sexta-feira, 27 de agosto de 2021

 

A MARCHA SOBRE BRASÍLIA




O fascismo surgiu na Itália sob a liderança de Benito Mussolini em 1919. Sua intenção era tomar o poder pela via eleitoral, mas, se fosse necessário, utilizaria a violência para garantir sua ascensão política. O fascismo obteve grande apoio político na Itália no início da década de 1920 por causa de sua atuação no combate ao socialismo.

A Marcha sobre Roma é como se conhece a grande marcha realizada pelos fascistas em 28 de outubro de 1922, em direção capital italiana. Esse evento foi responsável pela ascensão de Benito Mussolini  ao poder da Itália. No dia seguinte à marcha, Mussolini foi indicado para o cargo de primeiro-ministro. Mussolini foi cabo durante a guerra, mas no poder assumiu o cargo de Primeiro Marechal do Império.

Bolsonaro foi deputado federal por sete mandatos. Sua atuação parlamentar sempre foi caracterizada pelo discurso de ódio e de visões que incluem a simpatia pela ditadura militar, a defesa das práticas de tortura  e a defesa dos interesses dos militares, que constituíam sua principal base eleitoral.

Candidato, nunca enganou ninguém na sua campanha presidencial; pregava o armamentismo, o militarismo e o negacionismo. Foi beneficiário do medo da população e da insegurança social existente. Saiu da eleição colocando em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas pelas quais tinha sido eleito.

No governo, revelou-se um presidente que não estava à altura dos grandes desafios da Nação: a crise econômica e o desemprego, a crise social e principalmente a crise sanitária. O Brasil piora a cada dia, há um clima de desconfiança e baixa credibilidade na economia e na política. O Presidente parece indiferente a isso, inclusive aos quase 600 mil mortos da Covid. Encheu seu governo de militares, mas acabou montando uma máquina pública absolutamente incapaz. Não se preocupa em governar e sim em construir crises políticas e institucionais. Usa o fracasso do seu governo como combustível para um autogolpe.

Não são poucas as semelhanças entre Brasília e Roma. Lá o “Duce”, aqui o “Mito”. Bolsonaro, diferentemente de Mussolini, já tem o poder, mas quer o poder sem limites. Não aceita as instituições democráticas, rejeita os limites da Constituição. Tem convocado e apoiado manifestações contra os outros poderes da República, inclusive com ameaças de invasão, violência física e depredações no Supremo e no Congresso. Segue o modelo desenvolvido por Trump, de quem foi grande admirador.

A Marcha sobre Brasília é hoje uma preocupação no país. É uma marcha da insensatez, capaz de levar o país a grandes conflitos, no limite, a uma guerra civil, que pode dividir o país pelas armas e até e ao enfraquecimento da unidade nacional. Essa situação interessa à Bolsonaro, pois dará justificativa para a intervenção das Forças Armadas, mantendo-o no poder.

Essa marcha tem que ser detida. Os governadores já se manifestaram nesse sentido e tem grande responsabilidade na busca de soluções.  Tem que ser detida essa ameaça à democracia. Marchar sobre Brasília com a intensão manifesta de atacar o Congresso e o Supremo é crime. Marchar sobre Brasília com armas, atenta contra a lei. Faixas e cartazes nesse sentido têm que ser subtraídos dos manifestantes e são prova da intenção criminosa.

Quem quiser quebrar nossas instituições democráticas não pode chegar a Brasília. Se chegar, não pode atingir a Praça dos Três Poderes, se o fizerem não podem se aproximar do Congresso e do Supremo. Se quebrarem as vidraças, Bolsonaro terá alcançado o seu principal objetivo e estaremos todos perdidos.

FAUSTO MATTO GROSO

Engenheiro e professor da UFMS

sábado, 7 de agosto de 2021

 

A NOSSA FRIACA


Neste ano, o frio extremo que vem do Sul atingiu fortemente o Sudeste e parte do Centro-Oeste brasileiro. Ao mesmo tempo o Hemisfério Norte padece com recordes de calor e volume de chuvas. No Canadá, os termômetros chegaram a quase 50ºC e as chuvas muito acima dos padrões inundaram cidades na Alemanha e na China, com grande perda de vidas.

Esses fenômenos parecem desconexos, mas segundo a ciência eles se prendem à realidade das mudanças climáticas. É importante diferenciar o conceito de clima de uma região, do tempo que está fazendo nela. Clima é uma característica dos padrões de comportamento de longo prazo, já a previsão do tempo para amanhã ou para a próxima semana, é uma situação pontual sem maiores consequências. As mudanças do clima colocam em risco a própria sobrevivência do homem na face da Terra.

Não é fácil para o leigo entender as complexas questões do funcionamento do sistema climático com seus fatores e elementos, mas a ciência tem apontado que desde a Revolução Industrial vem aumentando a queima de combustíveis fósseis (petróleo e carvão) e o desmatamento, ampliando na atmosfera a quantidade de gases que ampliam o efeito estufa. Esses gases dificultam a dispersão do calor dos raios solares que atingem o planeta, o que tende a aumentar a temperatura no globo como um todo e tem sido a causa comum desses desastres climáticos. Não que o efeito estufa em si seja o problema, ele é um fenômeno natural que possibilitou a existência da vida no planeta, se tal não existisse, segundo estimativas, a temperatura da Terra seria de 
-18ºC. Entretanto são as mudanças nesse sistema de frágil equilíbrio, causadas pelo homem, que constituem ameaças aos sistemas vivos.

As recentes ondas de frio no Brasil parecem contrariar a afirmação de que a temperatura na Terra está de fato aumentando. Na verdade, é exatamente o aumento médio da temperatura na América do Sul que empurra ar quente para a Antártida que em correntes circulares em sentido horário trazem, no retorno, o ar frio que tem gelado, em ondas, o sul do Brasil. Mandamos à Antártida massas de ar quente e recebemos dela massas de ar frio, segundo asseguram pesquisadores.

Atualmente vivemos uma realidade marcada pelos eventos decorrentes da crise climática, tanto na produção de alimentos como na produção de energia.

As perdas milionárias nas lavouras queimadas ou congeladas pelo frio provocam a redução da oferta de produtos e consequentemente o choque inflacionário nos preços dos alimentos, que afeta duramente as camadas mais vulneráveis da sociedade. Além de fazer os brasileiros tirarem os casacos do armário, a onda de frio que atinge o país também vai obrigar a população a colocar as mãos nos bolsos – só que não para esquentar.

As secas com os reservatórios vazios prejudica a produção de energia e já levaram à utilização das termelétricas para evitar apagão encarecendo as contas de luz dos brasileiros. É como se o Brasil entrasse no “cheque especial” das energias mais caras e poluentes.

Friaca é uma palavra que não existe oficialmente na língua portuguesa. Segundo alguns autores, ela nem deveria ser usada porque não significa nada. Mais radicais, alguns ainda observam que, além de imprecisa, ela é muito feia. Entretanto a palavra tem sido cada vez mais incorporada ao linguajar dos noticiários meteorológicos.  Nos estados do Sul é como dizer: “Piá, pegue a japona que vem friaca aí”.

FAUSTO MATTO GROSSO

Engenheiro e professor aposentado da UFMS

 

 

terça-feira, 27 de julho de 2021

 

A CULTURA PECEBISTA

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que Ninguém Iria Contar)

 



Na história política brasileira há um estilo de pensar e agir “pecebista”.

O PCB, que fará 100 anos em março de 2022, nasceu no mesmo ano em que acontecia a Semana de Arte Moderna de 1922, movimento esse que rompeu com os paradigmas elitistas e marcou a cultura brasileira. Vários intelectuais que fizeram parte desse movimento se filiaram a esse partido.

Ao longo do tempo, esse passou a ser o caminho natural de grande parte de intelectuais brasileiros, fato que permitiu ao PCB ter massa crítica para pensar sua política a partir do exame da realidade brasileira, longe da cópia de modelos pensados em outras realidades. Pensar a realidade brasileira para a definição da sua política passou a ser um dos pilares da cultura pecebista.

A cassação de seu registro em 1948 levou o partido a um breve período de radicalização esquerdista, mas, já em 1958, a partir da Declaração de Março, o partido rompe com o stalinismo, indica o caminho democrático para a revolução brasileira e começou a pleitear o seu reconhecimento legal para participar da luta política como qualquer outro partido. Para isso, muda o nome para Partido Comunista Brasileiro (PCB) já que com o nome antigo havia sido cassado. Esse compromisso com a democracia foi o segundo pilar da sua cultura política.

A resposta ao Golpe Militar marcou um divisor de águas na esquerda brasileira, com o surgimento de vários grupos de luta armada. O Partidão manteve-se firme na política de frente democrática. Condenou a luta armada e apontou o caminho da unidade das forças democráticas para a conquista da Anistia, da Constituinte e de eleições livres e diretas. Esse foi o caminho vitorioso da redemocratização. Essa política de frente democrática ampla se transformou na via vencedora na luta contra a ditadura. Foi a insistência nessa política de frente democrática no pós-64 que lhe deu confiabilidade e uma influência bem maior que o seu verdadeiro tamanho. Foi a afirmação da luta política, e não o caminho da das armas para a revolução brasileira.

A afirmação da luta política diante dos descaminhos da luta armada constituiu o terceiro pilar do pecebismo.

         Esses três elementos, pensar a realidade brasileira, defender a democracia e acreditar na política como forma de luta, constituem os elementos fundantes da cultura pecebista. Essa cultura influenciou a política brasileira por muitos anos, e esparramou-se para além das fronteiras partidária.

Para além do lugar que ocupam na história nacional, os comunistas do PCB deixaram várias contribuições para o pensamento de esquerda no Brasil, dentre elas, a mais importante é a da valorização da política e da democracia no campo da esquerda. O pensamento político do PCB não se reduziu a mero reflexo de uma ideologia exógena, forjou um tipo de atuação influenciado por valores democráticos e particularmente por condutas unitárias.

As crônicas que colocamos nesse livro dizem respeito à história de vida de muitas pessoas com as quais compartilhamos a mesma luta política. A cultura pecebista forjou uma camaradagem sólida entre os personagens dessas histórias, que hoje perpassa as fronteiras partidárias e se tornou um valor afetivo.

 O INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DE MOSCOU

                                                Marisa Bittar

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que Ninguém Iria Contar)



 

   O Instituto de Ciências Sociais de Moscou, anexo ao Partido Comunista da União Soviética era a escola que recebia camaradas de todo o mundo para cursos de formação. Seu imponente prédio, situado na esquina da Leningradskii Prospect, 49 (Avenida Leningrado) era composto por salas de aula, biblioteca, espaços comuns de convivência, um belo anfiteatro, restaurante, ginásio de esportes, além de uma Clínica e outro prédio contíguo onde ficavam as moradias. Em missão do PCB-MS para me aprimorar no trabalho de educação política, ali cheguei em 1981, me deparando com um mosaico cultural incrivelmente diverso composto por países das mais diferentes regiões do planeta.

Todas as turmas passavam primeiro pela dasha, isto é, casa de campo, onde realizavam exames médicos, familiarizavam-se com a vida que iriam ter e começavam a aprender o russo. Em uma das aulas iniciais, o professor nos apresentou o primeiro verbo que deveríamos conjugar: o verbo trabalhar. Demonstrando expressão de surpresa pensei: o primeiro verbo não seria o “ser”?. Adivinhando meus pensamentos, o professor proferiu a bombástica frase: “No socialismo ninguém vive sem trabalhar!”

  Da dasha, fomos para o Instituto. Ele era organizado por cátedras e cada uma delas composta por doutores de Estado, cuja distinção era o domínio em três línguas estrangeiras. Nessas cátedras, os professores se organizavam pelos idiomas e turmas nas quais lecionavam; e os estudantes constituíam-se por países. O currículo era composto por História do Partido Comunista da URSS e do Movimento Operário Internacional; Filosofia; Economia Política; Teoria Política, além das aulas de russo, mas variava de acordo com o tempo que cada coletivo permaneceria na escola. A cada disciplina era destinado um dia específico da semana, e a aula durava a manhã toda. O professor expunha o assunto, esclarecia dúvidas e, depois, determinava a nossa tarefa. Portanto, tínhamos muitas horas de aula e outras tantas de estudos individuais que deveriam ser apresentados na aula seguinte de forma organizada, isto é, com base em anotações e sínteses das leituras recomendadas.

  Cada turma tinha professores que falavam a sua língua. Assim, a maior parte das nossas aulas era ministrada por professores que falavam português. Aqueles que não falavam eram acompanhados por tradutores (pirivôtchi) que haviam aprendido o português de Portugal. Por isso, já nas primeiras aulas, nós brasileiros, de forma bem-humorada, tratávamos de lhes comunicar que, a partir dali, nós os ensinaríamos o verdadeiro português!

  Nossa fama era a de sermos os mais brincalhões e comunicativos da escola, nem os italianos ganhavam de nós. Mas exibíamos também traços negativos de nossa cultura. Isso ficava claro, por exemplo, quando os professores nos cobravam a tarefa e recebiam de alguns a seguinte justificativa: “Professor, eu não tive condições de ler essa bibliografia porque precisei fazer exame médico justamente nesse dia!” A esperança de que essa desculpa fosse indiscutivelmente aceita, residia no fato de que todos no Instituto sabiam que ninguém lá dentro mandava mais do que as médicas e nenhuma autoridade era mais temida do que a  Doutora Iulia! Todos, indistintamente, entre alunos e professores, já tinham passado pelo menos uma vez pela experiência de estarem despreocupadamente no hall de convivência quando, de repente, eis que surgia a linda médica, que, ao passar por determinada pessoa que estava em falta com ela, apenas lhe advertia em tom doce: “Amanhã, obrigatoriamente, Clínica!” O tom que ela punha na palavra “obrigatoriamente” não deixava dúvidas: você tinha de ir mesmo! Todavia, essa “culpa” que espertamente se esperava atribuir à Doutora Iulia pela tarefa não realizada, quando apresentada na aula do professor Kapustin, que falava português e conhecia pessoalmente a nossa cultura, recebia severa reprovação que me deixava envergonhada: “Kapustin conhece muito bem os brasileiros!”

  Diferentes atividades aconteciam no Instituto. Além de nossas aulas e tarefas de estudo, cada coletivo programava encontros bilaterais de seu interesse, o que enriquecia nossa experiência política e cultural, além da oportunidade de novas amizades. Às segundas-feiras de manhã, em vez das aulas, todos os coletivos se reuniam no lindo anfiteatro para uma conferência, festividade cívica ou apresentação cultural. As de música e dança eram as nossas preferidas. Antes de qualquer dessas atividades, todos cantavam a Internacional, de pé, cada coletivo em sua língua.

  Duas viagens de estudo complementavam o currículo: uma delas, prêmio para todos, era a belíssima Leningrado onde ficamos sem fôlego ao entrarmos no Palácio de Inverno (Hermitage). Ainda bem que Lênin advertiu os revolucionários quando lá entraram para a tomada do poder: “Não destruam nada, temos de preservar tudo isso para as próximas gerações, é patrimônio cultural do nosso povo”. A segunda viagem se destinava a uma das 15 Repúblicas soviéticas. À minha turma, coube a Armênia, um choque de realidade que nos deu a lição de como era difícil edificar o socialismo com a pobreza herdada do regime anterior.

  Para completar, havia os sábados de trabalho. Limpar ruas; empacotar medicamentos; ajudar alguma fábrica a cumprir suas metas de produção, enfim, esse trabalho era obrigatório para todos e encarado pelo Partido Comunista da União Soviética como uma “grande iniciativa” desde o início da Revolução. Afinal, “no socialismo, ninguém vive sem trabalhar”.

  Num frio alvorecer de março, em 1982, chegou a hora de voltar para casa. Sob rígidas normas de segurança, embarcaríamos no aeroporto de Moscou. Com o camarada Mário César Ferreira, o Cecéu, olhei para trás a fim de fotografar o Instituto com os olhos. Jamais passaria pela minha cabeça que em menos de uma década a União Soviética se desintegraria e que o nosso amado Instituto se tornaria uma Faculdade de Finanças, na qual, juntamente com Amarilio Ferreira Jr. voltamos em 2012. Na mesma pracinha onde havíamos chegado em 1981, agradecemos ao PCB por ter proporcionado a nós e a tantos outros camaradas de Mato Grosso do Sul uma experiência inimaginável que tornou nossas vidas infinitamente mais ricas.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

                                     A CRISE CUBANA


           Cuba está vivendo hoje a maior crise desde a Revolução. Não é uma crise qualquer, está em jogo a sobrevivência do seu regime político. Dizia Gramsci, “a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”. Tanto o bloqueio quanto o socialismo cubano fazem parte do velho.

Não há como analisar Cuba sem se referir ao abominável bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Sua suspensão é parte da solução do problema cubano. O bloqueio dos Estados Unidos é irresponsável e condenável, e é um resquício dos tempos sombrios da Guerra Fria. Desde 1992, a Assembleia Geral da ONU vota esmagadoramente pelo fim desse bloqueio.

Os EUA nunca se conformaram por ter perdido Cuba da sua área de influência. Acham inaceitável um país socialista no seu quintal. Por isso, logo após a vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra, tentaram invadir a Ilha com tropas mercenárias. Foram derrotados em abril de 1961. No ano seguinte, o presidente Kennedy decretou o bloqueio a Cuba, que perdura até hoje. Trump determinou mais 243 novas medidas de bloqueio, até agora, não removidas por Biden.

  Mas é simplório e negacionista o discurso do governo cubano, que busca responsabilizar exclusivamente os americanos pela crise econômica e social do país. Ela tem raízes profundas na história e na natureza do socialismo cubano.

  Os manifestantes nas ruas reclamam da escassez de alimentos e remédios, problemas antigos e conhecidos. Reclamam dos apagões elétricos e mais recentemente denunciam o baixo acesso à vacinação contra a Covid. A pandemia também zerou uma das principais fontes de recursos do país, o turismo, fazendo com que a situação interna se agravasse. Não há como negar como justas essas reclamações. Nunca foi projeto do socialismo a igualdade na escassez.

Ao lado dos problemas reais, a internet se transformou em um poderoso instrumento de irradiação do descontentamento, mas também de organização e mobilização das manifestações.

Os cubanos clamam também por democracia e liberdade. Ou o regime encontra o caminho de reformas econômicas e políticas ou corre o risco de sucumbir. Ditaduras não são aceitáveis, nem as de direitas, tampouco as de esquerda. O socialismo nas atuais condições do mundo só é possível se incorporar uma nova plataforma que contemple a democracia, a liberdade e as novas demandas contemporâneas da cidadania global.

Após a morte de Fidel e a aposentadoria de Raul, os dirigentes cubanos iniciaram uma tímida flexibilização da economia e uma renovação na estrutura de poder porque sabem que é inescapável e urgente organizar uma transição do “socialismo real” para uma economia aberta ao mercado e para um sistema político democrático.

É importante ressaltar que para que as mudanças ocorram é imperiosa a suspensão do bloqueio. A pressão internacional sobre os Estados Unidos precisa avançar, tanto na ONU como opinião pública mundial. A suspensão do bloqueio fará com que Cuba se encontre com a sua verdade e avance nas reformas.

No caso da União Soviética, as reformas de Gorbatchov não chegaram a tempo, e o socialismo real desmoronou. A China reformou a economia, mas não reformou a política. Em Cuba, o povo nas ruas pode catalisar o processo de reformas, que já deveria ter ocorrido há quase 40 anos Não sei se Cuba tentará fazê-las, e com a profundidade necessária e se terá tempo para isso.

FAUSTO MATTO GROSSO

Engenheiro e professor aposentado da UFMS

 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

 UMA PRISÃO PROVIDENCIAL

Marisa Bittar  

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que Ninguém Iria Contar)


        

  Começavam os primeiros dias de maio. O ano era 1981.

O Partido havia feito uma manifestação no 1º de Maio e planejava uma ação-surpresa tendo em vista que políticos da ARENA estavam chegando a Campo Grande para lançar seu sucedâneo, o Partido Democrático Social (PDS). A principal figura da comitiva governista pró-ditadura militar era Paulo Salim Maluf.

  O esquema era o seguinte: dois grupos de militantes se encarregariam de pichar muros centrais da capital com dois slogans “Cuidado com sua carteira, Maluf vem aí” e “PSD= O Povo Deve Sofrer”. Eu compunha uma das equipes coordenadas pelo camarada Mario Sérgio Lorenzetto, que seguia à risca as instruções de segurança recebidas de nossos dirigentes. Na madrugada fria, após cumprirmos nossa tarefa, reunimo-nos na praça do Rádio Clube, tal como previamente combinado, para avaliarmos a operação e nos dispersarmos. Tudo havia sido um sucesso, nenhuma pista deixáramos. Mário Sérgio, então, nos mandou a todos para casa dormir.

  Contudo, assim que ele se afastou, restaram da minha equipe Mário Albernaz, Amarilio Ferreira Jr. e eu mesma. Estávamos tão perto dos muros do Jardim dos Estados, ainda tínhamos nossas tintas e muita energia! Foi quando um deles teve a ideia: “que tal picharmos mais uns dois muros?” Entusiasmados, lá fomos nós três. Mal começamos a escrever “PDS”, dois fortes faróis se acenderam nas nossas caras. Ao mesmo tempo, dois policiais desceram da viatura e gritaram: “Mãos pra cima!” Imediatamente nos ordenaram que abríssemos o porta-malas do Fiat que Amarilio dirigia e lá encontraram os panfletos restantes do Primeiro de Maio. Então, disseram apenas “pegamos”, e nos enfiaram dentro do camburão.

  Chegando à sede da Polícia Federal nos mandaram descer e entregaram-nos às autoridades a quem eles julgavam competentes para o caso. Estas, por sua vez, fizeram nossas fotos de frente e de perfil, e começaram a nos interrogar individualmente. Na minha vez eu só respondi que estava fazendo pichação por minha conta mesmo, que não pertencia a nenhuma organização. “E o que uma menina como você está fazendo com esses dois nessa madrugada tão fria, arriscando a sua vida?”. Eu não respondi nada. Só pensava que estava frita, pois havia desobedecido as ordens do Mário Sérgio colocando o Partido em risco e, além disso, mortificada comigo mesma, eu me cobrava “Logo eu que ajudo a manter os documentos do Partido e sou considerada disciplinada? Como vou justificar isso?”. Fomos colocados em celas separadas, escuras, e eu não tinha ideia do que nos iria acontecer, mas comecei a pensar também que quando o dia amanhecesse minha mãe não me encontraria na minha cama! Arrependida, eu pensava: “Por que não fizemos como Mário Sérgio mandou?!”

  No dia seguinte nos colocaram em uma viatura e nos transferiram para a delegacia do Bairro Cruzeiro. Lá, fomos destinados a uma cela comum, muito suja, na qual ficamos os três juntos pela primeira vez desde a nossa detenção. Como havia outros presos, nós nos comunicamos minimamente com olhares e sinais confirmando uns aos outros que nada havíamos falado sobre o Partidão. No fim daquele dia, graças à ação dos advogados do PCB, dentre os quais Marcelo Barbosa Martins e Carmelino Rezende, fomos notificados de que iríamos para a Delegacia Central da cidade e de lá, após procedimentos que deveriam ser cumpridos, provavelmente seríamos liberados. Foi o que realmente aconteceu após perguntas, fotografias, fichamentos etc, e os policiais, satisfeitos, repetindo que tinham desbaratado a operação contrária ao governo, a mesma que tinha feito a manifestação “subversiva” do Primeiro de Maio. Quanto a nós, embora aliviados, estávamos sem-graça para encarar nossos dirigentes que estavam ali para acompanhar o desfecho da ação. Sabíamos que depois teríamos de lhes prestar contas de nosso ato indisciplinado.

  Terminado o ritual policial, fomos liberados. Amarilio e eu fomos acompanhados por uma pequena caravana até minha casa na Rua Padre João Crippa, onde avistei um amontoado de gente na calçada aguardando a nossa chegada. Soubemos então que a notícia de nossa prisão havia corrido de boca em boca desde que um boletim fora expedido da Delegacia do Bairro Cruzeiro. Dentre minha mãe e irmãos, uma porção de amigos comuns tanto do PCB quanto do PT, muitos dos quais ainda hoje fazem parte do meu precioso rol de amizades construído durante a juventude. Do PT havia também aqueles cuja predileção era criticar o PCB com os piores qualificativos que, para nós, jovens militantes, eram verdadeira afronta e inaceitável ofensa. Segundo o refrão que repetiam a torto e a direito, revolucionários eram só eles do PT, o “único partido da classe trabalhadora”, “o primeiro construído pela classe operária brasileira”. Ao PCB que, fundado em 1922, era de fato o primeiro e mais antigo partido da classe operária brasileira cabia sempre os rótulos de “partido aliado da burguesia”, “conciliador”, “reformista”. E a minha casa era locus de muitas dessas discussões acaloradas porque uma parte de meus irmãos era do PCB, e a outra, do PT; cada uma delas arregimentando um pequeno exército. Por isso, ao ser euforicamente recebida por essa comitiva, olhei altiva para os “verdadeiros revolucionários” perguntando-lhes: “E então, quem foi pra cadeia?!”.

  Dias depois, tivemos de responder à direção do Partidão pelo nosso ato de indisciplina. Por um lado, aceitamos conformados as severas e justas críticas que recebemos. Por outro, no fundo do nosso íntimo, sentíamo-nos vingados das injúrias políticas que outros grupos de esquerda em Campo Grande viviam nos dirigindo. Por isso, apesar das graves consequências, transformamos o nosso erro em um triunfo para nós, jovens do PCB, uma prisão providencial!

segunda-feira, 12 de julho de 2021

 

TRANSPARÊNCIA DEMOCRÁTICA


O Brasil assiste ao vivo as transmissões das sessões da CPI da Covid, ao mesmo tempo em que acompanha, também ao vivo, as sessões do Supremo Tribunal Federal. Essa realidade de transparência é uma boa medida do avanço da nossa democracia, no que diz respeito ao Judiciário e ao Legislativo.

Hoje a população brasileira sabe o nome dos ministros, como sabe dos craques da seleção. O Levandowisk, o Gilmar Mendes, a Rosa Weber, o Marco Aurélio entre outros são amados ou detestados conforme seus votos.  Esse acompanhamento pela cidadania produz uma maior legitimação democrática das decisões

Entretanto, a transmissão ao vivo das sessões do Supremo, não é ainda uma questão pacificada. Os debates duros entre os ministros tem sido argumento para aqueles que defendem que a transmissão seja feita à noite, depois de editados os vídeos. Há ainda aqueles que advogam o fim da transmissão, pura e simplesmente, em ambos os casos, um profundo retrocesso.

  As transmissões ao vivo dos julgamentos realizados pelo Supremo, são um mecanismo de transparência que permite o controle externo indireto, realizado pela opinião pública. Ao mesmo tempo essa prática aproxima o Poder Judiciário do povo, contribuindo para a formação política da cidadania. Também é uma oportunidade para os estudantes de Direito ampliarem a sua formação técnica a respeito das questões constitucionais. As escaramuças descontroladas entre os ministros, que causa perplexidade na população, são pontos fora da curva e serão mais raras em sessões públicas, pois os ministros se obrigarão a se tratarem de maneira mais respeitosa e equilibrada.

  Também as transmissões ao vivo das sessões da CPI do Covid cumprem um papel de transparência democrática. Conhecer os subterrâneos do poder ajuda na formação política da cidadania.

  É através da CPI que estamos conhecendo a corrupção na Saúde, os prejuízos causados pela incompetência e pela burocratização, a frouxidão dos processos internos, a advocacia administrativa e o empreguismo de militares envolvidos com mal feitos. Com a presença de sete mil militares no governo, Bolsonaro espera garantir o apoio das forças armadas ao seu mandato.

Causa preocupação também, o tráfico de influência desempenhado por organizações evangélicas que acessam diretamente o governo, com desenvoltura de máfias. A ligação dessas com o governo “tremendamente evangélico” faz parte do plano do Presidente de consolidar sua base eleitoral, cada vez mais desgastada.

  O papel de fiscalização, hoje desempenhado excepcionalmente pela CPI, não devia causar tanto sobressalto na política, deveria ser encarada como uma questão rotineira. As funções do Legislativo são de legislar, representar a população e fiscalizar o poder executivo. É provável que com executivos mais fiscalizados rotineiramente, diminuísse a necessidade de CPIs bombásticas. Infelizmente tal não ocorre e predominam as relações de trocas e dependências entre legislativo e executivo, pouco republicanas e promíscuas.

  Atualmente, as transmissões ao vivo das sessões do Supremo e da CPI do COVID, criam uma atmosfera democrática, que permite os cidadãos terem acesso à realidade da política. São como duas janelas que iluminam a vida democrática. Por isso é que uma das primeiras coisas que as ditaduras fazem é fechar o Supremo e o Congresso, como clamam algumas vozes saídas do fundo das cavernas e dos pântanos. Vade retro!

FAUSTO MATTO GROSSO,

Engenheiro e professor aposentado da UFMS 

 

sábado, 10 de julho de 2021

 

WILSON E O PARTIDÃO
(Esta crônica será publicada no livro Histórias que Ninguém Iria Contar)



Não sei se Wilson Barbosa Martins tinha um plano para si no cenário político do nascente estado de Mato Grosso do Sul, mas o Partidão tinha um plano para ele. Deputado Federal por duas vezes, advogado defensor de presos políticos, respeitado pelo seu compromisso democrático, cassado com base no AI-5, com grande estatura intelectual e moral, tinha todos os requisitos para assumir a liderança da luta contra a ditadura em nosso estado. Essa foi a trajetória que, modestamente, ajudamos a construir, conforme reconhecido por Wilson, na sua própria biografia.

Nem sempre houve concordância entre o que defendíamos. Essas discordâncias ajudaram a identificar os limites políticos do nosso relacionamento. Wilson desejava nossa ajuda, mas não queria ser confundido conosco, o que entendíamos e respeitávamos.

O primeiro passo do plano foi viabilizar sua candidatura a presidente da OAB-MS. Tínhamos há anos a liderança na entidade, o que facilitou sua eleição. Com seu mandato na OAB, Wilson ampliou a sua visibilidade política no estado e sua articulação nacional através do Conselho Federal da OAB.

O passo seguinte foi eleição para governador em 1982. Uma ampla frente se formou em apoio a Wilson naquela que foi a primeira eleição direta para governadores. Foi uma vitória memorável, com o PMDB se impondo nacionalmente e no estado. A luta democrática colheu um importante resultado.

A partir daí, nossa relação com o governador, de certa forma, passou a ser mais discreta, quase clandestina. O Partidão, nem seus principais dirigentes jamais compareceram à Governadoria. O local das nossas conversas era o escritório de advocacia do governador. Nossos principais interlocutores eram Onofre Costa Lima e Carmelino Rezende, com os quais Wilson mantinha relações de camaradagem. 

Apesar dessa relação discreta, Wilson começou a ser cobrado como tendo concedido muito espaço ao Partidão o que não correspondia à realidade, mas causava grande desconforto tanto aos pemedebistas históricos como aos aliados mais conservadores do governador. Essa situação acabou gerando uma pressão anticomunista contra o governo, inclusive por parte da imprensa. É nesse contexto, tendo em vista a formação de uma ampla frente para isolar a Ditadura, que apoiamos a indicação de Lúdio Coelho a prefeito nomeado de Campo Grande. Era preciso dar um fôlego para o governo começar a governar.

O governador, diante da grande disputa pelo cargo de prefeito nomeado, principalmente entre os autênticos do PMDB, decidiu que ouviria o diretório municipal do PMDB, onde se abrigavam os comunistas, que detinham um terço dos seus membros.  O voto decisivo dos comunistas para a indicação de Lúdio se deu dentro da nossa perspectiva de frente democrática, onde todos que participaram da campanha estavam credenciados a participar do governo. O grupo de pecuaristas representados por Lúdio estava nessa condição e ajudaria a dar governabilidade a Wilson.

 O partido nunca pediu cargos no governo, mas ajudamos o governador a escolher secretários qualificados, sem relação partidária conosco.  Isso permitiu formar um bom secretariado, de perfil decente e progressista. Em função disso, importantes avanços foram conseguidos na educação, na saúde e na segurança pública, entre outras áreas. A bem da verdade, durante esse período, tivemos dois companheiros nossos ocupando cargos: na Enersul Ricardo Bacha e na Secretaria de Trabalho o advogado João José de Souza Leite, ambos atendendo convites pessoais do governador, sem nenhuma interferência partidária.

  Desavenças nossas existiram com a área de obras públicas, ocupada por quadros ligados ao senador Marcelo Miranda. Discordávamos do caráter faraônico das obras, que seguiam ainda o velho padrão do milagre brasileiro. A partir de posição que passamos a ocupar no governo Lúdio e na Câmara Municipal de Campo Grande travamos essa discussão pública. Uma das vitórias nossas nesse período foi salvar os Córregos Prosa e Segredo do completo envelopamento, caro e não ecológico.

O governo Wilson foi um marco na luta democrática e da moralização da gestão pública inscrevendo nosso estado no contexto nacional das mudanças. A campanha por eleições diretas cresceu com o firme apoio do governador, assim como a luta pela anistia e direitos humanos. Apoiamos e participamos de todas essas lutas, primeiramente dentro do próprio PMDB, até 1985, quando foi legalizado nosso partido, depois continuamos nossa relação dentro da Aliança Democrática formada pelo PMDB, PFL, PCB e PCdoB.

Em 1988, veio a nossa ruptura com o PMDB durante o processo eleitoral para prefeito de Campo Grande. Terminava meu mandato de vereador e a reeleição era considerada certa. O candidato a prefeito era Plínio Barbosa Martins, nosso tradicional aliado político, portando, estávamos apostando em uma confortável aliança política. Aprovamos em nossa convenção a coligação com o PMDB quando, para nossa surpresa, esse partido, unilateralmente recusou a coligação com o PCB, que havia sido combinada com Wilson.  Esse mal explicado episódio selou nosso rompimento com o PMDB e nos levou a uma desesperada campanha com uma candidatura própria a prefeito, com Alan Pithan e Onofre da Costa Lima, que não logrou atingir o quociente eleitoral para vereador. Assim, foi encerrado o meu mandato na Câmara Municipal de Campo Grande.  Essa Wilson ficou nos devendo.


segunda-feira, 28 de junho de 2021

 

LEMBRANÇAS DA LUTA SINDICAL

João José de Souza Leite

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que ninguém iria contar)



Éramos uns poucos e o sentimento do mundo, como diria Drummond. José Rodrigues dos Santos, negro das Minas Gerais, fugira de casa quando criança e nunca mais voltou. Inventou seu nome, sobrenome e idade e colocou na sua tardia certidão de nascimento.  Meteu-se na vida sindical através do Partido, foi parar na primeira direção da CONTAG – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. Tinha verdadeiro pavor de jagunço. Traiçoeiro e ruim, falava. Quando ficava brabo dizia que fulano de tal merecia uma surra com relho de umbigo de boi. Chegou a Campo Grande, vindo do Paraná e fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Gostava de dar festas no Sindicato chamando mulheres e crianças, aquela alegria! Tinha muitas namoradas. Sua contabilidade sindical era uma confusão. Dava úlceras na direção partidária. Que também lhe dava úlceras.

Jovelino Teodoro dos Santos, da construção civil, idoso, tinha grandíssima antipatia pelo esquerdismo, nunca se esquecia de quando foi para Dourados organizar a resistência ao Regime de 64, fizeram uma reunião clandestina no meio do mato para recebe um bam-bam-bam dirigente partidário que começou a ler um calhamaço analisando a situação política nacional e internacional e antes do meio da reunião mais da metade de seus participantes já estavam dormindo profundamente. Caiu fora. Veio para Campo Grande cuidar da mulher e dois filhos, comprou um lote na Vila Jockey Clube e construiu sua moradia. Foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário. Quando uma situação estava muito esculhambada dava seu veredito: uma casa de puta comandada por viado. Risos. Hoje a reação dos ouvintes seria outra. Coisas da época

Antônio Benjamin Fontoura Corrêa da Costa, de família tradicional mato-grossense. Na Enersul organizou a fundação do Sindicato dos Eletricitários. Foi mandado embora. Uma luta para registrar a papelada na Delegacia Regional do Trabalho e obter o registro sindical. Luta maior ainda para obter na Justiça do Trabalho seu retorno. Ficou muito tempo sem salário. Sofreu. Mas se esquecia com frequência das reuniões. Que eram feitas às escondidas, pensava esse time. Santa ignorância!

Celso Pereira da Silva volta e meia me telefonava e se comunicava por códigos secretos: o jovem Lino, o beija as cobras, etc., para tratar dos nossos assuntos.  Reuniões para quê? Prá avaliar as lutas nos sindicatos e não deixar transbordá-las de seus objetivos, luta por melhores salários, se transformasse uma correia de transmissão de partido político.

Como se vê nossa divergência com o PT é antiga. Éramos assim, normais, mais ou menos, comemorávamos o dia das mães, dos pais, das crianças, nos benzíamos passando por um cemitério e ligadíssimos na política. Nossa militância sindical foi se definhando à medida que a política se transformava: vieram as eleições para governador, campanha das diretas, campanha da Constituinte, finalmente a redemocratização.


 

 

POR DETRÁS DAS LEIS

Carmelino Rezende

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que ninguém iria contar)

 


           Houve um tempo, durante o período da Ditadura, em que os órgãos de repressão passaram a privilegiar a informação à repressão pura e simples.  Mais importante do que prender passou a ser saber o que os “inimigos” estão fazendo.

           Foi graças a essa mudança “civilizatória” da repressão que me livrei de uma bela enrascada.

           Meu primeiro endereço como advogado, em Campo Grande, foi na rua 13 de maio, entre a Av  Afonso Pena e a Barão do Rio Branco.  Passados uns anos, bem em frente, estabeleceu-se a Direção da Polícia Federal.

           Frequentava o escritório meu amigo fraterno, colega de faculdade, Aleixo Paraguassu, recém empossado Juiz de Direito.  Antes de aqui chegar, ele havia sido Delegado de Polícia em Brasília e, estudioso que sempre foi, tinha sido lá professor na Escola Nacional de Polícia.

           Logo, muitos dos policiais da Federal o reconheceram, reatando antigo relacionamento da época da Escola.   Sempre juntos, passei também a dividir as conversas com os amigos de meu amigo.

           Passado algum tempo, um dos policiais, que se dizia estudante de Direito, pediu para frequentar o escritório, como estagiário.  Volta e meia pedia algum livro emprestado, discutia um tema qualquer e assim se tornou pessoa presente em nosso cafezinho.

           Naquela época, de dura repressão, o jornal do Partido era o “VOZ OPERÁRIA”, impresso e distribuído clandestinamente, com poucos exemplares, em cada órgão estadual, que o repassava aos militantes de mão em mão, até que o último o incinerava.    Quem fosse pego com a V.O. na mão, estava dispensado de interrogatório...

           Um belo dia, recebi a V.O. do mês.  Enquanto me preparava para passá-la adiante, escondi o exemplar na biblioteca do Escritório, na estante da coleção de leis editadas pela “LEX”, com  uns 100 volumes.

           Chegando de repente da rua, a Secretária me informou que o amigo da Polícia estava na minha sala, procurando um livro.  Abri a porta e me deparei com o “cara da Federal” com a mão em cima da estante da “LEX”, bem próximo de onde estava escondido o “tesouro”.

           Não sei quem se assustou mais, se ele ou eu, mas ambos mantivemos a serenidade, com uma desconversa qualquer.  Logo ele se desinteressou pela pesquisa da Lei que procurava e atravessou a rua.

           Até hoje não sei se o “cara da Federal”, apiedado com a franqueza do trato que sempre teve, quis apenas dar um aviso, até porque o volume ficou fora do alinhamento, ou, se, de fato, não chegou ao “tesouro”.

           Uma coisa, porém, mudou muito depois disso. O estagiário raleou suas visitas e sua presença no cafezinho não foi mais tão frequente, até que desapareceu.   E o meu amigo Juiz percebeu também que sua amizade com seus antigos alunos foi se esfriando, até mesmo com indiretas sobre o embaraço de se ter certas amizades inconvenientes. 

           O fato é que, depois do susto, por muito tempo nossa “base” de advogados não se reuniu mais no escritório, nem a V.O. foi entregue nesse endereço.   Mas, como na vida tudo passa, com o enfraquecimento do regime, com a campanha da anistia, das diretas, e com as primeiras eleições, aquele “aparelho” virou comitê de vários desses movimentos e até mesmo a Polícia Federal acabou mudando-se para sua nova sede, onde está até hoje.

Carmelino Rezende

 

GILBERTO GIL, MORENINHO E O FOGO

Mário César Ferreira (Cecéu)

(Esta crônica será publicada no livro Histórias que ninguém iria contar)




Já abordado neste livro, retomo aqui o tema das finanças do PCB no Mato Grosso do Sul. Ter recursos financeiros para a ação política do partido sempre foi essencial, estratégico. De fato, cuidar das finanças era atribuição específica de poucos na divisão do trabalho partidário. Assumiam a tarefa os camaradas que gostavam ou aqueles (raros) que tinham afinidade com o métier. Tínhamos certa consciência de que para vencer o “capital” precisávamos (e muito) de capital. Do vil metal.

O final da década de 1970 e início da década de 1980 no Brasil é marcado por fatos importantes no cenário efervescente da luta política pela redemocratização do país. O congresso de reconstrução da UNE (1979), a reforma partidária (1979), a lei da anistia (1979), as importantes greves dos metalúrgicos no ABC paulista (1979), a 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora – CONCLAT (1981) e a criação da CUT (1983) são alguns dos acontecimentos que turbinam o fim da ditadura civil-empresarial-militar que imperou por 21 anos no Brasil.

É neste ambiente social e político que em Mato Grosso do Sul o partido empreende iniciativas de reorganização do movimento sindical no estado, principalmente em Campo Grande onde ele era mais organizado. O PCB havia conquistado a hegemonia na direção do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil e do Mobiliário de Campo Grande no início dos anos de 1980, também contribuído na fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campo Grande e atuava fortemente para ganhar espaço político sindical entre os trabalhadores da Enersul (empresa de energia elétrica privatizada em 1997) e os bancários de Campo Grande (estes sob forte influência do PT).

Para alavancar o trabalho sindical do PCB no MS, o partido decide adquirir um carro para dar suporte ao trabalho de reorganização sindical dos camaradas que atuavam nesta trincheira política. Neste contexto, resolvemos integrantes do partido no movimento estudantil (FUCMT e UFMS), propor uma atividade cultural de vulto em Campo Grande: a realização de um show do consagradíssimo Gilberto Gil. Fiz parte do time dos camaradas que organizaram e promoveram em abril de 1981 esse evento no Ginásio Moreninho da UFMS. Escolha e definição do local feitas com a valiosa ajuda dos nossos estudantes do PCB na UFMS.

Fizemos intensa divulgação do evento na cidade. Ao buscar o Gilberto Gil no aeroporto conseguimos algo politicamente muito importante para o PCB e as forças progressistas. Ele concordou em visitar o Comitê de Defesa do Pantanal e subscrever o abaixo assinado contra a instalação de usina de álcool (e vinhoto) na região de Bodoquena no MS. Ao final de uma passeata com cerca de 15 mil participantes, o abaixo-assinado foi entregue na Assembleia Legislativa do MS com cerca de 100 mil assinaturas. Marcante vitória política que certamente contribuiu decisivamente para a não instalação da propalada usina naquele momento histórico.

O show do Gil foi sucesso total. O ginásio Moreninho ficou lotado. Vendemos também muitas camisetas e cartazes que estampavam conteúdo político de esquerda (ex. mais vale um passo com mil que mil passos com um). Gil havia lançado o álbum “Luar” (1981) e abriu o show cantando a música Palco:

Subo nesse palco, minha alma cheira a talco

Como bumbum de bebê, de bebê

Minha aura clara, só quem é clarividente pode ver

Pode ver

A galera, majoritariamente de estudantes, veio abaixo, cantando junto.

Ficamos eufóricos com o sucesso da empreitada. Grana garantida para o partido. Graças a este trabalho o partido conseguiu comprar um fusquinha 1500 de cor amarela para o suporte do trabalho sindical dos camaradas. Missão cumprida.

Mas, nem tudo foi alegria. No dia seguinte, na vistoria de entrega do ginásio Moreninho ao gestor veio a desagradável surpresa. O piso perto do palco onde Gil cantou belas músicas estava com cerca de meio metro queimado. Os exaltados participantes que lá estavam fizeram pequena fogueira; não percebida na hora do show. Felizmente por razões que a memória agora não ajuda lembrar, não foi necessário ressarcir o locador. Desde esse evento, a UFMS proibiu a realização de shows no ginásio Moreninho. Nossos camaradas estudantes da UFMS ficaram em “saias justas” pela micro depredação que, infelizmente, escapou nossa governabilidade.

Após o show, o evento repercutiu muito durante a semana na FUCMT entre os estudantes mais próximos e simpatizantes do partido. Em uma roda de conversa, um simpatizante falou: “Que sucesso foi o show! É verdade que o Gil está querendo entrar para o PCB?”. Respondi de pronto: “Sim. Ele está pensando seriamente nisto.” Anos depois, em 1988, Gil se filiava ao PMDB e se elegia vereador em Salvador com 11.111 votos.


sexta-feira, 25 de junho de 2021


O TRATORAÇO


Durante as campanhas eleitorais, “nossos representantes” costumam dizer que “vão trazer dinheiro de Brasília”. Eleitos, grande parte deles joga quase toda a sua energia para a encarniçada batalha pelas emendas, se precisar, vendem a alma ao diabo. Através dessas emendas é que se estabelece um jogo espúrio e imoral do cabresteamento dos votos dos parlamentares pelo Executivo. 

Emendas parlamentares deformam as prioridades e fragmentam as políticas públicas, reforçam o clientelismo de eleitores e instituições, bem como são brechas para os mais espúrios casos de corrupção. Durante a execução, as emendas têm “donos” e, segundo a praxe, estes ficam com o direito de cobrar “pedágio” para que esse dinheiro chegue até a obra, equipamentos ou serviços indicados.  A prática da emenda parlamentar tem sido um dos recantos mais escuros e malcheirosos da política. Esse é o reino do baixo clero, a Sapucaí da política brasileira, já exposta em inúmeros escândalos no Congresso.

Atualmente, as emendas ao orçamento são de quatro tipos: individual, de bancada, de comissão e do relator. Todas são de execução obrigatória. As emendas individuais são reservadas a cada deputado ou senador, neste ano é de R$ 8 milhões, distribuídas de forma igualitária entre os parlamentares da situação ou da oposição. As emendas de bancada são coletivas, de autoria das bancadas estaduais ou regionais. Também são coletivas as emendas apresentadas pelas comissões técnicas da Câmara e do Senado.

Já as emendas do relator (também conhecidas no jargão burocrático pelo código RP9) são feitas pelo relator do Orçamento. Em 2021, o relator-geral do Orçamento foi o senador Marcio Bittar (MDB-AC).

  As emendas de relator, em princípio de pequeno valor, serviriam para ajustes técnicos do orçamento, como a destinação de recursos para alguma área que precisa ser melhor contemplada ou para cumprimento de mínimos legais, etc. Ao longo do tempo sua dotação foi aumentando assustadoramente. Neste ano o relator pleiteava R$ 26 bilhões, inclusive avançando sobre recursos de despesas obrigatórias como Previdência, seguro-desemprego e abono salarial.     Mas foi contido e ao final esse valor foi reduzido a cerca de R$ 16 bilhões. É desse montante que saíram os R$ 3 bilhões de reais para distribuição secreta, entre os apoiadores do governo. Sendo classificadas como emendas técnicas do relator, o nome dos deputados ou senadores fica oculto, ninguém sabe nem o nome do parlamentar, nem o valor recebido, ficando tal montante protegido dos órgãos de controle. Para liberação desses recursos, bastava um simples oficio do parlamentar ao ministro.

  As emendas do relator estão concentradas no Ministério de Desenvolvimento Regional, que é o lugar onde estão alocados, os recursos para obras de pavimentação, calçadas, rede de abastecimento de água, esgotamento sanitário, contenção de encostas - todas elas iniciativas de grande apreço dos deputados e senadores, porque isso gera votos. Também os parlamentares pediram pavimentação de estradas, compra de tratores, pás carregadeiras, roçadeiras, caminhões, escavadeiras, usinas de asfalto. Segundo o Estadão muitos preços estão superfaturados, tendo o governo chegado a liberar R$ 359 mil para compra de um trator, cujo custo normal seria de até R$ 100 mil.

Bolsonaro, que prometera acabar com o toma lá da cá, é politicamente beneficiário desse jogo político do orçamento paralelo, também apelidado de tratoraço, ou bolsa deputado, uma imitação do mensalão para comprar apoio dos deputados e senadores. A inovação foi esconder essas emendas. O orçamento paralelo foi montado por ocasião da eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, de grande interesse para o Governo. Essa escandalosa operação está sendo questionada no Supremo, por ação do PSB e do Cidadania, bem como foi aberta uma investigação pelo subprocurador-geral do Ministério Público junto ao TCU. É importante acompanhar os desdobramentos dessas iniciativas.

 

FAUSTO MATTO GROSSO,

Engenheiro e professor aposentado da UFMS