência entre palavras e atos, foi um boa mensagem de fim de ano.
Anunciou também uma equipe de governo que, pelos currículos divulgados, apresenta bom nível de formação técnica, alguns com experiência nas áreas nas quais atuarão.
Tomando posse em janeiro encontrará imensos problemas para enfrentar, herdará uma máquina administrativa deteriorada e um orçamento já pronto, eivado de ficções. A nova administração terá pela frente, também, uma cidadania e uma sociedade civil mais exigentes.
Todo governo, para ter sucesso, precisa articular bem três elementos fundamentais: plano, capacidade de governo e governabilidade.
Naturalmente o plano de governo não poderá ser aquele que usou para ser eleito, orientado pelo marketing político, haverá de ser cotejado com a realidade. Se tanto, valerá a boa intenção. Chegou a hora dura da realidade.
Governar é eleger prioridades. Que essa escolha não seja feita com vista à reeleição, como costuma acontecer, mas sim com o olhar de águia sobre o futuro da cidade, para definir aquilo que chamou, em seu discurso, de marcos estruturantes.
O tempo que pediu à população será marcado por uma ampulheta implacável que funcionará a partir de primeiro de janeiro. Entretanto o seu governo não começará no primeiro dia. O normal é que ele decida, aperte o botão e a máquina não funcione ao seu simples comando. Acontece isso com todo governo. É preciso o tempo de construção da capacidade da nova equipe. Será preciso, também, aproveitar-se, sem preconceitos, da experiência acumulada nos nichos sadios da administração herdada, que precisarão ser identificados e mobilizados. Assim o governo poderá antecipar resultados e ganhar mais "tempo útil" de gestão.
O terceiro desafio responde pelo complexo nome de governabilidade, ou seja a capacidade política de tornar possível aquilo que precisa ser feito. Terá que conquistá-la em um ambiente marcado pela crise de desconfiança. De certa forma, o futuro prefeito tem feito, até o momento, uma carreira solo. Conseguiu eleger-se em um momento em que os principais partidos políticos, enfrentavam uma crise de hegemonia, o que permitiu a sua eleição, concorrendo, no segundo turno, com 30,85% de abstenção, nulos e brancos.
Mesmo sendo minoritário na Câmara, pela tradição da política, não será difícil começar o governo com uma base parlamentar de apoio. Normalmente funciona assim para quem tem um mínimo de habilidade política, o que parece ser o caso.
O futuro prefeito pediu crédito de confiança e de credibilidade para ser gasto ao longo do mandato. Precisará disso, mas 2017 já começará sob o clima das próximas eleições estaduais, onde a Prefeitura de Campo Grande é uma posição estratégica. Em algum momento essa governabilidade poderá se estiolar. Se chegar ao colapso, acabará o governo, antes de terminar o mandato.
O final da história não precisará, necessariamente, ser esse, desde que ele revise os conceitos de governabilidade e pratique a anunciada "parceria, união, diálogo e a construção paciente de consensos com a sociedade civil".
Torço por Campo Grande, espero o prefeito tenha sucesso para, pelo menos, poder desejar, a todos, um Feliz 2018.

Fausto Matto Grosso,
Membro do Movimento por uma Cidade Democrática.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

NOVOS VEREADORES

 
Há um sentimento generalizado de decepção em relação aos detentores de mandatos eletivos. Em muitas cidades, plenários de Câmaras Municipais chegaram a ser invadidos pela população que clamava pela diminuição do número de vereadores, de suas remunerações ou dos percentuais de repasses financeiros para os legislativos.
Entretanto, em uma democracia desenvolvida, os legislativos são mais importantes do que os executivos, especialmente nos municípios. Naturalmente não estou falado desse parlamento em crise, mas sim de sua reinvenção. Neste ano serão realizadas eleições municipais, o que esperar da nova safra de vereadores, o que cobrar deles?
Muitas são as questões a serem enfrentadas. A crise clama por uma radical inovação nos legislativos municipais. Há um déficit de representatividade, um déficit de afirmação da autonomia e prerrogativas, e um déficit de qualidade do processo legislativo.
A distância entre a sociedade política e a sociedade civil é imensa. Na exacerbação do individualismo, que marca os tempos atuais, os parlamentares, no geral, representam as suas próprias vaidades ou projetos pessoais e não as opiniões existentes na sociedade. De um lado a política virou profissão, do outro a sociedade não se organiza para qualificar a representação.
A palavra vereador é afim de dois termos do latim: verear e vereda. Verear é andar pela cidade, e vereda significa caminho. O papel do vereador é conhecer a cidade e traçar o seu rumo. Não existe função mais importante do que essa. Entretanto, vereador, normalmente faz campanha como se fosse prefeito e depois não cuida da essência da função de verear, fazer e aprovar leis e fiscalizar a administração municipal. Promete o que não pode entregar ou acaba entregando sua autonomia ao executivo, muitas vezes em troca de favores ou nomeações para atender a sua “clientela”.
É necessária a transformação das câmaras municipais em caixa de ressonância da sociedade, em lugar de encontro da democracia participativa com a representação. Sim, porque, ao contrário do senso comum, em sociedades complexas, onde as questões não podem ser resolvidas apenas em decisões simplórias do tipo “sim ou não”, o parlamento deve ser o local - e a política a arte necessária - para a construção democrática de consensos ampliados, em torno de interesses legítimos da sociedade. As câmaras municipais devem ser os locais de construção de projetos de futuro das cidades, compartilhados com a cidadania, para se obter um mínimo de coesão social e uma governabilidade baseada em valores éticos, cívicos e republicanos.
Fortalecida pela representatividade, a Câmara pode afirmar a sua independência em relação ao Executivo, rompendo com a tradição de executivos que fazem leis, subvertendo a lógica natural, e de vereadores alinhados segundo os pobres critérios de serem “bases” ou serem oposição, que aviltam o papel dos vereadores.
Há ainda o déficit de qualificação da ação legislativa. Há que se ter também um mínimo de profissionalização nas assessorias nas câmaras municipais, um bom exemplo disso é a assessoria do Senado. As assessorias parlamentares não podem ser apenas o exército de reserva de cabos eleitorais para as próximas eleições. Fiscalizar o Executivo não é tarefa trivial, não é apenas fiscalizar a legalidade dos atos, exige informação precisa sobre o andamento e resultados dos programas e projetos executados pela administração, com base em indicadores, estudos e pesquisas. Para isso, mediante concurso público, a Câmara deve montar assessorias técnicas competentes, talvez, até remanejando cargos de assessorias individuais dos vereadores para viabiliza-las.

Fausto Matto Grosso
Professor da UFMS.

Diretor da Fundação Astrojildo Pereira

domingo, 5 de junho de 2016

ENTREVISTA

‘É necessário construir novas regras, nova ética, novas relações, nova governança’

Para Fausto Matto Grosso, a sociedade política se afastou enormemente da sociedade civil, que deveria ser a fonte da sua representatividade
5 JUN 2016
Por CRISTINA MEDEIROS
Diante da indiscutível crise que o mundo ocidental vivencia na efetivação de uma (real) democracia representativa, quais medidas sociais, políticas e jurídicas podem ser implementadas com o objetivo de que a desejada confiança do povo seja alcançada, uma nova governança seja criada e a parceria entre governo e sociedade se estabeleça? Estas e outras questões fazem parte das reflexões de um grupo de pessoas em Campo Grande, que formou o Movimento por uma Cidade Democrática. Dele faz parte o professor aposentado e engenheiro civil Fausto Matto Grosso, que nesta entrevista ao Correio do Estado fala, entre outras coisas, da necessidade de refundação da política em novas bases, de maneira a que se recupere a confiança social.
CORREIO PERGUNTA
O senhor faz parte de uma plataforma nacional intitulada Cidade Governança Democrática. Poderia explicar de que se trata e por que sua adesão?
Francisco Fausto Matto Grosso Pereira - Na atualidade, há uma grave crise na maneira de fazer política e de fazer governo. Os políticos, os partidos e os governantes estão profundamente desacreditados. Há uma profunda crise de representação. A sociedade política se afastou enormemente da sociedade civil, que deveria ser a fonte da sua representatividade. Há que se reconstruir essa relação da política com a sociedade, fazer a política e os governos cumprirem suas finalidades públicas, pautarem-se por princípios cívicos e republicanos, comporem-se de quadros representativos e capazes, serem transparentes e confiáveis, para que se recupere a confiança social, base para a necessária parceria entre governo e sociedade. Essa é a ideia central, é necessário construir novas regras, nova ética, novas relações, em outras palavras, nova governança.
Essa nova governança, democrática por sua natureza, representaria a refundação da política em novas bases, de maneira a que se recupere a confiança social. Esta é a resposta para a crise que vivemos, é a única possibilidade de se criar a sinergia necessária, entre todas as forças vivas da sociedade, para enfrentar os enormes desafios existentes nas cidades. É nisso que acredito, por isso estou empenhado na construção coletiva dessa nova política.
O senhor e um grupo de pessoas criaram o “Movimento por uma cidade democrática”, que se propõe desenvolver ações contra a degradação política em Campo Grande. Quem são estas pessoas e quais as principais propostas de vocês para que Campo Grande se torne uma cidade melhor?
Somos um grupo de pessoas, formadoras de opinião, com certa experiência de militância política, na boa política, que já exerceram mandatos ou funções públicas, das mais diversas filiações partidárias, ou mesmo sem nenhuma vinculação a partidos, que se reúne para entender as razões mais profundas da crise ética que tem marcado a nossa política e articular ações concretas de denúncia e, ao mesmo tempo, apontar saídas para a superação da velha política. São pessoas das mais variadas formações profissionais, que produzem artigos de opinião publicados em vários jornais, que se pronunciam em entrevistas de rádio e nas mídias sociais, que proferem palestras, sempre defendendo a política como atividade imprescindível na democracia, mas que se encontra profundamente degradada. Nossa proposta é de provocar a sociedade para o desafio de mudar a política a partir de uma visão sócio-centrada e não estado-centrada, ou seja, de subordinar a política e os governos à sociedade e não ter a sociedade tutelada pelos governos e pela política.
Esta degradação política a que o senhor se refere é algo detectado a partir de que?
É só abrir os jornais ou ouvir os noticiários para perceber esse apodrecimento da política tradicional. Ela perdeu referências programáticas e ideológicas, se transformou em negócios privados escabrosos. Os assuntos da política passaram a ser assuntos típicos de páginas policiais. É um descalabro. Mas, felizmente, estas coisas começam a aparecer, a serem trazidas à luz do dia, e saúda-se a Operação Lava Jato, a Lama Asfáltica e a Coffee Break que estão dando nome aos bois, inaugurando um novo clima de esperança de que a lei valha para todos e, ninguém, por mais poderoso que seja, pode ficar acima dela. Isso nunca vimos acontecer antes.
Qual a posição do grupo em relação a acontecimentos como a Lei da Mordaça e a Operação Coffee Break?
Nosso grupo é um ponto de encontro para reflexão e organização de ações. Nossa contribuição mais específica, pelas características da nossa composição, é a de pensar os problemas para além de suas manifestações aparentes, buscando as raízes mais profundas, normalmente ocultas. Nesses temas que você cita, posicionamo-nos em artigos, entrevistas e estivemos presentes em manifestações públicas em caráter coletivo ou individual e sempre procurando somar com outras iniciativas existentes na sociedade. No caso da Lei da Mordaça, por exemplo, elaboramos um manifesto pelo veto da lei, envolvendo centenas de pessoas, fomos ao Prefeito pedir o veto, fomos à Câmara pedir a manutenção do veto ao projeto, articulamo-nos com outras instituições, a exemplo da OAB, que nos convidou para contraditar com os propositores dessa malfadada lei na reunião do seu Conselho. Tudo isso somado a palestras, entrevistas, debates onde tivemos presença ativa.
Podemos dizer que o atual papel político na transformação da cidade de Campo Grande – e das cidades em geral – está equivocado num tempo de evolução tecnológica e redes sociais?
Sem dúvida. O mundo mudou profundamente e quem continuar pensado com a cabeça formada nos contextos que foram superados, morreu intelectualmente, embora muitos não percebam isso. A cidadania hoje interage horizontalmente nas redes de informações e comunicações e não se sente representada nas estruturas verticalizadas, articula ações participativas que colocam em xeque o sistema tradicional de poder. Ninguém mais precisa de intermediação para cobrar, criticar, propor coisas diferentes e inclusive, tem criado redes de cooperação para resolver problemas. O nível de participação aumentou muito, nunca se discutiu tanta política, e nessa efervescência está a energia para o surgimento de uma nova política, para esse mundo novo que vai se afirmando.
O senhor concorda que para se conseguir maior participação na vida política e pública da cidade é necessário que o cidadão sinta-se pertencente àquela cidade? O que fazer?
Isso é absolutamente verdadeiro. Mas, afinal, o que é a cidade, genérica e abstratamente? É aquilo que está na cabeça do prefeito, ou do governador, ou de cada vereador ou dos candidatos das próximas eleições?
Esse sentimento de pertencimento só poderá ser verdadeiro se a cidadania fizer parte da definição do que se pretende para a cidade, ou seja, da construção de um projeto de futuro compartilhado por todos. Aí sim, cada um pode vir a assumir uma postura de cumplicidade, de corresponsabilidade com essa construção coletiva, saber qual é o espaço do seu interesse legítimo e qual o papel que pode cumprir.
Como a sociedade civil pode colaborar na transformação real de sua cidade?
Nós estaremos vivendo este ano uma boa oportunidade para essa intervenção, por conta do processo eleitoral. A sociedade civil pode atuar melhorando a qualidade da representação política, convocando quadros para essa missão, repudiando os políticos que representam apenas seus próprios interesse e projetos pessoais. Outro desafio é o de fortalecer a articulação das diversas instituições existentes para uma interlocução organizada com os futuros candidatos, cobrando-lhes compromissos de novas relações entre a futura administração e a sociedade, cobrando-lhes programas de governo consistentes, comprometendo-os com a elaboração de planos de longo prazo compartilhados com a sociedade, cobrando-lhes fichas limpas, transparência, qualidade de gestão e posturas republicanas.
Como seria o modelo ideal de gestão pública?
Se é certa a constatação de que forma tradicional de governar está em crise, que a administração pública perdeu a sua capacidade de financiamento, que os problemas se avolumam diante de um estado que já bateu no teto da capacidade contributiva da sociedade através dos impostos, que as necessidades são crescentes e evoluem em um ritmo maior do que permite o crescimento da economia, não é trivial apontar um modelo milagroso para a saída do impasse. O novo não tem receita pronta e acabada. O fato é que não basta ser bom gerente, ou honesto, para dar conta dos desafios das novas administrações. Isso é pouco. Há necessidade de inovação na maneira de governar.
Hoje, o modelito que norteia a disputa política é de quem é o mais competente para fazer a gestão de infraestrutura e serviços, quem é capaz de conseguir mais recursos para atender as necessidades da população, mas o governante é o árbitro dessas necessidades. A população é tratada como clientela, e o governante é o gerente, trazendo para a administração pública o modelo da gestão privada.
A grande questão é que não há competência que dê conta da crise estrutural e conjuntural de financiamento da máquina pública. Os números são contundentes quando se analisa o gap entre os recursos e as necessidades. É fora de dúvida que qualquer governo tem que ser honesto e ter competência gerencial. Mas isso não é suficiente. A realidade é que não é o governo, a prefeitura que constrói a cidade, ela é fruto da atividade produtiva, social, cultural e política dos cidadãos. O grande desafio é criar a sinergia entre todas as energias e recursos existentes na sociedade - econômicos, de conhecimento, de experiência de organização, de articulação social, de trabalho voluntário, entre outros. Essa é a função mais desafiadora a ser exercida pelo administrador público, ou seja, a da articulação da sociedade. Isso significa construir uma nova relação entre governo e sociedade, focada no que deve ser a razão da ação pública: o desenvolvimento humano, o que contempla equidade social, eficiência econômica, sustentabilidade ambiente e convivência democrática.
A gestão descentralizada, aplicada em importantes cidades pelo mundo, é o melhor caminho, mesmo num país como o Brasil, onde em muitas cidades é a lei do mais forte que ainda manda?
A descentralização é uma regra de ouro para a gestão pública, mas tem que ser combinada com a articulação e a integração formando um sistema coerente. Tecnicamente tem que se repensar esses conceitos e seus mecanismos no contexto da sociedade em rede. Cada escola, cada unidade de saúde, cada local de atendimento das pessoas, cada ponto de ônibus pode ser pensado como nó da rede integrada, onde o cidadão possa falar direto, em tempo real, com a administração pública. Quanto à lei do mais forte, não se pode ser ingênuo, ela é a regra cruel do sistema atual, mas pode ser enfrentada. O caminho é o da política, da boa política de juntar forças interessadas nas mudanças, o de criar uma força social mais coesa e democrática que possa enfrentar a lei do mais forte.
PERFIL
FRANCISCO FAUSTO MATTO GROSSO PEREIRA,
Engenheiro Civil pela UFPR, Mestre em Desenvolvimento Local pela UCDB, professor titular da UFMS, aposentado. Foi vereador em Campo Grande pelo PCB, hoje PPS, entre 1983 e 1988. Foi Secretário de Planejamento do Governo de Mato Grosso do Sul, Diretor de Desenvolvimento Regional da Secretaria de Desenvolvimento do Centro Oeste/Ministério da Integração Nacional. Atualmente é pesquisador associado do Grupo de Estudo das Transformações Organizacionais – GETO/UFMS e consultor em planejamento e desenvolvimento regional.
É membro da Direção Nacional do PPS e da Diretoria Executiva da Fundação Astrojildo Pereira

Nascido em 02 de janeiro de 1949

quarta-feira, 25 de maio de 2016

"Por trás das aparências"


Aproximam-se as eleições. Os primeiros pré-candidatos começam a aparecer. Será que teremos boas opções ou seremos reduzidos, mais uma vez, à triste condição de votar no menos pior?
O pano de fundo do processo eleitoral que se aproxima é o da frustração provocada pela natureza da pratica política existente em nosso País, caracterizada pelo descompromisso programático, pela promiscuidade entre o público e o privado, pela corrupção, pelo clientelismo e pela degenerescência das práticas políticas, situação essa que afeta os mais diferentes partidos e suas lideranças.
Mas afinal, como separar o joio do trigo, se nas eleições todos os discursos são parecidos e os candidatos aparentam serem todos iguais, aos olhos dos eleitores?
Uma boa ajuda para a tomada de decisão do voto pode vir da análise da tipologia de lideres políticos construída pelo chileno Carlos Matus. Chimpanzé, Maquiavel e Ghandi, assim o autor tipificava os estilos de liderança política, em uma escala do pior para o melhor.
Tais como nos grupos de chimpanzés, os líderes, assim classificados, são caracterizados pela expressão “o fim sou eu”. A forca representa o seu atributo político principal. Não existe projeto algum - o líder guia a manada a lugar nenhum e é guiado pela lógica de que “o projeto é o chefe e o chefe é o projeto”. É o estilo mais primitivo de fazer política. Os ditadores sul-americanos, velhos e novos, são uma boa representação desse espécime.
“Os fins justificam os meios” essa é a síntese da ideologia que sustenta o estilo Maquiavel. Em relação ao estilo anterior, a grande diferença é que neste caso há um projeto, que transcende o líder. O projeto não é mais individual, é coletivo, tem base social, mas é impossível realizá-lo sem o líder messiânico. Aqui o poder pessoal não é o objetivo, mas o instrumento. Nesse contexto, não há adversários, e sim inimigos que devem ser derrotados e, se necessário, eliminados. A esquerda autoritária foi pródiga em produzir tais lideranças.
Mas a humanidade já conseguiu produzir, embora mais raramente, outro tipo de líder, que baseia a sua liderança na força moral e no consenso. Ghandi é o paradigma desse tipo de liderança política. Talvez um bom exemplo mais recente seja Nelson Mandela.
Também aqui o projeto é coletivo, mas o líder não disputa para sê-lo. Não precisa força física, lidera pela superioridade de seus valores e da sua ética. Não precisa construir inimigos para vencê-los, mas sim subordinar e ganhar os adversários pela razão objetiva do projeto socialmente superior. Pratica a coerência entre discurso e ação, essa coisa hoje tão rara na política, cuja escassez está na origem da desmoralização dos líderes políticos.
Esses estilos de lideranças políticas raramente são encontrados em estado puro. Também, o líder não os escolhe ao seu bel prazer. O estilo real de cada político acaba sendo uma combinação particular entre esses estilos básicos e ainda vai depender do contexto dentro do qual se realizam as disputas.
A cada estilo de liderança vai corresponder, no exercício do poder, um comportamento político esperado. O de pensar e usar o governo como coisa sua, ou comportar-se segundo princípios republicanos. O de isolar-se no uso pessoal do poder ou de compartilhá-lo com a sociedade. O de perpetuar conflitos ou buscar convergências que possam viabilizar projetos de interesse público.
A essa altura, cada um deve estar procurando colocar as figurinhas dos líderes das disputas nos álbuns de personalidades, ou nos porta-retratos que lhes correspondem. O critério é de cada um, assim como a responsabilidade do acerto ou erro.

Fausto Matto Grosso.
Professor da UFMS, membro do Movimento por uma Cidade Democrática

25 MAI 2016

sexta-feira, 29 de abril de 2016

ROTEIROS PARA TRAGÉDIA BRASILEIRA


Dizia um filósofo nascido no reino da Prússia, que os homens fazem a história, mas não a fazem como desejam, nem dentro das condições que gostariam, suas ações são condicionadas, assim, pelo contexto histórico em que vivem. Parto dessa ideia para analisar as difíceis saídas para a tragédia vivida pelo país.
Considero, também, alguns pressupostos. Primeiramente, a continuidade do processo democrático está garantida em qualquer circunstância. O Brasil amadureceu e as instituições democráticas funcionam normalmente, garantidas pela Constituição, pelas instituições existentes e pela vontade majoritária da Nação. Não há hipóteses de golpes.
Da mesma forma, ninguém conseguirá segurar o processo de apuração dos atos de corrupção desencadeados pela operação lava-jato e outras, que sinalizam uma nova marcação no tempo histórico da sociedade brasileira. Tombarão tantos quantos forem sendo apontados, comprovadamente, pelas ações do Ministério Público e da Polícia Federal, com inteiro apoio da população.
Outro aspecto importante é que, em hipótese alguma, existe a possibilidade de o bloco de poder atual voltar a ter condições de liderar o processo de saída da crise. Não há volta nesse processo desencadeado a partir do impeachment na Câmara, com previsível confirmação de legitimidade pelo Supremo Tribunal Federal. Presenciamos o esgotamento do ciclo do lulo-petismo.
O futuro, entretanto, poderá nos reservar ainda muitas surpresas com vários desdobramentos possíveis. O fator de maior impacto ficará por conta de uma eventual anulação das eleições de 2014 pelo TSE, por conta de financiamento eleitoral ilegal, decorrente da corrupção. Com seu rito próprio, esse tipo de decisão costuma ser demorado. O tempo do TSE poderá implicar em novas eleições diretas ainda neste ano ou eleição indireta pelo Congresso a partir de janeiro do próximo ano.
Diante disso, no processo da vida real, o contexto em que vivemos é o de termos, em curto prazo, Michel Temer como presidente. É assim que manda o ordenamento jurídico existente. Temer estará brevemente diante do desafio do seu contexto histórico. Terá ele capacidade de montar um ministério de alto nível, com capacidade técnica e política e representatividade nas forças sociais que apostam nas mudanças? Imagino que sim, até por instinto de sobrevivência, poderá fazê-lo, repetindo um papel semelhante ao de Itamar Franco após o impeachment de Collor.
Só assim, com um amplo entendimento nacional – político e social – poderá o novo governo, responsavelmente, arrancar o Brasil da sua crise, ainda assim por um processo extremamente penoso. Não me refiro a esse arranjo congressual espúrio que tem marcado a política brasileira nos últimos anos. A representação política está em crise, a qualidade dos políticos piorou muito, falta-nos lideres com compromissos republicanos e com credibilidade. A votação do impeachment na Câmara, a despeito do resultado positivo, com poucas exceções, foi de bizarrice explícita e chocante, exibição pública de personalismo alienado, de populismo e de provincianismo.
O conjunto das forças políticas e sociais que vierem a compor esse governo de transição deverá estar tão solidamente alicerçado, de maneira que esse arranjo possa sobreviver até mesmo à substituição de Temer, se atingido pela justiça. Poderá esse bloco, inclusive se projetar como futura aliança eleitoral no caso de convocação antecipada de novas eleições complementares. Naturalmente ficará fora desse arranjo o PT, o que não é novidade histórica.
Caberá a essa nova gestão o desafio de realizar as reformas estruturantes que não podem mais ser adiadas e, para tanto, precisará da contribuição de todos aqueles verdadeiramente comprometidos com o país. Assim, após uma transição penosa, diante da magnitude da herança maldita deixada pelo lulo-petimo, o país poderá encontrar caminho mais seguro a partir das eleições de 2018.

Fausto Matto Grosso

(Engenheiro e Professor, membro do Diretório Nacional do PPS)

sexta-feira, 11 de março de 2016

A marcha de março


No próximo 13 de março a cidadania deverá ir novamente às ruas. Será a quarta marcha mobilizada pelo sentimento contra a corrupção e pelo impeachment da Presidente Dilma. Essas marchas, nos três últimos eventos, tiveram declínio de participantes, embora as pesquisas mostrem o crescente descontentamento com o quadro político, social e econômico do País. Qual a razão desse paradoxo?
Enxergo pelo menos três razões intimamente interligadas. A condução sectária do movimento, a falta de foco e a arrogância política dos seus condutores. Essas posturas diferem em tudo do que levou ao sucesso as grandes manifestações históricas que deram certo no Brasil, como a Campanha pelas Diretas e o Fora Collor. É certo que o Brasil dessas campanhas vitoriosas era muito diferente do país atual, fortemente influenciado pela organização da cidadania através das mídias sociais. Se as formas de mobilização mudaram, as experiências políticas anteriores, a meu ver, continuam válidas.
O sectarismo transformou uma causa nacional ampla da cidadania em briga entre fanáticas e despreparadas torcidas organizadas. As mídias sociais, que potencializam a convocação, se transformaram em locais de “briga de rua” virtual. Um dos sinais dessa radicalização, do lado de cá, é o inaceitável bulling pessoal, imposto a personagens envolvidos em escândalos, que são cercados, perseguidos e humilhados. A ofensa pessoal pode dar um contentamento momentâneo às nossas frustrações políticas, mas não é atitude politizada, é intolerância pura e perigosa. Lembra-me episódios de humilhações nazistas aos judeus, coisa degradante e na contramão da civilização. Vade retro.
As palavras de ordem são desfocadas do objetivo principal, reproduzem formulações que são elaborados por movimentos centralizados que tem objetivos pouco conhecidos. Pior ainda, são acriticamente reproduzidos e amplificados por lideranças locais, no geral, despreparadas. É bom que se diga que as mídias sociais, importantes instrumentos de mobilização da cidadania, não são os melhores lugares para refinar pensamento político. 
O grito mobilizador tem que ser amplo e não causar desconforto aos participantes, muitos dos quais não se sentem representados, outros tantos nem comparecem, devido à ignorância e ao primarismo político predominante. Essas palavras de ordem jogam, pela direita, o mesmo papel desmobilizador que os black blocs, da esquerda anarquista. É necessário que as palavras de ordem sejam agregadoras capazes de representa integralmente todos que estão solidários com a campanha de moralização da política.
Um dos exemplos do despreparo e da arrogância política do movimento é a rejeição à participação dos políticos e dos partidos políticos favoráveis ao impeachment. As ruas, importantes e legítimas na democracia, não governam e não votam leis. Tanto é assim que os movimentos acabam acampados nos gramados do Congresso Nacional ou fazendo pressão pelos votos dos parlamentares. O papel mais importante da democracia diretas das ruas é o de pressionar e qualificar a representação política institucional. É importante chamar a atenção que os partidos da oposição e muitas personalidades destacadas estão também convocando, de maneira organizada, a presença nas ruas no próximo dia 13.
Percebo nesse comportamento, pretensamente apartidário, um oportunismo enrustido de querer, com o impeachment, aproveitar para conduzir o País a uma política reacionária ou a soluções golpistas e autoritárias. Sob a sombra desses movimentos já se organizam candidaturas presidenciais, novos partidos políticos, bem como filiações partidárias e lançamento de candidatos nas próximas eleições. O maior desafio que está posto é o de abrir a participação para todos os que estão pelo impeachment, para que lá aparecerem, se manifestem e se comprometam. Gostaria de ver uma próxima manifestação com todas as bandeiras contra a corrupção e pelo impeachment.
Povo na rua sim, basta à corrupção sim, impeachment sim, mas sem manipulação. É necessária responsabilidade política, palavras de ordem que unam e que construam compromissos com a solução da crise pela via democrática e republicana.

Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

VEREADORES PARA QUE?


Há um sentimento generalizado de decepção em relação aos detentores de mandatos eletivos. Em muitas cidades, plenários de Câmaras Municipais chegaram a ser invadidos pela população que clamava pela diminuição do número de vereadores, de suas remunerações ou dos percentuais de repasses financeiros para os legislativos.
Entretanto, em uma democracia desenvolvida, os legislativos são mais importantes do que os executivos, especialmente nos municípios. Naturalmente não estou falado desse parlamento em crise, mas sim de sua reinvenção. Neste ano serão realizadas eleições municipais, o que esperar da nova safra de vereadores, o que cobrar deles?
Muitas são as questões a serem enfrentadas. A crise clama por uma radical inovação nos legislativos municipais. Há um déficit de representatividade, um déficit de afirmação da autonomia e prerrogativas, e um déficit de qualidade do processo legislativo.
A distância entre a sociedade política e a sociedade civil é imensa. Na exacerbação do individualismo, que marca os tempos atuais, os parlamentares, no geral, representam as suas próprias vaidades ou projetos pessoais e não as opiniões existentes na sociedade. De um lado a política virou profissão, do outro a sociedade não se organiza para qualificar a representação.
A palavra vereador é afim de dois termos do latim: verear e vereda. Verear é andar pela cidade, e vereda significa caminho. O papel do vereador é conhecer a cidade e traçar o seu rumo. Não existe função mais importante do que essa. Entretanto, vereador, normalmente faz campanha como se fosse prefeito e depois não cuida da essência da função de verear, fazer e aprovar leis e fiscalizar a administração municipal. Promete o que não pode entregar ou acaba entregando sua autonomia ao executivo, muitas vezes em troca de favores ou nomeações para atender a sua “clientela”.
É necessária a transformação das câmaras municipais em caixa de ressonância da sociedade, em lugar de encontro da democracia participativa com a representação. Sim, porque, ao contrário do senso comum, em sociedades complexas, onde as questões não podem ser resolvidas apenas em decisões simplórias do tipo “sim ou não”, o parlamento deve ser o local - e a política a arte necessária - para a construção democrática de consensos ampliados, em torno de interesses legítimos da sociedade. As câmaras municipais devem ser os locais de construção de projetos de futuro das cidades, compartilhados com a cidadania, para se obter um mínimo de coesão social e uma governabilidade baseada em valores éticos, cívicos e republicanos.
Fortalecida pela representatividade, a Câmara pode afirmar a sua independência em relação ao Executivo, rompendo com a tradição de executivos que fazem leis, subvertendo a lógica natural, e de vereadores alinhados segundo os pobres critérios de serem “bases” ou serem oposição, que aviltam o papel dos vereadores.
Há ainda o déficit de qualificação da ação legislativa. Há que se ter também um mínimo de profissionalização nas assessorias nas câmaras municipais, um bom exemplo disso é a assessoria do Senado. As assessorias parlamentares não podem ser apenas o exército de reserva de cabos eleitorais para as próximas eleições. Fiscalizar o Executivo não é tarefa trivial, não é apenas fiscalizar a legalidade dos atos, exige informação precisa sobre o andamento e resultados dos programas e projetos executados pela administração, com base em indicadores, estudos e pesquisas. Para isso, mediante concurso público, a Câmara deve montar assessorias técnicas competentes, talvez, até remanejando cargos de assessorias individuais dos vereadores para viabiliza-las.
Tais inovações são utópicas diriam alguns. Sei disso, mas respondo associando Bilac a Galeano: “Ora (direis) ouvir estrelas. [...], perdestes o senso! [...] eu vos direi que muitas vezes desperto [...] abro a janela, [...] e vejo [...] a via-lactea”. É verdade, adoro utopias. A gente dá um passo e elas se afastam um passo, mas têm exatamente esse papel de nos ajudar a caminhar no rumo certo.

Fausto Matto Grosso
Professor da UFMS.

Diretor da Fundação Astrojildo Pereira

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PREFEITOS: GERENTES OU LÍDERES?

Campo Grande viveu nesses três últimos anos um período de crises na administração municipal. Será que prefeitos mais ou menos competentes fariam diferenças fundamentais nos resultado para a população, especialmente naquilo que se refere ao seu desenvolvimento humano integral?
As crises profundas, apesar dos sofrimentos que impõem, muitas vezes são oportunidades para enxergarmos o que ocorre nas profundezas submersas da estrutura da sociedade.
Há muito vivemos uma crise de financiamento do Estado, em todas as suas esferas - nacional, estadual e municipal - e uma crise ética que se coloca com toda a sua contundência. Déficits públicos crescentes, aumentos de impostos, infraestrutura sucateada, serviços públicos de péssima qualidade. Corrupção, estilos autoritários de decidir e governar, falta de confiança nos governantes e descrédito na política. Esses são sinais visíveis dos problemas que marcam o tempo presente.
O olhar para esses fenômenos sinaliza, para alguns, a discussão de mais Estado ou menos Estado, para outros a simples troca dos nossos políticos e escolha de gestores mais competentes. Errado: esse tipo de Estado e esse tipo de governo estão esgotados, já não conseguem resolver os desafios de uma sociedade que sofreu profundas transformações, tornando-se mais complexa, mais articulada, e mais consciente da sua autonomia. Esse é o cerne da questão.
Todo governo tem que ter capacidade de gestão, mas isso não é suficiente. Não é possível resolver a imensa demanda reprimida da sociedade sem mobilizar os imensos recursos que estão fora dos orçamentos públicos. Fora do governo existem recursos imensos desperdiçados. São recursos, financeiros, cognitivos, organizativos, políticos entre outros. Há que se somar toda essa riqueza, articulando um orçamento ampliado por uma nova governança baseada na democracia e na responsabilidade solidária.
Colocando em termos práticos, quanto vale o eficiente trabalho da Pastoral da Criança no combate à desnutrição infantil, quanto vale o imenso voluntariado da cidade a serviço da solidariedade humana, quanto vale o potencial produtivo e de responsabilidade social das nossas empresas, quanto vale o conhecimento das nossas Universidades, o potencial dos pequenos negócios e das organizações da sociedade civil? Tudo isso é desperdiçado, não converge para ajudar no enfrentamento dos desafios do desenvolvimento da cidade.
Há que se juntar esse imenso potencial em um projeto baseado na maximização da coesão social, na organização das interdependências do conjunto dos atores da sociedade para produzir níveis crescentes de desenvolvimento humano. Há que se perceber que a sociedade política, sem a sociedade civil, já não da conta das imensas demandas de uma sociedade democrática, complexa e articulada em redes. Essa apartação é a fonte da nossa crise de capacidade de governo e de deslegitimação da representação.
Nessa visão, o governo deve ser um agente organizador das potencialidades existentes. Essa é a experiência de regiões que trilharam caminhos mais sustentáveis de desenvolvimento. Robert Putnam estudou e identificou esse modelo nas cidades desenvolvidas no norte da Itália. É dele o conceito de capital social: o conjunto formado pela confiança social, pelas normas e redes articuladas para resolver os problemas comuns com compromisso cívico. Quanto mais densas forem estas redes, mais possibilidades existirão de que os membros de uma comunidade cooperem para obter um benefício comum.
Para cumprir esse papel novo não são suficientes gerentes. A materialização dessa utopia possível depende de uma mudança cultural, depende do surgimento de lideres que possam entusiasmar e ter o crédito da sociedade. Esses líderes seriam capazes de organizar com a sociedade um grande projeto de longo prazo, onde houvesse a convergência ampla de interesses e fosse calçado em uma liderança moral inequívoca.
Os momentos de crise podem, muitas vezes, serem as oportunidades de criação do novo. As crises são como momentos de partos, elas são caracterizadas pela existência de uma situação em que o “velho já morreu, mas o novo ainda não nasceu”. As possibilidades são apenas duas, acreditar em mais do mesmo ou ousar no parto de novos paradigmas para a gestão pública.
Apressar a emergência de um novo estilo de liderança e de um modo novo de governar é um dos maiores desafios contemporâneo do pensamento progressista.

Fausto Matto Grosso
Engenheiro, professor aposentado da UFMS

01.12.2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

INDIGNAÇÃO


A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las. Santo Agostinho
Vivemos um momento de apagão ético na política e na gestão da coisa pública. Baixemos nosso olhar para a situação concreta da nossa cidade.
É um dever moral a indignação diante desse quadro.
Por outro lado, é preciso ter coragem cívica para lutar contra forças poderosas que tentam manter essa situação. Só não entende essa responsabilidade os desinformados, os covardes e os beneficiários diretos e pensionistas desse poder corrupto. Esse é o jogo do momento, no qual a sociedade tem tudo para ganhar. As tripas do monstro da corrupção estão expostas cobertas de vermes, graças a um novo momento em que vive a Justiça no país.
Ainda assim, existe uma manifesta intenção de nos roubarem qualquer réstia de esperança. Querem nos fazer acreditar que nunca vai mudar essa regra do jogo perverso no qual se transformou a política. Querem nos submeter pela alienação, ou pelo medo, aos poderosos beneficiários desse reinado de impunidade.
É o caso da pretensão de esmagarem uma rebelde, a vereadora Luiza Ribeiro. Tentaram desmoralizá-la por fazer, supostamente, denuncias sem provas, quando apenas relatou, como testemunha convocada pelo Ministério Público o que o povo fala em todas as esquinas. Ora, será que queriam que ela dissesse que nunca tinha ouvido falar de corrupção na gestão pública de Campo Grande? Seu depoimento foi um imperativo ético da sua responsabilidade de representação. Cabe ao Ministério Publico levantar as provas, que estão sendo fartamente documentadas e que, em pouco tempo, tomaremos conhecimento.
Na verdade, o posicionamento da vereadora, desde o início do seu mandato, mexeu na colmeia dos que sobrevivem da moagem espúria dos interesses da baixa política. Por isso querem destruí-la, precisam de uma punição exemplar para manter, pelo medo, a política que combina mediocridade com interesses menores, no jogo de faz de conta da representação popular. Por isso clamam por sangue, por punição exemplar que possa criar símbolos que causem medo e acomodação aos que sonham com mudanças na política.
Atualmente a vereadora Luiza Ribeiro está para ser pregada na cruz da Comissão de Ética na má companhia de nove vereadores que o Ministério Público apontou como suspeitos de participarem de esquema de compra de votos que cassaram o prefeito Bernal. Não é de todo estranho que só Luiza seja condenada e os outros sejam protegidos pelo corporativismo. A acusadora virar réu não é coisa estranha na realidade brasileira, por mais repugnante que seja essa situação.
Por traz disso tudo, a ação dos grupos poderosos que tem dominado a política em Campo Grande, nos últimos anos. Porque esses gigantes da política, como todo o seu exército de seguidores, temem Luiza Ribeiro? Afinal a desigualdade da força é a mesma de um elefante, diante de uma formiguinha, de um Golias diante de Davi. A resposta é única, uma vendetta exemplar para desacreditar a possibilidade de uma política baseada no bem comum e na motivação republicana. Querem esmagar a coragem dos que sonham com um mundo melhor.
Nessa luta desigual a vereadora Luiza tem só uma pedrinha na funda. Mas essa pedra é de uma densidade neutrônica. Concentra a indignação da população, que ela tão bem representa, combinada com a esperança das pessoas que querem dignidade na política desta cidade.

Fausto Matto Grosso
Engenheiro e professor aposentado da UFMS

12.11.2015

domingo, 6 de setembro de 2015

UMA CÂMARA REPUBLICANA


A Câmara Municipal é a instituição pública mais importante da democracia. Mais do que o Executivo, a Câmara é o espaço público mais aberto à cidadania, é através dela que se pode praticar a chamada “democracia de contato”. Enquanto o Executivo representa o voto da maioria, a Câmara é o espaço da representação da diversidade da sociedade, essa que é o maior desafio da democracia contemporânea. Alguns pensadores opinam, inclusive, que para experimentação e para educação política da população, o parlamentarismo devesse começar pelos municípios, situação essa que promoveria ainda mais a importância dessa Instituição.
No dia 25 de agosto, um tsunami varreu a política de Campo Grande. Um prefeito foi derrubado, outro prefeito foi reconduzido, o Presidente da Câmara foi destituído e oito vereadores foram conduzidos, “sob vara”, para prestar depoimentos na justiça, em um escândalo, sem precedente, envolvendo a denúncia de compra de votos com dinheiro proveniente da corrupção. Muitos outros desdobramentos são ainda esperados.
Esses episódios puseram a nu a grave deterioração institucional que, no geral, atinge as Câmaras Municipais. Não faço essa crítica a partir de uma posição moral, já que a moralidade pública deve ser um padrão universal, dos agentes públicos. Essa situação vexatória dos parlamentos municipais tem componentes históricos e políticos. Os homens são eles próprios e os seus contextos.
Vivemos nas últimas décadas a perda de referências ideológicas na política, do referencial coletivo representado pelos programas partidários, do senso do bem comum, do sentimento republicano, que foram sendo substituídos pelo pragmatismo e pelo individualismo daqueles que encaram os mandatos como se fossem passos de uma carreira profissional. Em um tempo da radicalização da ideologia do liberalismo, cada um é um, a perseguir o seu projeto individual de pequenas ambições e grandes apetites, amparado em uma política de clientes e financiadores.
Tem jeito? O futuro não está escrito, nada está garantido, mas vejo na crise atual uma oportunidade de dar bons passos na direção da mudança. O Brasil não vai acabar, nem Campo Grande. Existem ainda focos de resistência da boa política a perseguir boas causas e principalmente existem muitos cidadãos decentes que podem, em um contexto de mudanças, assumir a política como dever de cidadania. Isso vai exigir mudanças radicais de posturas das pessoas, e instituições renovadas.
O Prefeito não pode ignorar a representatividade do legislativo, mas essa relação tem que ser claramente mediada pelo interesse público. É necessário que seja duro, contra a velha política de trocas que está indo parar na barra dos tribunais, talvez atrás das grades.
Por sua vez, o Legislativo não pode ser subserviente ao Executivo, tem que ser afirmativo, mas exclusivamente dentro das suas atribuições legais de fazer leis e fiscalizar. Vereador não pode ser um despachante subalterno das reivindicações clientelistas que os tornam dependentes dos favores do Executivo. A população tem que se relacionar de maneira direta e cidadã com os órgãos da administração, através dos seus próprios líderes, entidades e movimentos. Nem sempre os vereadores gostam disso, pois muitos querem estabelecer relações farsescas que lhes permitam cobrar pedágio político dos eleitores por ocasião das eleições.
A Câmara, pela representatividade que tem, deve se transformar em um grande fórum dos problemas da cidade, de discussão da qualidade e dos resultados das políticas públicas. Para isso tem que se qualificar tecnicamente, para poder discutir, em alto nível, os projetos próprios e aqueles provenientes do Executivo. Não se constrói qualidade legislativa apenas com contratação de cabos eleitorais que ficam o tempo todo preparando a próxima campanha.
Imagino que o Ministério Público e o GAECO, com sua ação na Prefeitura e na Câmara, em nome da moralidade pública, fizeram uma nova proclamação da República em Campo Grande no dia 25 de agosto. Cabe agora à cidadania garanti-la e aprofundá-la nas próximas eleições para barrar essa “classe política” despreparada e irresponsável.

Fausto Matto Grosso

Diretor da Fundação Astrojildo Pereira/MS

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"O descrédito da política"


A cada dia a população fica mais chocada com os noticiários. Além da violência pura e simples, hoje predomina a violência da criminalidade política, que aos poucos vai mostrando, o mundo da política dominado, no dizer do Ministro Celso Mello, “por um grupo de delinqüentes que degradam a atividade política”.  A política real, predominantemente, se transformou em campo de ação de bandoleiros. 
Essa situação parece ter recrudescido nas últimas duas décadas. No plano nacional já foi atingido o Judiciário e, em uma escala sem precedentes, o Executivo e o Legislativo, estes, flagrados em conúbios com o sistema financeiro, estatais, fundos de pensão e com as maiores empresas de obras públicas do País. 
Essa crise de valores republicanos se irradia também em todas as esferas do poder público, assim vemos os escândalos atingindo os Estados e Municípios, como acontece atualmente em Mato Grosso Sul e em Campo Grande, demonstrando o caráter endêmico da crise ética com o correspondente descrédito da população nos políticos e nos partidos.
Na raiz dessa degradação está a perda do sentimento de coletividade, de bem comum, substituídos pelo egoísmo do individualismo, fruto da radicalização da ideologia do liberalismo. A idéia do mercado, como valor supremo da vida econômica, se transbordou gravemente para todas as esferas da vida social.  Hoje, partidos e políticos, no geral, são produtos de mercado. No dizer de Alfredo Reicilin, “criou-se um círculo vicioso: uma classe política inculta e irresponsável produz um mundo cínico de clientes e financiadores”. Na falta das grandes causas, utopias e esperança, só se ouve – parafraseando Montesquieu – o lamentável ruído das pequenas ambições e dos grandes apetites.
Recente pesquisa, patrocinada pelo Conselho Nacional de Justiça, sobre a credibilidade das instituições, feita pela FGV, mostra que apenas 5% da população confia nos partidos políticos. Vou na contramão desse sentimento difuso. Conheço políticos dignos, eles existem.
Acredito na política, porque acredito na democracia e esta precisa da política, o seu antônimo é a barbárie. Mas a presente crise é grave. Fosse apenas uma crise política, bastava trocar os partidos e os políticos e o problema estaria resolvido, mas trata-se de algo muito mais grave, é a crise de credibilidade na política, esse produto dos mais sofisticado da civilização, cuja função é regular as relações humanas. 
É certo que, para além dos problemas da conjuntura, há uma crise estrutural, que exige novos paradigmas.  Hoje, os partidos já não possuem o monopólio representação política dos cidadãos. A pressão das ruas, os mecanismos de participação direta, as redes e mídias sociais são novos elementos que vieram para ficar. Entretanto, seria uma imensa ingenuidade supor que estas possam substituir as instâncias institucionais da política. Já não vivemos na polis grega, mas em sociedades complexas que exigem institucionalidade sofisticada, inclusive para garantir, não apenas os direitos da maioria, mas também a representação de toda a diversidade existente na sociedade.
O grito dos “indignados”, as pressões dos movimentos, essenciais para fazer valer a vontade democrática dos cidadãos deve colocar em questão, não a política como valor, mas sim a qualidade da representação e dos partidos, em uma pressão salutar para a qualificação da democracia e dos partidos.
Abertos a essa realidade, temos que fazer a transição para novas formas-partidos, principalmente daqueles que se pretendem transformadores. Tenho convicção de que isso precisará muito de gente que, olhando a política atual, “não quer fazer política”, mas tem brios de cidadania. É preciso construir utopias novas, mobilizadoras das energias da sociedade. Os partidos e a política terão que se refundarem em novas formas e conteúdos se quiserem ter protagonismo no futuro. 

Fausto Matto Grosso

Diretor Geral da Fundação Astrojildo Pereira/MS